Dos prazeres narráveis, jogar futebol sempre foi um deles, desde criança. O Eduzinho, até 10 anos, só usava uniformes do Palmeiras e calçava Kichute. Sempre. Prosperei nesse troço. Cheguei a passar em peneira no SPFC e disputei o Campeonato Paulista de Futsal de 1985. Fui federado. Mas também não prosperei taaaaanto assim: o SPFC me dispensou 3 meses depois e o clube de futsal não “renovou contrato” no ano seguinte.
Mantive acesa a chama de torcedor, fanático pelo Palestra, apenas.
E mergulhei com tudo nos carros. Quando me recordo das minhas aventuras como “piloto”, acho que montei um currículo mais consistente. Também não espere muito… Fato é que eu guiava melhor do que jogava futebol.

Foi um grande passo ter entrado na equipe de testes da Quatro Rodas, recém-formado, com apenas 21 anos, e cumprir os mesmos tempos no 0 a 100 km/h (único teste que dependia, de fato, da habilidade do piloto, devido às trocas rápidas de marchas) com o Douglas, o cara que melhor guiava naquela equipe. Batíamos os décimos, tipo aceleração de Gol GTi: ele fazia 9s41 e eu, 9s47.
Tempos depois, a revista ganhou o precioso reforço do Bob Sharp. O sarrafo subiu. O Bob havia sido piloto profissional. Chegou a ser campeão de Turismo nos anos 70. E eu também me igualava aos resultados de medição que ele fazia.

GTi x GSi x XR3
Um dia (e essa matéria ficou famosa), levamos o trio de esportivos nacionais da época e medimos os tempos de voltas em Interlagos: Gol GTi, Kadett GSi e Escort XR3. E eu também consegui, desta vez pilotando em um autódromo, ficar com tempos idênticos aos dos dois jornalistas-pilotos.
Até que ganhei a chance de fazer minha primeira corrida, em janeiro de 1994.

Corri com o Douglas e o Ricardo Dilser as Mil Milhas de Interlagos, com um Voyage que competia no Brasileiro de Marcas. Tiramos o AP1800 e os pneus radiais usados no campeonato e instalamos um AP2000 com slick. Lembro nitidamente do dono do carro, o piloto Alvino Pereira Jr., acertar o carro no treino, parar no box e me “entregar a chave”.
Minha única experiência a bordo de um carro de corridas havia sido na escolinha de pilotagem do Roberto Manzini, que existe até hoje (e é excelente). Foi esse curso que me habilitou a tirar a carteirinha da Federação Paulista de Automobilismo.

Entrei na pista. Fiz o treino. E fiquei a 8 décimos do tempo do Alvino. No primeiro treino. Nas mãos dele, aquele Voyage andava entre os dez primeiros, dividindo tinta com os craques do automobilismo da época: Fabinho Sottomayor, Ingo Hoffmann, Paulo Gomes, Chico Serra.
Roda no ar
Olha a extensão disso na cabeça de um moleque de 24 anos que nunca havia pilotado um carro de corrida! Desci do carro e o Dilser foi pra pista. Fui assistir o treino no finalzinho da reta, só pra ver como ele fazia a tomada da primeira perna do S do Senna – diria que é o único ponto mais seletivo dessa pista. O resto é tudo fácil.

Quando ele passou a primeira vez, eu tomei um tremendo susto. A roda traseira esquerda, a que ficava do lado interno na curva, passava a um palmo do chão. Como você vinha freando até beliscar a zebra de dentro, ela vinha bloqueada. E no ar. “Caral…, o Rica (Dilser) tá guiando muito!!!” Ele também estava estreando com um carro de corrida. Pensei comigo: vou ter que suar pra virar o tempo dele.
Ele volta para o box e eu vou cumprimentá-lo. “Rica, cara, que incrível! Você faz a primeira perna do S com a roda no ar!” E ele responde: “e você acha que você faz como?” O Alvino sorri com a troca de informações dos jovens estreantes e confirma: “vocês são muito iguais. O Rica virou exatamente o seu tempo!”

O Alvino foi o piloto mais rápido que eu tive o prazer de compartilhar da amizade ao longo da vida. Eu estava “ali”, pertinho do tempo dele. Classifiquei o carro em 28º no grid, a 2 ou 3 décimos do que virava o Alvino no mesmo carro.
A corredeira
Na prova, logo começou a chover. Lembro que eu vinha de pé trancado na reta. Bem na altura da entrada do box, descia um rio de água lá da parte de cima da arquibancada, atravessando bem no meio da pista. O Voyage a 195 km/h e com o volante levemente esterçado pra esquerda. Quando cruzei o rio na primeira volta, a traseira veio de uma vez. Sem aliviar o pé, eu contra estercei a ponto de bater um braço no outro.

O coração veio na boca. Só que fiz isso mais umas 50 vezes, pois choveu quase toda a prova. E OK, tudo bem, virou um troço corriqueiro.
Percebi que eu era, no mínimo, bom. Nada mais do que isso. Só bom. Até porque no último turno da prova, e era eu que estava guiando, tivemos um problema no freio. E eu passei a ter de bombar o pedal nas duas retas para ter capacidade de frenagem na entrada do S e na chegada à Curva do Lago. E tudo bem também. Terminamos. Chegamos em nono.
![Interlagos [divulgação]](https://www.automaistv.com.br/wp-content/uploads/2020/05/Interlagos_abre.jpg)
Quando deu esse problema no freio, nós passamos a ser um dos carros mais lentos da prova. Já não estávamos entre os 25 mais rápidos…rs. Mas ficamos ainda mais lentos. Eu guiei os meus dois turnos de 2 horas de olho no retrovisor, sempre observando qual era o carro mais rápido que vinha me ultrapassar. Mas eis que eu encontro um outro Voyage na freada da Junção.
Eu queria lá na freada do S
Na subida, ele sinaliza por onde eu deveria passar. Nosso carro era bem mais rápido de motor. E eu respondia que não, movimentando o dedo indicador em sinal característico. Meu “plano” era fazer uma ultrapassagem – pelo menos uma, uminha – na freada do S.

Fiquei cozinhando o Voyage na reta inteira, não via nem a lanterna dele, de tão enfiado no vácuo. E bombando o pedal de freio. E me concentrei. Passando a linha de chegada, eu tirei pra esquerda. Mas tomei um p… susto. Passa um vulto pela minha esquerda, uns 40 km/h mais rápido, espremido entre meu carro e a mureta do box.
Era uma BMW branca (apenas um tal de Nelson Piquet ao volante), quando eu estou iniciando a ultrapassagem. Diante do susto, dei uma leve tiradinha pra direita. E quase joguei o outro Voyage lá na arquibancada…rs

Apesar dessa mancada, bem juvenil, inclusive, eu notei que era, sim, um bom piloto. Talvez nada muito mais do que um simples bom piloto. Longe de ter a pretensão de me profissionalizar nisso, eu queria mesmo ter “curtido” mais vezes a sensação de pilotar um carro de corrida. Tenho hoje 56 anos e as chances ficam cada vez escassas, até porque, vamos combinar, o corpinho aqui não tem mais a mesma vitalidade.
Piloto-jornalista
Fiz mais três corridas em toda a vida. Falarei delas outro dia, até porque, hoje, meu compromisso era descrever o prazer ao dirigir que tive ao experimentar alguns carros específicos ao longo da vida. Para aplacar a frustração de não ter sido “piloto de turismo”, eu compensei guiando, avaliando, lançando alguns carros bem especiais. Não dá para reclamar, é bem verdade.

Deixo agora a lista. Prometo que falo deles na próxima semana: Dauer 962 LeMans (guiei esse carro a 305 km/h), Chevrolet Zafira, Chevrolet Omega CD, Ford Ka 1.6, Kawasaki Z900RS, Honda Civic VTi, o Porsche Macan Turbo (o elétrico). Ah, claro, e o maior de todos: o 911. Detalhe: o 992.2, na versão GTS, o T-Hybrid. Andei dentro de um autódromo. Cara, que dia.
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