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Querem dar problema

Gasolina com 35% de etanol começa a ser estudada para chegar em 2029

Governo estuda aumentar teor de etanol para 35%, mas proposta levanta dúvidas técnicas e riscos para parte da frota

5 min de leitura

O Ministério de Minas e Energia (MME) do Governo Federal começou nesta semana a viabilizar os estudos para o aumento do teor de etanol na gasolina para 35%, a chamada E35. O projeto conta com investimento de R$ 30 milhões e faz parte das diretrizes da Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/2024).

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Os estudos foram viabilizados pelo Política com Ciência, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e serão coordenados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Além disso, universidades e institutos como UFMG, IPT, Instituto Mauá, INT, Lactec, UFG, UFRJ e UFRN participam do projeto.

Gasolina E35 avança com apoio técnico e investimento milionário

O plano prevê três anos de análises, incluindo testes físico-químicos, desempenho em motores, consumo, eficiência energética e emissões. Com isso, o governo busca dados técnicos para embasar decisões regulatórias e políticas públicas.

Na prática, a proposta vai ampliar a tendência recente, já que em 2025, o teor de etanol na gasolina subiu de 27,5% para 30%. Já o biodiesel no diesel também cresce cada vez mais, passando de 10% em 2023 para 15% em 2025, com previsão de novos aumentos.

5 comportamentos que geram multas
Discas CESVI – Combustível Adulterado (divulgação)

A expectativa é que a gasolina E35 e o diesel B25 só sejam adotados de fato em 2029. Até lá, não está claro se haverá novos aumentos intermediários.

Mais etanol na gasolina pode causar impacto técnico real

Apesar do discurso bonito sobre o meio ambiente e o energético, o aumento do etanol na gasolina levanta um ponto crítico que muita gente ignora. Nem toda a frota brasileira está preparada para isso.

Carros flex lidam melhor com a mistura, já que foram projetados para diferentes proporções. Porém, veículos movidos apenas a gasolina, especialmente os mais antigos ou importados, devem sofrer ainda mais.

Economia de combustível (divulgação)

O etanol possui características químicas mais agressivas. Ele é mais corrosivo, absorve água com facilidade e pode acelerar o desgaste de componentes metálicos, mangueiras, bombas de combustível e sistemas de injeção.

Além disso, a queima do etanol exige ajustes específicos de calibração. Motores que não foram desenvolvidos para essa mistura podem apresentar perda de eficiência, aumento de consumo e falhas de funcionamento.

Testes anteriores já indicaram problemas práticos

Os próprios testes realizados com misturas anteriores já mostraram sinais de alerta. Em avaliações com gasolina E30 e E32, conduzidas com participação do Instituto Mauá, foram identificados problemas.

[Divulgação]

Houve dificuldade de partida a frio em 13 motocicletas. Três unidades falharam ao ligar em baixas temperaturas com mistura E32. Veículos antigos e modelos não flex apresentaram maior sensibilidade, exigindo mais tentativas de partida ou uso do afogador.

É justamente esse comportamento que reforça um ponto técnico importante. Quanto maior a proporção de etanol, mais difícil tende a ser a ignição em temperaturas baixas, principalmente em motores não preparados.

Especialista aponta falhas graves nos testes

Nós da Auto+ ouvimos o especialista mecânico e jornalista Gerson Borini, que criticou a forma como os testes foram conduzidos.

“Eles não fizeram um teste comparativo. O correto seria avaliar os resultados com a gasolina E27 e depois com a E30, para ter uma base de referência (chamado de Base Line). Mas não fizeram isso. Testaram apenas com a E30. Além disso, houve no relatório de carros que falharam na partida e durante a condução, e a justificativa foi de que isso era irrelevante porque os veículos já eram muito usados. Ou seja, os resultados que não deram certo foram simplesmente descartados”

O especialista também questiona o tempo de validação.

“Fazer uma calibração nova para um carro que será lançado no Brasil normalmente leva 24 meses. Esse tempo é necessário porque os testes precisam ocorrer em duas condições, como o verão e o inverno. São dois ciclos completos. Ainda se querem acelerar, os protótipos vão para o hemisfério norte, mas mesmo assim o mínimo aceitável são 12 meses para liberar uma calibração que atenda a todos os requisitos. No caso da gasolina E30, os testes duraram apenas três meses.”

Além disso, ele aponta as falhas no ambiente de testes.

“Eles realizaram o teste na sede da Mauá, em São Bernardo do Campo, dentro de um contêiner refrigerado. O padrão seria fazer isso em locais de altitude, como Campos do Jordão, para simular condições reais de frio. Mas nesse caso, deram partida no carro dentro do contêiner e depois saíram dirigindo com temperatura externa de 35 °C. Ou seja, parâmetro nenhum.”

Economia prometida não se confirmou na prática

Outro ponto que pesa contra a proposta é o impacto no bolso. Quando o teor subiu para E30, a promessa era de redução de cerca de R$ 0,13 por litro.

Tanque de combustível (divulgação)

Na prática, essa economia não chegou ao consumidor. O preço da gasolina continuou variando por outros fatores, como impostos, logística e mercado internacional, ainda mais agora devido a guerra no Oriente Médio.

Agora, com a gasolina E35, o risco é repetir o mesmo cenário. De um lado, há ganho político e ambiental. Do outro, o motorista pode enfrentar mais consumo, possíveis problemas mecânicos e nenhum benefício real no preço.

Você acha que a gasolina E35 é um avanço necessário ou mais um risco que o motorista brasileiro vai ter que assumir? Deixe seu comentário!

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Luiz Forelli

Jornalista pela Faculdade Cásper Líbero, sempre fascinado por carros. Passava horas dirigindo no colo da família dentro da garagem ou empurrando carrinhos pela casa, como se já soubesse que seu caminho estaria entre motores e rodas. Hoje, realiza o sonho de infância escrevendo sobre o universo automotivo com a mesma empolgação de quem brincava com um volante imaginário. No lugar do sangue, corre gasolina, e isso nunca foi segredo.

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