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O carro que a Toyota criou só para não irritar o governo japonês

A Toyota tinha um sedan que surgiu em 1967 como uma limusine nacional para autoridades japonesas e virou um símbolo cultural

6 min de leitura

Toyota Century, talvez você nunca tenha ouvido ou lido sobre esse modelo, porém é um dos carros mais antigos da montadora japonesa e um ícone no Japão. Ele é basicamente um Rolls-Royce japonês criado em homenagem ao fundador da Toyota, Sakichi Toyoda, mas teve uma pressão do governo japonês para ser feito.

O primeiro Century apareceu em 1967 como um sedã de luxo pensado para políticos, executivos e figuras importantes do Japão. O governo japonês não queria mais ver ministros entrando em Cadillacs ou Mercedes-Benz, mas também não podia criar nada que parecesse mais luxuoso que o carro usado pela família imperial do Japão para não soar desrespeitoso. 

Depois da Segunda Guerra Mundial, o país reconstruiu sua identidade em torno de símbolos culturais fortíssimos. A família imperial era o principal deles. Mesmo sem poder político, ela representava tradição, estabilidade e continuidade para o povo japonês. E existia um acordo não escrito, mas sim de respeito e cultural. 

Respeito e cultura

Toyota Century
Toyota Century [Divulgação]

Nenhuma empresa poderia, de alguma forma, parecer superior ao trono imperial. E nisso entram também os carros, além de eventos e qualquer gesto público de status. Enquanto isso, o mercado luxuoso de limusine só tinha as americanas e europeias, enquanto os japoneses não ofereciam nada para o governo utilizar. 

Nos anos 60 isso virou um problema político. Ministros chegavam em Cadillacs importados. Diplomatas usavam Mercedes-Benz pretas. Empresas estatais adotavam Lincolns enormes. O governo via aquilo como uma vergonha nacional e queria uma limusine japonesa para representar o país. 

Toyota Century V12 preto parado no asfalto
Toyota Century [Divulgação]

Só que nenhuma montadora ousava criar algo tão luxuoso, porque isso poderia ser visto como desrespeito ao Imperador. Porém a Toyota percebeu a necessidade e decidiu fazer o que ninguém tinha coragem.

A ideia era quase filosófica. A marca criaria um carro digno do Imperador, mas que o Imperador jamais usaria. Seria um carro nacional, sofisticado, tradicional e cheio de simbolismo, pensado para autoridades, não para a família imperial. 

Toyota Century
Toyota Century [Divulgação]

O nome escolhido foi Century, um tributo ao centenário do nascimento de Sakichi Toyoda. O projeto então ficaria acima de disputas comerciais e se tornaria uma espécie de produto cultural do Japão, e não somente mais um sedã de luxo.

Conservadorismo

O primeiro Century, lançado em 1967, nasceu com três regras muito claras. Nada de ostentação. Nada de performance exagerada. Nada de modernidades que parecessem ocidentais demais. Ele foi pensado para não chamar a atenção. 

Toyota Century V12 preto parado de frente no asfalto
Toyota Century V12 [Divulgação]

Pintura feita à mão em muitas etapas, bancos de lã em vez de couro, madeira natural no interior e montagem artesanal. O centro de toda montagem estava sempre no passageiro do banco traseiro, e não no motorista. Era quase um termo de compromisso com o país para ser silencioso, discreto e respeitoso com a hierarquia cultural japonesa.

O plano funcionou e o Century virou o carro oficial de ministros, presidentes de grandes empresas, banqueiros e diplomatas. Ele virou um símbolo de poder silencioso, diferente do luxo ocidental, que às vezes gritava mais do que convinha à cultura japonesa.

Toyota Century V12 preto parado de lateral
Toyota Century V12 [Divulgação]

A virada mais marcante viria em 1997, com a segunda geração. Para deixar o modelo no topo do prestígio nacional, a Toyota tomou uma decisão ousada e criou o primeiro e único motor V12 japonês da história. Algo que nunca aconteceu antes e nunca mais se repetiu. 

Não era um V12 de potência absurda. Era um V12 feito para rodar sem vibração e quase flutuando nas nuvens. O sistema eletrônico foi até duplicado para que o carro continuasse funcionando mesmo com alguma falha. 

Toyota Century
Toyota Century [Divulgação]

E esse motor jamais foi usado em outro Toyota, e nem mesmo na Lexus. Nenhum protótipo esportivo também usou, era somente para o Century, justamente pensando para representar o conservadorismo japonês, sem a agressividade dos V12 europeus.

Linhas separadas

E essa exclusividade também se refletiu na produção do modelo, já que o Century virou praticamente uma montadora dentro da Toyota. Ele tinha oficina própria, funcionários com uniforme diferente, símbolo da fênix esculpido à mão, processos separados do resto da linha. Cada unidade levava dias para ser pintada e finalizada e nada dali parecia Toyota no sentido comercial. Era um produto artesanal 

Toyota Century
Toyota Century [Divulgação]

A ironia do Imperador japonês não usar o Century aconteceu somente anos depois. A família imperial tinha carros feitos sob encomenda, fabricados à mão por artesãos, sem vínculo com montadoras privadas. Porém nem mesmo a família imperial fugiu dessa e em 2006 o Imperador ganhou um exemplar. 

A Toyota criou quatro unidades do Century Royal, com carroceria estendida, bancos de veludo, madeira Hinoki (considerada sagrada) e tapetes artesanais. Esses carros não têm preço divulgado, pois são tratados como patrimônio.

Toyota Century [divulgação]
Toyota Century [divulgação]

Por isso, o Century é considerado um símbolo nacional e tem um patamar próprio. Atualmente ele está em sua terceira geração, que curiosamente recebeu uma atualização discreta recentemente, e está reservado a quem ocupa posições de poder, quase sempre com motorista particular e, em muitos casos, com décadas de tradição familiar.

E a maior polêmica recente foi o lançamento do Century SUV. A ideia era apresentar algo mais moderno, conectado às preferências do público atual, mas a reação do público não foi muito legal. 

Toyota Century SUV [divulgação]
Toyota Century SUV [divulgação]

Muitos japoneses viram o SUV como doutrina da moda dos SUVs, já que o Century sempre representou tradição e elegância clássica. Para a Toyota, faz parte da necessidade de ter o nome vivo para as próximas gerações.

O que você acha dessa história e quase secreta sobre um dos carros mais tradicionais do Japão? Deixe seu comentário!


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Luiz Forelli

Jornalista pela Faculdade Cásper Líbero, sempre fascinado por carros. Passava horas dirigindo no colo da família dentro da garagem ou empurrando carrinhos pela casa, como se já soubesse que seu caminho estaria entre motores e rodas. Hoje, realiza o sonho de infância escrevendo sobre o universo automotivo com a mesma empolgação de quem brincava com um volante imaginário. No lugar do sangue, corre gasolina, e isso nunca foi segredo.

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