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Ford Pinto: como 11 dólares viraram um dos maiores escândalos automotivo

Conheça a história do Ford Pinto, o compacto que explodia em colisões e foi alvo de um dos maiores escândalos éticos e de segurança da indústria

5 min de leitura

Ford Pinto, sim um nome bem esquisito, mas aqui no Brasil, e não lá nos Estados Unidos, onde começou a ser vendido em 1971. Esse simpático carro nasceu como resposta urgente da Ford aos compactos japoneses e europeus que cresciam no mercado norte-americano. Mas a dor de cabeça que a Ford teve com ele foi grave devido às suas explosões.

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O projeto foi executado em apenas 25 meses, enquanto o padrão da indústria girava em torno de 43. A meta imposta por Lee Iacocca, ex-CEO da Ford, era ter carro com menos de 907 kg, e preço abaixo de 2.000 dólares. Mas foi essa corrida contra o tempo que passou por cima de diversos alertas técnicos graves. 

O defeito que transformava o carro em uma armadilha

A falha crítica estava no posicionamento do tanque de combustível. Ele ficava entre o eixo traseiro e o para-choque, sem proteção estrutural. Ou seja, em colisões acima de 40 km/h, o tanque era empurrado contra parafusos do diferencial, que perfuravam o reservatório.

Ford Pinto [divulgação] carros
Ford Pinto [divulgação]

Desta forma, o bocal de enchimento se rompia e a gasolina se espalhava pelo assoalho e pelo habitáculo. Uma mínima faísca bastava para transformar o carro em uma bola de fogo. 

O pior: engenheiros identificaram o problema durante os testes internos. Em 11 testes de impacto traseiro, todos os veículos que não receberam modificações apresentaram vazamento ou ruptura do tanque. A Ford possuía patente de um dispositivo de proteção que custava cerca de 1 dólar por unidade. Mesmo assim, decidiu não colocar.

Ford Pinto [divulgação]

O reforço estrutural completo custaria aproximadamente 11 dólares por veículo. A diretoria considerou o valor incompatível com a margem pretendida. Tudo isso foi revelado em um documento interno. Nele, a Ford fez uma análise de custo-benefício para decidir se corrigiria o defeito que eles mesmo sabiam. E pasmem: fizeram uma conta para ver o que valia mais a pena.

A projeção estimava 180 mortes por queimaduras, 180 feridos graves e 2.100 veículos incendiados. A empresa então atribuiu valor monetário à vida humana com base em parâmetros governamentais da época. Cada morte foi calculada em 200 mil dólares. O custo total projetado de indenizações somaria 49,5 milhões de dólares.

Ford Pinto SW [reprodução]
Ford Pinto SW [reprodução]

O recall, por outro lado, custaria 137 milhões de dólares. A conclusão foi a mais antiética possível, além da conta efetuada: financeiramente, sairia mais barato pagar indenizações do que modificar os carros.

Tragédias

Entre 1972 e 1977, acidentes começaram a ganhar visibilidade. Um dos casos mais emblemáticos envolveu Lily Gray, que morreu após colisão traseira, e Richard Grimshaw, que sofreu queimaduras em 90% do corpo. A imagem pública da Ford foi devastada.

Ford Pinto SW [reprodução]
Ford Pinto SW [reprodução]

Em 1978, um júri na Califórnia concedeu 125 milhões de dólares em danos punitivos a Grimshaw. O valor foi reduzido posteriormente para 3,5 milhões, mas o impacto reputacional já era irreversível. 

No mesmo ano, três adolescentes morreram queimadas em Indiana. A Ford teve que enfrentar acusação criminal por homicídio culposo, algo inédito para uma montadora nos Estados Unidos. Foi absolvida em 1980, mas o desgaste foi profundo.

Ford Pinto verde
Ford Pinto [Divulgação]

Pressionada pela National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA), agência federal dos EUA, focada em salvar vidas, a Ford anunciou recall de aproximadamente 1,5 milhão de veículos produzidos entre 1971 e 1976, além do gêmeo Mercury Bobcat. 

As modificações do recall  fizeram então instalação de bocal mais longo e escudo de polietileno para evitar perfuração do tanque. Estimativas variam, mas investigações apontam entre 27 e 180 mortes diretamente associadas aos incêndios. Algumas projeções consideram até 900 vítimas entre mortos e feridos graves ao longo da década. O Ford Pinto saiu de linha em 1980.

Como o caso mudou a legislação de segurança

Ford Pinto laranja
Ford Pinto [Divulgação]

O escândalo acelerou o endurecimento da norma FMVSS 301 nos Estados Unidos, que passou a obrigar maior integridade estrutural do sistema de combustível. Os testes de colisão traseira então ficaram mais rigorosos. Foi definido um limite técnico de vazamento de combustível após o impacto para também ter tempo de evacuação dos ocupantes.

Além disso, na área jurídica, tribunais passaram a punir empresas que comprovadamente colocam lucro acima da segurança. O sistema moderno de recalls preventivos também ganhou força. Hoje, montadoras precisam reportar falhas à NHTSA em prazos curtos, sob risco de multas bilionárias.

Ford Pinto nunca veio ao Brasil

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Ford Corcel [divulgação]

A Ford do Brasil avaliou a plataforma nos anos 1970, mas optou por manter e evoluir o projeto de origem francesa da Willys-Overland, que deu origem ao Ford Corcel. O Corcel utilizava tração dianteira e apresentava comportamento mais adequado às condições brasileiras. O Pinto adotava tração traseira com eixo rígido.

Além disso, claro, sempre bom lembrar, que no Brasil, a  palavra pinto possui conotação vulgar, algo que, tecnicamente, representaria um problema comercial imediato. 

E você, já andou o gostaria de ter um Ford Pinto? Deixe seu comentário! 


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Luiz Forelli

Jornalista pela Faculdade Cásper Líbero, sempre fascinado por carros. Passava horas dirigindo no colo da família dentro da garagem ou empurrando carrinhos pela casa, como se já soubesse que seu caminho estaria entre motores e rodas. Hoje, realiza o sonho de infância escrevendo sobre o universo automotivo com a mesma empolgação de quem brincava com um volante imaginário. No lugar do sangue, corre gasolina, e isso nunca foi segredo.

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