Meu avô materno, José (Zeca) Miele, era palestrino e marceneiro. Herdei só uma de suas virtudes, visto que nunca soube usar plaina e o formão sempre insistiu em escorregar das mãos. O Palmeiras entrou na minha vida aos 3 anos de idade. Aprendi com o Zeca a ler aos 5 anos. E a jogar xadrez e buraco, aos 6. Mas o Zeca partiu quando eu tinha 7.
O Yolando, o outro avô, também me concedeu outra paixão, e que pude partilhar até a vida adulta. Mecânico de automóveis, ele trabalhava sozinho, em casa. Vivia em Sorocaba (SP). No portão da casa/oficina, havia uma placa com os dizeres “damos preferência à linha VW”. Consertar Opala, Chevette ou Corcel só se fosse de um amigo ou conhecido próximo.
Ele só “pegava serviço” de Fusca, Kombi, Brasília, Variant e cia. Passava férias na casa dele. E eu adorava ser seu assistente. Desmontava e lavava os carburadores da Variant no querosene e depois ia brincar com a morsa na bancada. Só interrompia minha atividade para assisti-lo equalizar a dupla carburação “de ouvido”.

A diversão maior era, contudo, ir para o “Campo da Aviação”, forma carinhosa como ele tratava o Aeroclube de Sorocaba, onde havia sido um dos fundadores. Ele passava as manhãs de sábado e domingo nas banquetas em frente ao hangar, esperando turistas para voos panorâmicos na cidade.
Hoje eu me pergunto como havia tanta gente que quisesse sobrevoar So-ro-ca-ba, que, convenhamos, é uma cidade espetacular, só que vista de baixo. Lá de cima não tinha graça nenhuma. Talvez porque os anos 70 e 80 não oferecessem tantas atrações nos finais de semana, sei lá.
Herdei do Yolando a paixão pelos motores. E esse deslocamento ao “Campo” tinha dupla razão: a primeira delas era que eu sentava no colo dele e ia manejando volante e câmbio da Kombi 1200 ’59, seu carro de uso diário. Aos 11, ele perguntou se eu sabia lidar com os pedais – claro que eu sabia, de tanto que observava. Saí sem deixar o motor morrer. Ele sorriu, orgulhoso. Não esqueço disso.
Em 1982, o Edson (meu pai) foi contemplado por sorteio no Consórcio Nacional Honda e tirou uma CB400 zero km – preta com faixas vermelhas. Sempre íamos a Sorocaba em família – ele, minha mãe, minha irmã e eu. Uma vez, não lembro o porquê, ele me colocou na garupa e seguimos pra lá, só ele e eu, em um sábado de manhã.
Fomos direto para o Campo. Estacionamos na lateral do hangar, ao lado da Kombi. De repente, sabe quando você vislumbra três coisas MUITO LEGAIS no mesmo quadro? Lá estavam a CB do Edson, a Kombi do Yolando e o Paulistinha do Aeroclube – vou falar bastante dele hoje. Os três, próximos.

Dizem, aliás, que a gente não escolhe as paixões. Elas que nos envolvem — às vezes, literalmente, em alguma ruazinha deserta de uma cidade do interior, na reta do km 7 da Castello Branco com o vento sacudindo a viseira do capacete ou no pátio poeirento do aeroclube, quando o Paulistinha taxiava com seu vigoroso motor (acho que era um Continental de 4 cilindros contrapostos, de 90 hp).
Para quem cresceu com o cheiro de óleo impregnado nas narinas e o som de pistões batendo como se fosse o ritmo do próprio coração, a infância não foi feita de brinquedos de plástico, mas de metal, graxa e a promessa de liberdade que só os motores podiam entregar. Olhando pelo retrovisor da memória, percebo que meu destino foi selado por essa trindade.
Namoro com tudo isso até hoje. Não sou brevetado. Faltou essa realização. Mas juro, irresponsavelmente juro, que eu me lembro de cada comando do Paulistinha e, talvez, seria capaz até de pilotá-lo. Voei dezenas e dezenas de horas com o Yolando nos céus de Sorocaba. Quer que eu te diga como pilota esse avião? Olha que eu explico, hein.
O Paulistinha

A memória é visual e auditiva. Um céu azul de interior, daqueles que parecem pintados à mão, e o ronco compassado de um motorzão Continental. O Paulistinha CAP-4 era um operário.
Feito de tubos de aço entelado por chapas (acho) semelhantes a Eucatex, bem levinhas, ele parecia frágil no chão, mas no ar, era um trabalhador incansável. Formou a maior parte dos pilotos privados (PP) desse país dos anos 40 até sei lá quando. Se bobear, tá voando ainda.
Ele só tem dois lugares. E o piloto se senta no banco traseiro. Só que o que significa posicionar-se no banco da frente para um menino de 8 ou 9 anos? “Sou eu que vou dirigir”. Cara, como isso me emociona! Senti poucas alegrias na vida como a experiência de me sentir pilotando um avião.
A pista do aeroclube era de terra batida. Lembro de quando o Yolando dava motor na cabeceira e começava a ganhar velocidade, sacolejando pelas imperfeições do piso. E quando a cauda subia? “Cara, essa porra vai decolar…” Rola uma lágrima aqui, sério.

O Paulistinha me ensinou a elegância da simplicidade. Não havia eletrônica. Era o manche (uma alavanca única, no meio das pernas, fincada no assoalho), os pedais e a sensibilidade.
Aquele avião ensina que, para voar, você precisa entender o vento, conhecer tecnicamente a máquina, respeitá-la e ter R$ 25 mil pra tirar um brevê. Medo de teco-teco? Em tempo: teco-teco é o raio que os parta. Medo, eu só tenho da ignorância. O Paulistinha era o máximo.
A Kombi 1200
Se pilotar o Paulistinha era um sonho lúdico, mas que nunca consegui realizar de fato, a Kombi 1200 primava por ser uma realidade alcançável desde cedo. Aos 11, eu já dominava a pujante máquina de 36 cv. Se faltava potência, sobrava caráter e personalidade. Nada era tão charmoso como aquele para-brisa bipartido. O motor VW a ar é minha principal trilha sonora dos anos 70. Nada é tão icônico quanto o ronco daquele motor.
A Kombi Luxo do meu avô era uma ’59, motor 1200. Adepto de “melhorias”, ele havia preenchido as janelinhas laterais, alterado o sistema elétrico para 12 volts, trocado as bananinhas por setas e instalado uma chave de ignição, em lugar do charmoso botãozinho de partida. O resto era tudo original. Era uma experiência sensorial guiar a Kombi.

Quando o Yolando já estava aposentado, anos depois, ele emprestou a Kombi para o Edson fazer a mudança da sua oficina de empilhadeiras aqui em São Paulo. Eu o ajudei. Fizemos 4 ou 5 viagens para carregar todas as tralhas.
Outro exímio “piloto de Kombi”, o Edson começou a abusar da velocidade, quando um ônibus nos deu uma fechada. Ela parou. Mas foi um sufoco. Comentei a história com o Yolando.
Pois retornamos a Sorocaba 2 ou 3 semanas depois. Dei a partida na Kombi e saí de casa. Ao frear na lombada uns 50 metros adiante, o Edson, ao meu lado, quase deu com a testa no vidro. Explico: preocupado com o “freio da Kombi”, o Yolando não teve dúvida: instalou um servofreio! “Agora, quando você quiser andar feito louco em São Paulo, pelo menos a perua tem freio…”, disse ele, em tom de bronca, ao meu pai.
A Honda CB400
Aprendi a dominar a terceira das minhas grandes paixões também bem cedo. Com 16, eu já passeava pelo bairro com a CB do Edson. Moto é outro papo, doutor. É a paixão definitiva, aquela que faz o sangue ferver e que te inferniza com o eterno dilema: “acelerar mais é legal. É legal, mas é perigoso. E se é perigoso, pode ser que não termine tão legal”. É uma maluquice mais ou menos assim. E que persiste até hoje.
Escrevo esse texto ainda enfeitiçado pelos 168 cv de uma Ducati que acabei de testar. E que fui pra Sorocaba. E que voltei pela mesma Castello Branco, com a mesma reta dos 7 km. Olha. Tô com 56. Que Deus me dê saúde para continuar gozando desses grandes prazeres da vida por longos anos.

Era o início da minha adolescência quando a Honda lançou a CB, na virada dos anos 80. O motor bicilíndrico de quatro tempos roncava como uma sinfonia – você precisa se transportar para os anos 80 a fim de entender esse sentimento.
A CB400 tinha um grave aveludado, que encorpava conforme o conta-giros subia. Era a “máquina dos sonhos” dos meninos da minha geração. Eu reconhecia seu ronco de longe e parava só para vê-la passar. O tanque imponente, o banco largo, o farol redondo. E trazia modernidades: partida elétrica, um painel completo e um desempenho que, para os meus olhos de criança, parecia de um foguete.
A CB400 me ensinou o sentido da palavra “liberdade”. E, muito cedo, o sentido de “responsabilidade”, pois no dia em que o Edson trocou sua CB 82 por uma 84, eu lavei a moto e saí pra dar minha voltinha. Pois retornei com o manete do freio dianteiro torto e o mata-cachorro ralado (esse termo deve ser politicamente incorreto hoje, mas eu tô fazendo um resgate histórico, então pode).
Não vem ao caso o que fiz de errado. Mas aprendi inquestionavelmente o peso da consequência de um erro em um veículo de duas rodas. Isso faz 40 anos. Ando rápido de moto. Mas nunca mais tomei nenhum tombo (bate aí na madeira 3 vezes).
Hoje, vivemos a era dos carros autônomos, dos motores elétricos silenciosos e dos aviões controlados por computadores. Tudo é mais seguro, mais eficiente. Mas sinto falta da imperfeição dessas máquinas.
Do Paulistinha que exigia braço no pouso com vento de través (dá um Google). Da Kombi que não tinha freio quando carregada. Da CB que exigia técnica para frear antes de uma curva. E não durante.
São três veículos que me deram a noção de espaço, de velocidade, de vetores de força, de mecânica, mas, acima de tudo, acenderam uma paixão tão grande… que eu vivo disso: carros, motos e, escondidinho, aviões.
Bom, né? Paixões tão grandes quanto a que herdei do Zeca. Ou você acha que eu terminaria um texto tão longo sem reverenciar novamente o Palmeiras?
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