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Moto vs. Gravidade

Mais fraturas do que anos de idade: assim é a vida dos pilotos que voam pelos ares no motocross freestyle
Nunca um esporte evoluiu tão rapidamente quanto o motocross freestyle nos anos 2000... (Alex Schelbert - Red Bull Content Pool)

A coluna de hoje é uma das matérias de “Movido a Gasolina, coletânea das melhores reportagens da minha carreira publicadas em revistas como Road & Track, Car and Driver, Quatro Rodas e The Red Bulletin.

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Contemplem o esporte mais fisicamente brutal do mundo: não o futebol americano ou o rugby, tampouco o boxe ou o MMA, e sim um jogo jogado sobre duas rodas impulsionadas por um motor dois tempos a combustão interna, e chamado de “Freestyle Motocross”. Ou, mais abreviadamente, “FMX”.

Agora, venham conhecer o topo da pirâmide desse jogo, o Red Bull X-Fighters, um circuito mundial com cinco etapas partindo da Plaza de Toros da Cidade do México e progredindo por Rio de Janeiro, Fort Worth nos EUA, Wuppertal na Alemanha e terminando em outra Plaza de Toros, essa em Madri. Uma jornada de glória, fama e fortuna e, para a maioria dos seus viajantes, fraturas. Muitas fraturas.

“Já quebrei minhas duas clavículas e meus dois pulsos, desloquei meus dois ombros, desloquei o tornozelo esquerdo, e parti o fêmur direito ao meio. E acho que só”, enumera Nate Adams, vencedor da etapa de Madri do X-Fighters em 2005. “Não, peraí: também rompi o ligamento cruzado do joelho direito. Foi na mesma queda em que desloquei o ombro direito”.

Adams, um nativo de Phoenix com 23 anos e que se auto-intitula “O Destruidor” (“The Destroyer”), é uma espécie de arquétipo que ilustra o crescimento explosivo do FMX nos últimos anos. Evidentemente, os logos de uma bebida energética e de uma marca de tênis descolada cobrem sua Yamaha, mas seu patrocinador principal não poderia ser mais popular: a rede de supermercados Target, uma das maiores dos EUA. Adams também é típico na forma como acabou se tornando um piloto de FMX.

“Comecei a competir correndo de motocross em 1992, mas a verdade é que nunca fui muito bom”, sorri. “Não era exatamente ruim, mas ficou claro para mim já nos primeiros anos que eu nunca seria uma estrela das corridas. O motocross freestyle me veio de forma muito mais fácil e natural”.

O espanhol Dany Torres, aos 19 anos o mais jovem piloto do X-Fighters, simplifica: “Quando eu corria no motocross convencional, a parte que eu mais gostava eram os saltos. Então pensei: por que não fazer só os saltos?”

Como uma modalidade que demanda certa dose de irresponsabilidade de seus adeptos, o FMX se assemelha a outro esporte a motor outrora nichado, mas que cresce cada vez mais entre os millenials: o drifting. Além de serem ambos ilhas de subjetividade no mundo dominado pela objetividade do cronômetro do esporte a motor, o FMX e o drifting carregam outra característica em comum que explica o seu crescimento quase que paralelo: o baixo custo. A Yamaha YZ250F que leva Adams a múltiplas vitórias no X-Fighters é praticamente original de fábrica.

“Trocamos o guidão original por um menor, menos intrusivo; cortamos também os assentos para ter mais espaço para os movimentos no ar, fazemos alguns buracos na carenagem para servirem de pontos de apoio para as mãos, trocamos a suspensão por outra mais firme que aguente melhor o tranco nas aterrissagens, e colocamos um escape esportivo para ter respostas um pouco mais rápidas no acelerador”, enumera. “E só”.

Essa facilidade de acesso ao mundo do FMX é exemplificada por um piloto no outro extremo do espectro em relação a Adams e seus patrocinadores dignos da lista de “500 Maiores” da revista Fortune. O brasileiro Gilmar “Joaninha” Flores – pode haver um apelido mais apropriado para um piloto de FMX do que o nome de um adorável inseto voador colorido? – faz no México, aos 28 anos de idade, sua segunda aparição no X-Fighters.

Joaninha se notabilizou no Brasil por tornar-se o primeiro piloto do país a completar o backflip simples, ou seja, uma volta completa de 360 graus no eixo vertical. O famoso “mortal para trás”. O piloto natural de Sinop (MT) ainda não consegue adicionar variâncias aos seus backflips, principalmente pela falta de uma piscina de espuma, ou foam pit, específica para treinar.

…com Travis Pastrana sempre liderando o processo (Chris Pondella – Red Bull Content Pool)

Uma espécie de lago preenchido com blocos de espuma de meio metro cúbico cada, as piscinas de espuma são fundamentais para permitir que um piloto treine e teste novas manobras sem ter a obrigação de acertar uma aterrissagem perfeita para evitar lesões graves. Como diabos Joaninha conseguiu aprender a fazer backflips sem possuir uma piscina de espuma para treinar? Melhor nem imaginar…

“Uma piscina de espuma profissional usa espuma não-inflamável, que é bastante cara, mas é a que você precisa ter, sem sombra de dúvida”, explica Adams. “Uma vez vi uma moto pegar fogo em um foam pit feito com espuma comum, retirada de colchões. Virou um inferno incandescente assim!”, conclui, estalando os dedos para ilustrar o quão rápido foi esse “assim”.

“É muito ruim não ter verba para comprar a espuma certa, mas pra falar a verdade, até encontrar a quantidade de espuma de colchão que eu precisava foi difícil”, continua Joaninha, que acaba de terminar sua piscina própria com espuma convencional. “Tudo isso de espuma para levar até Sinop? O pessoal achava que era trote”, ri.

“Eu sei que não é seguro ficar caindo com uma moto quente respingando combustível várias vezes em cima da espuma de colchão, mas, fazer o quê? Não me chamo Travis Pastrana”.

E assim finalmente chegamos ao homem sobre o qual Joaninha e praticamente todos os pilotos de FMX do mundo pensam obsessivamente. Aos 24 anos, Pastrana é o único nome realmente famoso em todo mundo que o FMX produziu – ou ao menos era, até se aposentar do esporte ao final da temporada 2007 do X-Fighters. Nada fez mais pela popularidade mundial do FMX do que o tapa na cara da gravidade dado por Pastrana com seu duplo backflip na final do X-Games de 2006 (ver Rali Radical, pág. XXX).

Até hoje, Pastrana é o único homem no mundo a ter atingido o feito. Ninguém, nem mesmo ele, conseguiu repetir a façanha, seja em competições, seja em treinos, seja só para poder zoar os parceiros antes de aterrissar de cabeça para baixo na piscina de espuma. Ninguém, nunca.

“Antes das pisicinas, algo como o double backflip era simplesmente impossível”, recorda Pastrana. “De certa forma, as piscinas de espuma tornaram o esporte ainda mais perigoso, pois elevaram o nível técnico das competições dramaticamente, já que você pode treinar mais e arriscar muito mais”.

“E mesmo assim não se pode dizer que o esporte agora é ‘seguro’ por causa delas. Claro que é muito mais seguro do que quando treinávamos em pistas de terra, mas já quebrei uma perna e a clavícula aterrissando na espuma”.

Sobre a manobra que chocou o mundo no Staples Center em 2006, Pastrana mantém o ar de banalidade que marcou todas as façanhas de sua carreira até hoje.

“Treinei o double backflip durante três anos e só uma vez consegui executar com perfeição nos treinos. Foi uma vez no treino, uma vez na final do X-Games, e só. Na verdade, na própria semana da final do X-Games, caí umas sete ou oito vezes nos treinos tentando, sem conseguir”.

“Tenho certeza que outros pilotos vão acabar conseguindo fazer o double, mas para mim o risco não compensa mais. Meu foco agora é no rali”. Pastrana conquistou o campeonato norte-americano de rali de velocidade em 2006, pilotando um Subaru Impreza WRX.

De que “risco” estamos falando, exatamente?

“Eu já passei por 18 cirurgias devido a fraturas causadas pelo FMX, mas não é disso que estou falando aqui”, segue, acrescentando uma pausa dramática antes da conclusão: “Erre um double backflip, e as chances de morrer são enormes”.

Além de provavelmente garantir que seu número de “mais de 20” fraturas na carreira vai parar de se expandir no mesmo ritmo, a ida de Pastrana para o mundo das quatro rodas deixou um espaço aberto no topo da pirâmide do FMX. E não faltam novos candidatos ao trono.

Um dos herdeiros mais credenciados é o australiano Robbie Maddison, que também gerou manchetes mundiais ao saltar sobre um campo de futebol americano inteiro na noite de réveillon de 2008 em Las Vegas, quebrando assim o recorde mundial de salto em distância sobre uma moto.

“Já sofri 25 fraturas, exatamente uma para cada ano da minha vida”, diz o australiano com um sorriso. Um sorriso falso: os dentes da frente originais foram vitimados em uma das quedas. “A primeira quando tinha três anos, já tentando fazer manobras com a minha bicicleta. A seguinte aos quatro, já em uma minimoto”.

“Chegou ao ponto em que eu chegava no hospital e as enfermeiras já diziam, ‘Olá Debbie, olá Robbie’, para minha mãe e eu. O meu histórico médico ocupava uma gaveta inteira no arquivo do ortopedista”.

O espanhol Torres, normalmente mencionado ao lado de Maddison e Adams como um dos favoritos para suceder Pastrana, mostra respeito pelos rivais: “Cresci assistindo ‘Maddo’ e Nate vencendo, e sei que preciso ir até o limite do meu limite para derrotá-los. É o que pretendo fazer esse ano”.

O X-Fighters funciona em formato de mata-mata, em duelos em que cada piloto tem 90 segundos para performar as manobras mais impressionantes dentro da arena com múltiplas rampas, algumas delas permitindo saltos de mais de 15 metros de altura. Entre os truques que mais impressionam o público estão o “Superman Seatgrab” (em que o piloto abandona totalmente a moto no ar e estende o corpo, depois pega a moto de volta pelo assento para aterrissar), o “Tsunami” (semelhante à “parada de mão” da ginástica, mas feita sobre o guidão), o autoexplicativo “Fender Kiss” (“beijo no para-lama”) e o “Lazyboy” (em que o piloto deita sobre o assento e junta as mãos atrás da cabeça). Backflips sem variâncias adicionais (por exemplo, o “No-Footed Backflip” ou o “One-Handed Backflip”) são consideradas manobras “banais” no nível do X-Fighters. Quando o tempo se esgota, os pilotos têm direito a mais uma manobra final, normalmente guardando seu truque mais forte para fechar a sessão empolgando a galera e impressionando os juízes.

Cinco julgadores decidem qual piloto passa à rodada seguinte, até que sobrem apenas dois para a grande final, em que cada piloto passa a ter 120 segundos para performar. Será que dois minutos serão suficientes para Maddison, Adams, Torres & cia. convencerem os juízes e os fãs a deixarem Travis Pastrana no passado? Começando pela Plaza de Toros do México mês que vem, descobriremos…

P.S.: Entre 2007 e 2013, cobri mais de 10 etapas do Red Bull X-Fighters pelo mundo, além de duas em solo brasileiro, no Sambódromo do Rio (2008) e em frente ao Congresso Nacional em Brasília (2011). Nunca vi um esporte evoluir tão rapidamente diante dos meus próprios olhos: a maioria das manobras citadas na matéria acima, publicada pela revista americana Cycle World em março de 2008, haviam se tornando banais um ou dois anos depois, e diversos brasileiros passaram a dominar o backflip após o pioneiro Joaninha. Como o próprio Pastrana havia previsto, seu double backflip que chocou o mundo em 2006 foi repetido por outro piloto, Scott Murray, já no segundo semestre de 2008.

Em 2011, no X-Games 17, Jackson Strong conseguiu outra manobra considerada por anos impossível: o front flip, mortal para frente, muito mais difícil por ir na direção contrária da inércia da moto no momento em que decola. E em 2015, Josh Sheehan foi ainda mais longe, conseguindo o primeiro triple backflip da história.

Também como Pastrana previra, a elevação vertiginosa do nível técnico também multiplicou os riscos, e pilotos vencedores no X-Fighters, como Jeremy Lusk e o carismático japonês Eigo Sato, acabaram falecendo em acidentes. A Red Bull encerrou a organização do circuito mundial do X-Fighters em 2015.

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Sobre o autor

Cassio Cortes

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