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Mônaco, Sem Euros ao Dia

Como aproveitar o GP mais glamoroso da Fórmula 1 mesmo estando duro.
Com um pouco de jeitinho, o glamour do GP de Mônaco está ao alcance até de jornalistas durangos (pessoal)

A coluna de hoje é uma das matérias de “Movido a Gasolina, coletânea das melhores reportagens da minha carreira publicadas em revistas como Road & Track, Car and Driver, Quatro Rodas e The Red Bulletin.

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Aéroport Internacional Nice, Côte d’Azur, França – O voo da KLM faz um pouso amanteigado, minha mala é a primeira a sair pela esteira de bagagens e, logo no saguão de desembarques, um homem vestindo um terno bege e segurando um cartaz da Mercedes-Benz acena em minha direção.

Somente quando ele se aproxima e abre a boca para falar comigo que me viro e percebo o rapper Busta Rhymes e seus parças exatamente atrás de mim, desembarcando para o Festival de Cinema de Cannes.

Driblo o motorista da Mercedes e, um bumba de € 4 e um trem de € 3 depois, chego ao meu verdadeiro destino: o GP de Mônaco de 2008 da Fórmula 1.

Voltando a fita para dois meses antes…

…e uma idéia mirabolante. Uma passagem até Nice obtida com milhagem, um hotel decadente reservado com um ano de antecedência para a semana do GP e a esperança de talvez-quem-sabe obter uma credencial de convidado: meu plano está pronto para curtir o GP de F1 em Mônaco, a terra do café espresso a R$ 20, gastando menos de € 500. É possível? Claro! Pra isso existe o jeitinho brasileiro, exemplificado nas sete estratégias de “economia criativa” abaixo:

1 – Nice is nice

Se o seu sobrenome não é Galvão Bueno (atualmente, um morador do Principado), nem sonhe em hospedar-se em Mônaco. A 20 minutos de trem, Nice oferece opções de hospedagem bem mais em conta. A antecedência é fundamental para garantir um bom preço – a semana seguinte ao GP é a ideal para se fazer a reserva para o ano seguinte.

A melhor pedida é o hotel Ibis Centre Gare, literalmente do lado da estação de trem que o levará até Monte Carlo, já economizando alguns preciosos euros do táxi do hotel até a estação

2 – Stars N’ Bars

O que significam € 500 em Mônaco? “É o que eu gastava de aluguel da scooter por três dias no meu tempo de piloto”, revela o ex-F1 e atual comentarista da TV Globo, Luciano Burti.

Ser criativo, pois, é a chave para economizar grana. A primeira chance para entrar no clima do GP gastando pouco é o Stars N’ Bars, uma hamburgueria temática cheia de memorabilia de automobilismo, incluindo uma Jordan de 1993 pendurada no teto. A comida não é o bicho e os preços são tão salgados quanto os hambúrgueres, mas, pela proximidade com o paddock da F1, o Stars N’ Bars vira o ponto de encontro de membros das equipes, jornalistas e dos próprios pilotos – todos, possíveis vítimas para filar uma credencial, caso você ainda esteja desesperado atrás de uma.

Em uma mesma noite de quarta-feira, descolo dois passes para o final de semana: uma para o paddock da GP2 (que não dá acesso ao da F1, mas tem comida e internet wi-fi de graça!) e outra para a Energy Station flutuante da Red Bull, espécie de centro nervoso do agito durante o GP.

3 – Red Bull Energy Station

Normalmente, para se ter acesso ao centro de hospitalidade da Red Bull nas corridas da F1, é necessário uma credencial de imprensa ou de paddock VIP. Não em Mônaco: aqui, a Energy Station se expande e toma a forma de uma balsa flutuante com piscina, mesa de pebolim, DJ desk e capacidade para até 1.500 pessoas.

O monstro não cabe no exíguo paddock monegasco, portanto uma credencial exclusiva da Energy Station é confeccionada especialmente para Mônaco. A balsa serve 250 garrafas de vodka e 2.500 long necks de cerveja ao longo de quatro dias, e eles precisam de gente que consuma tudo isso – descolar um passe é relativamente descomplicado, se você conhecer alguém que conhece alguém.

O primeiro treino em Mônaco acontece na quinta, e não na sexta. Talvez por isso, os procedimentos de segurança são mais relaxados. Se você tiver qualquer tipo de credencial pendurada no pescoço, for esperto nos movimentos e mantiver uma expressão incólume, o acesso às arquibancadas (onde, em tese, só quem tem ingresso pode entrar) não é difícil. A técnica funcionou perfeitamente na arquibancada do S da Piscina, uma das melhores do circuito, com visão total da ação nos boxes. Vai Braziu!

4 – Rolê de barco

A Energy Station também serve como ponto de partida para botes que cruzam o cais de Mônaco para o lado leste do Principado, inacessível por terra durante as sessões de pista. É na margem leste que está o mítico túnel que torna o circuito de Monte Carlo ainda mais único e desafiador.

Também na quinta-feira, a técnica tupiniquim do “carão” ou “PedroDiLara” funciona na arquibancada da saída do túnel. Não sente, porém: é na parte de baixo desse setor, de pé, que você consegue a visão mais de perto possível em todo o calendário da F1 dos carros passando em velocidade. A dois metros de você, os pilotos reduzem de quase 300 km/h em sétima marcha na saída do túnel para menos de 100 km/h em segunda na freada para o S, e aceleram tudo de volta até a curva da Tabacaria. Incrível.

5 – De gaiato no navio

Já que sexta é um dia livre em Mônaco, é na quinta à noite que as melhores baladas acontecem. Por “melhores festas”, entenda-se as que rolam a bordo dos mega-iates ancorados no porto local.

O rei deles todos é o Indian Empress, a imperatriz hindu de propriedade do dono da equipe Force India, Vijay Mallya. O 24º maior iate do mundo tem 311 pés (95m) de comprimento e 30.000 cavalos de potência, suficientes para humilhar seu tradicional vizinho, o Force Blue do chefão da Renault, Flavio Briatore, um reles 91º colocado no mesmo ranking. Milionários mais humildes preferem alugar iates locais por um preço médio de € 50 mil pela diária na semana do GP.

Com fama de boêmio, Mallya organiza na quinta a maior festa do final de semana, juntando os poderosos da F1 com as estrelas do Festival de Cannes, que acontece paralelo ao GP.

Furar essa festa é tarefa para poucos. Não é impossível, porém: conhecer de festas do GP Brasil algum piloto baladeiro e arranhar um italiano para acompanhar a delegação dele é a fórmula para despistar a belíssima hostess na entrada – e dividir a pista de dança do meganavio com Jay-Z e Kate Hudson, entre outros

6 – Turismo sexta

A não ser que você seja superfã da GP2 (lembrando: você não é), não há muito a se ver na pista na sexta-feira – o que é ótimo, considerando a monstruosa ressaca que você terá após a micareta de quinta. Tire o dia para cumprir os clichês de turista no Principado: percorrer os 3.340 m do circuito à pé, com paradas obrigatórias na igreja St. Devote (que dá nome à primeira curva) e no célebre Casino de Monte Carlo, repleto de Bentleys e Ferraris estacionadas à porta. Aviso ao turista durango: para desencorajar curiosos, a mera admissão nos salões de jogo custa € 20 na semana da corrida. Mas entrar no belo saguão decorado com fotos de todos os vencedores do GP é free

7 – La Rascasse

A verdade é que Mônaco, como qualquer circuito de rua, não oferece nenhum ponto em que a vista da pista é realmente excelente. Na hora de ver a corrida, o melhor é usufruir da atmosfera dos fãs em frente a um dos telões espalhados ao longo do traçado, algo que a colina sobre a curva La Rascasse atinge com perfeição. Com um bônus: é de graça (portanto, chegue cedo no domingo e traga cadeiras de praia se quiser sentar).

O lado negativo é que a colina da Rascasse é, há anos, reduto de um fã mala inglês com um megafone conhecido pelos locais como Fã Mala Inglês Com um Megafone (Annoying British Fan With a Megaphone, sendo literal).

“Leeeewwwwiiiiisss!,” ele grita até obter um aceno tímido de Hamilton enquanto os carros alinham no grid. Em seguida: “Fayyyyleeeeeepayyyyyy!”, tentando obter a atenção de Massa. Prepare-se: são 20 pilotos, e “Kiiiiimiiii” e “Fernaaaaaaandoooo” serão os próximos.

Ignore o Fã (ou tome cerveja após cerveja até entrar no clima da brincadeira) e o local é, disparado, o melhor para assistir a corrida sem pagar os € 283 do ingresso mais barato, oferecendo uma vista panorâmica de toda a curva La Rascasse. Melhor ainda é descer a colina e fazer a caminhada entre a arquibancada do S da Piscina e a própria La

Rascasse bem na hora da largada – é terminantemente proibido parar nessa parte, onde a única coisa separando você dos carros é um guard-rail de 1m de altura.

Sincronize bem seu trajeto e brasileiramente teste a paciência dos seguranças, porém, e o prêmio será ver os 20 carros passando colados por ali na primeira volta. Poderia se dizer que essa visão vale totalmente o ingresso, se você de fato tivesse pagado alguma coisa para passar por ali..

P.S.: Curtir a balada em uma balsa flutuante e em um iate de bilionário indiano ancorados no cais de Mônaco é uma bela noite de fantasia, mas a verdade é que, ao final daquela noite, ainda era preciso retornar para o humilde quarto do Ibis em Nice.

A caminhada do cais até a estação de Monaco-Monte Carlo do trem é longa, e o primeiro trem para Nice só partiria dali a uma hora. Mesmo com os primeiros raios de sol da manhã ensaiando aparecer no horizonte, o véu da noite ainda oferecia cobertura suficiente para meu cérebro etilizado e minha bexiga saturada conspirarem para a tomada de uma decisão ousada: o esvaziamento da profusão de Singhas ingeridas ali mesmo, na zebra interna junto ao guard-rail da St. Devote.

Na sessão de treinos seguinte da F1, em sua primeira saída à pista, Felipe Massa atrasou demais a freada para a St. Devote, beliscou a zebra interna e passou reto em sua Ferrari. Caso minha umedecida noturna tenha tido alguma parcela de culpa, ficam aqui minhas tardias desculpas formais, Felipe.

Espionagem Industrial

Repórter à Solta

Sobre o autor

Cassio Cortes

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