Três pedais. Motor turbo. Visual bombado, que arrepia qualquer puro-sangue alemão. Como já aconteceu outras vezes na linhagem Si, o Honda Civic Type R retornou à minha garagem, mas agora para uma convivência de quase um mês. A última vez foi em agosto do ano passado, quando ele encarou um comparativo em texto e vídeo contra o Toyota GR Corolla.
Um esportivo sine pari, cujo apelo está no prazer de condução, sem amarrações a dados de ficha técnica ou desafios de Super Trunfo. À escola clássica: nada de câmbio automático convencional com conversor de toque ou automatizado de dupla embreagem. Assim como uma motocicleta de alta cilindrada, o Honda Civic Type R traz à tona a síntese da conexão entre homem e máquina.
A linguagem visual widebody mostra para-lamas abaulados e rodas de 19 polegadas em preto acetinado, calçadas por pneus Michelin Pilot Sport 4S de medidas 265/30 nos quatro cantos. O design de carro de corrida é complementado pela grande asa fixada sobre a tampa do porta-malas com bases de alumínio. Algo que se vê, por exemplo, no Porsche 911 GT3 e GT3 RS.

Tabelado a partir de R$ 430.500, o Honda Civic Type R enfrenta o Toyota GR Corolla, seja na versão Core (R$ 416.990) ou na Circuit (R$ 461.990). Nascido como um legítimo preparado, absolutamente tudo nele é orientado ao desempenho, mas sem abdicar da usabilidade. Ele permite fazer tudo, podendo ser, inclusive, o único carro na garagem.
Antes de tirar o Honda Civic Type R da jaula
Você deve estar pensando: esse cara ficou maluco, pois o Honda Civic Type R é baixo e usa pneus de perfil fino. Obviamente, você não o conduz como se estivesse a bordo de um SUV ou uma caminhonete. É preciso resetar a cabeça; porém, em contrapartida, há algo a mais que compensa o caminho em vez de apenas estacionar rápido no ponto de chegada.


O olhar, com faróis afilados e aplicação de preto brilhante, remete às gerações FK2 e FK8, mas esta carroceria elevou a pegada intimidadora a um outro degrau. Isso é reforçado pela saída de ar no capô, pelos apêndices aerodinâmicos e pelas três saídas de escape centrais assimétricas. O desenho das rodas deixa à mostra as pinças vermelhas da Brembo com quatro pistões na dianteira.
Uma vez dentro, os bancos esportivos concha são revestidos de tecido vermelho. A mesma tonalidade aparece no carpete, dando continuidade à linhagem Type R. Confortáveis, os bancos possuem excelente sustentação lateral e lombar, não cansando no dia a dia, ao contrário do que acontecia no Suzuki Swift Sport R.

À frente dos olhos, o painel mostra o detalhe em treliça e o número da unidade, enquanto o quadro de instrumentos digital TFT de 10,2 polegadas é complementado pelo multimídia de nove polegadas. Seguindo o DNA do clã Type R, a porção dianteira da cabine é revestida em tecido vermelho. Em mais de 15 dias de convivência não cansou. Ao contrário, somos lembrados diariamente que o investimento valeu a pena!




Um legítimo preparado de fábrica
O Honda Civic Type R deixa evidente que nasceu como um legítimo carro preparado. Independente do visual, ele não é um esportivo nipônico que berra alto ou solta pipocos pelas três saídas de escape. Mais que isso, ele te leva às alturas pela força e pelo comportamento dinâmico.
Esqueça os números de ficha técnica. Mesmo com 297 cv e 42,8 kgfm extraídos do motor 2.0 DOHC VTEC Turbo, em trabalho conjunto ao câmbio manual de seis marchas, o que encanta é a forma como tudo é transmitido ao chão. Respostas diretas, sem atrasos. A alavanca de câmbio é de fazer salivar pela leveza e precisão.


O pedal de embreagem está no ponto exato entre firmeza e maciez. Já as mudanças da alavanca são o puro prazer automotivo. Ao passar da terceira para a quarta marcha, a precisão é tamanha que parece existir uma garra puxando a alavanca. Uma característica que coopera no momento de uma condução mais acalorada na pista, por exemplo.
Quem gosta de carro vai sempre preferir um manual. Mesmo com transmissões automatizadas ultrarrápidas, o prazer de ter o controle nunca será substituído. No trânsito, o Honda Civic Type R não é cansativo; quando o caminho abre, é puro Heavy Metal.

Versatilidade e condução configurável
A experiência pode ser configurada pelo seletor de modos de condução: Comfort, Sport, Individual e +R. No primeiro, as respostas são brandas, tornando-o um carro viável para o cotidiano. Pelas dimensões de 4,59 m de comprimento e 2,73 m de entre-eixos, ele pode ser até um carro familiar, com acesso ao banco traseiro facilitado pelas quatro portas. Algo não encontrado nos antigos Si Coupé.
A capacidade do porta-malas de 337 litros facilitou o transporte de malas e compras durante as festas de final de ano. Além disso, embora seja baixo, o esportivo não raspa a dianteira ou o centro do carro com facilidade em valetas e lombadas. Claro, dependendo do obstáculo, é preciso parcimônia para não sentir na pele mais de R$ 400.000 batendo no chão. A caixa de direção assistida eletricamente é rápida e precisa, uma peça de engenharia em harmonia com as suspensões.



Honda Civic Type R: Grudado no chão
O conjunto de suspensões do Honda Civic Type R é um pináculo. Elas não apenas filtram e copiam de forma majestosa o asfalto, como asseguram uma dinâmica impressionante, mas sem bater seco ou tirar o conforto. A rolagem de carroceria é mínima. A capacidade de serpentear nas curvas vem do conjunto McPherson de duplo eixo na dianteira e Multi-link na traseira, ambos equipados com barra estabilizadora.
O modelo une o melhor de dois mundos: precisão cirúrgica sem comprometer a usabilidade. Com 1.451 kg, a relação peso-potência é de 4,88 kg/cv. Essa equação é auxiliada pelos engates curtos e precisos. A cada troca, a rotação do motor não cai e o turbolag (atraso antes de o turbocompressor pegar para valer) é mínimo. Uma equação que o time de engenharia do fabricante soube fazer de maneira impecável.

Tecnologia de pista no dia a dia
Ao acionar o modo +R, uma sequência de luzes acende no quadro de instrumentos, funcionando como uma shift light, bem como o ronco fica mais fino e passa a responder de forma mais direta. Há ainda o Honda LogR, recurso no multimídia que informa parâmetros vitais e analisa a pilotagem em tempo real nos autódromos nacionais cadastrados.
É praticamente um instrutor no banco do carona oferecendo dicas para refinar sua técnica. Apesar de ser um carro de nicho, o consumo surpreende. De acordo com o Programa de Etiquetagem Veicular do Inmetro,ele registra 8,8 km/l na cidade e 11,1 km/l na estrada. Andando de forma civilizada, as visitas aos postos de abastecimento são raras para um carro de alto desempenho, que bebe apenas gasolina.


Veredicto
O Honda Civic Type R seduz até quem não é ligado em carros. Com o corpo largo e a grande asa traseira, com suportes em alumínio em prol da redução de peso, é um dos modelos mais radicais à venda no mercado. Existem outros mais potentes, mas é o conjunto da obra que faz o entusiasta investir mais de R$ 400.000 sem pensar duas vezes. Aliás, nem meia vez!
No frigir dos ovos, é um produto melhor acertado em relação ao Toyota GR Corolla. Não que o rival seja ruim. Ao contrário, bem acertado ele é, mas o Honda tem um brilho diferente. Pode-se pensar na futura chegada do Prelude, confirmada pela Honda no Salão do Automóvel, no entanto, são produtos diferentes. O Type R é utilizável, apesar da atenção aos pneus de perfil 30 e a baixa altura em relação ao solo.



E você, entre Honda Civic Type R, Toyota GR Corolla ou outro esportivo premium, qual escolheria? Deixe sua opinião nos comentários.



