Ford Pinto, sim um nome bem esquisito, mas aqui no Brasil, e não lá nos Estados Unidos, onde começou a ser vendido em 1971. Esse simpático carro nasceu como resposta urgente da Ford aos compactos japoneses e europeus que cresciam no mercado norte-americano. Mas a dor de cabeça que a Ford teve com ele foi grave devido às suas explosões.
O projeto foi executado em apenas 25 meses, enquanto o padrão da indústria girava em torno de 43. A meta imposta por Lee Iacocca, ex-CEO da Ford, era ter carro com menos de 907 kg, e preço abaixo de 2.000 dólares. Mas foi essa corrida contra o tempo que passou por cima de diversos alertas técnicos graves.
O defeito que transformava o carro em uma armadilha
A falha crítica estava no posicionamento do tanque de combustível. Ele ficava entre o eixo traseiro e o para-choque, sem proteção estrutural. Ou seja, em colisões acima de 40 km/h, o tanque era empurrado contra parafusos do diferencial, que perfuravam o reservatório.
![Ford Pinto [divulgação] carros](https://www.automaistv.com.br/wp-content/uploads/2021/03/ford-pinto_edited.jpg)
Desta forma, o bocal de enchimento se rompia e a gasolina se espalhava pelo assoalho e pelo habitáculo. Uma mínima faísca bastava para transformar o carro em uma bola de fogo.
O pior: engenheiros identificaram o problema durante os testes internos. Em 11 testes de impacto traseiro, todos os veículos que não receberam modificações apresentaram vazamento ou ruptura do tanque. A Ford possuía patente de um dispositivo de proteção que custava cerca de 1 dólar por unidade. Mesmo assim, decidiu não colocar.

O reforço estrutural completo custaria aproximadamente 11 dólares por veículo. A diretoria considerou o valor incompatível com a margem pretendida. Tudo isso foi revelado em um documento interno. Nele, a Ford fez uma análise de custo-benefício para decidir se corrigiria o defeito que eles mesmo sabiam. E pasmem: fizeram uma conta para ver o que valia mais a pena.
A projeção estimava 180 mortes por queimaduras, 180 feridos graves e 2.100 veículos incendiados. A empresa então atribuiu valor monetário à vida humana com base em parâmetros governamentais da época. Cada morte foi calculada em 200 mil dólares. O custo total projetado de indenizações somaria 49,5 milhões de dólares.
![Ford Pinto SW [reprodução]](https://www.automaistv.com.br/wp-content/uploads/2024/04/ford_pinto_anuncio_3-1320x792.jpg)
O recall, por outro lado, custaria 137 milhões de dólares. A conclusão foi a mais antiética possível, além da conta efetuada: financeiramente, sairia mais barato pagar indenizações do que modificar os carros.
Tragédias
Entre 1972 e 1977, acidentes começaram a ganhar visibilidade. Um dos casos mais emblemáticos envolveu Lily Gray, que morreu após colisão traseira, e Richard Grimshaw, que sofreu queimaduras em 90% do corpo. A imagem pública da Ford foi devastada.
![Ford Pinto SW [reprodução]](https://www.automaistv.com.br/wp-content/uploads/2024/04/ford_pinto_anuncio_2-1320x792.jpg)
Em 1978, um júri na Califórnia concedeu 125 milhões de dólares em danos punitivos a Grimshaw. O valor foi reduzido posteriormente para 3,5 milhões, mas o impacto reputacional já era irreversível.
No mesmo ano, três adolescentes morreram queimadas em Indiana. A Ford teve que enfrentar acusação criminal por homicídio culposo, algo inédito para uma montadora nos Estados Unidos. Foi absolvida em 1980, mas o desgaste foi profundo.

Pressionada pela National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA), agência federal dos EUA, focada em salvar vidas, a Ford anunciou recall de aproximadamente 1,5 milhão de veículos produzidos entre 1971 e 1976, além do gêmeo Mercury Bobcat.
As modificações do recall fizeram então instalação de bocal mais longo e escudo de polietileno para evitar perfuração do tanque. Estimativas variam, mas investigações apontam entre 27 e 180 mortes diretamente associadas aos incêndios. Algumas projeções consideram até 900 vítimas entre mortos e feridos graves ao longo da década. O Ford Pinto saiu de linha em 1980.
Como o caso mudou a legislação de segurança

O escândalo acelerou o endurecimento da norma FMVSS 301 nos Estados Unidos, que passou a obrigar maior integridade estrutural do sistema de combustível. Os testes de colisão traseira então ficaram mais rigorosos. Foi definido um limite técnico de vazamento de combustível após o impacto para também ter tempo de evacuação dos ocupantes.
Além disso, na área jurídica, tribunais passaram a punir empresas que comprovadamente colocam lucro acima da segurança. O sistema moderno de recalls preventivos também ganhou força. Hoje, montadoras precisam reportar falhas à NHTSA em prazos curtos, sob risco de multas bilionárias.
Ford Pinto nunca veio ao Brasil

A Ford do Brasil avaliou a plataforma nos anos 1970, mas optou por manter e evoluir o projeto de origem francesa da Willys-Overland, que deu origem ao Ford Corcel. O Corcel utilizava tração dianteira e apresentava comportamento mais adequado às condições brasileiras. O Pinto adotava tração traseira com eixo rígido.
Além disso, claro, sempre bom lembrar, que no Brasil, a palavra pinto possui conotação vulgar, algo que, tecnicamente, representaria um problema comercial imediato.
E você, já andou o gostaria de ter um Ford Pinto? Deixe seu comentário!
![Ford Pinto [divulgação]](https://www.automaistv.com.br/wp-content/uploads/2020/09/ford_pinto_2_edited.jpg)



