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Nivus prova que a Volkswagen tem que deixar o Brasil fazer | Avaliação

Nascido no Brasil e para o nosso mercado, o Volkswagen Nivus conquistou até aos europeus e isso prova o nosso poder
Volkswagen Nivus Highline Hero [Auto+ / João Brigato]
Volkswagen Nivus Highline Hero [Auto+ / João Brigato]

Bastante específico, o mercado brasileiro exige tipos de carros criados para nós e, no máximo, aproveitados pelos países vizinhos. São raros os casos de modelos exportados para EUA ou Europa. A Volkswagen fez isso com o Voyage o levando aos EUA e com o Fox produzido no Brasil e vendido no Velho Continente. Só que algo inédito aconteceu quando o Volkswagen Nivus surgiu.

Ele agradou tanto a matriz que decidiram produzi-lo na Europa. Pela primeira vez na história um projeto brasileiro passou a ser fabricado por lá, não exportado de nosso solo. Tudo bem que a Volkswagen mudou o nome para Taigo e modificou muita coisa.

Isso é um feito e tanto! E só prova que quando a Volkswagen deixa o Brasil fazer, ela acerta mais do que com carros globais. Veja o Polo, por exemplo, vende relativamente bem, mas não tem o mesmo impacto. O T-Cross brasileiro é maior que o europeu e visualmente diferente, com isso vende mais que todos os outros SUVs no Brasil, ao menos em 2022.

Volkswagen Nivus Highline Hero [Auto+ / João Brigato]
Volkswagen Nivus Highline Hero [Auto+ / João Brigato]
Mas será que o Volkswagen Nivus é tudo isso? Testamos a versão Highline de R$ 136.270, mas que chega a R$ 139.875 com pacote Hero e com a belíssima cor Azul Biscay (cuidado para não falar palavrão) para provar se esse é um acerto do Brasil ou não.

No ponto

Desde que começaram a transformar SUVs em hatches, nenhuma outra marca soube disfarçar tão bem a origem de seu carro como a Volkswagen. Um Honda WR-V é nitidamente um Fit um pouco diferente, assim como o Fiat Pulse tem jeito de Argo bombado. Já os CAOA Chery Tiggo 2 e Tiggo 3X passam despercebidos porque ninguém lembra que o Celer um dia existiu.

Volkswagen Nivus Highline Hero [Auto+ / João Brigato]
Volkswagen Nivus Highline Hero [Auto+ / João Brigato]
Mas quase é impossível ver um Polo no Nivus. Boa parte porque o desenho da lateral do hatch compacto é bem genérica, mas a grande vantagem é que a Volkswagen foi a única de todas as marcas que mexeu na traseira do SUV. O Nivus tem queda estilo cupê, sendo o SUV cupê mais barato do Brasil, o que o afastou muito do Polo.

Ele é, sem dúvida, um dos carros mais bonitos projetados no Brasil. Dianteira esportiva com entradas de ar largas e vincos fortes no capô dão um ar sofisticado e robusto ao mesmo tempo para o modelo. Junto a isso temos toda parte inferior da carroceria em plástico preto, mas sem exageros para tornar o Nivus algo que ele não é.

Volkswagen Nivus Highline Hero [Auto+ / João Brigato]
Volkswagen Nivus Highline Hero [Auto+ / João Brigato]
No Taigo europeu, as lanternas traseiras conectadas acendem em toda parte central, ao contrário do Nivus brasileiro. Nessa versão Highline, o Nivus está em seu estado de arte com elementos cinza pela carroceria e rodas diamantadas de 17 polegadas. Sinceramente não optaria pelo pacote Hero com elementos cromados substituídos por preto, teto preto e roda escura.

Jogo invertido

Se por fora o Nivus renega suas origens Polo, por dentro ele as assume com força. Ao contrário do Fiat Pulse que tem cabine totalmente diferente da do Argo, Polo e Nivus são idênticos por dentro. Para não dizer completamente iguais, o volante do SUV é novo, mas já já estará no hatch. Tanto que a linha 2023 de ambos trouxe o novo ar-condicionado digital.

[Auto+ / João Brigato]
[Auto+ / João Brigato]
Ele é sensível ao toque e fácil de usar, além de ter dado uma aparência mais sofisticada que o festival de botões sem utilidade do antigo sistema. O problema aqui é que a cabine tem um belo visual, parece sofisticada, mas está bem longe disso. O acabamento do Nivus é ruim, com plásticos duros para tudo quanto é canto e rebarbas em diversos lugares.

Lá fora ele tem revestimento macio ao toque: aqui no máximo uma almofadinha no descanso de braço, mas que é tão mole que seu cotovelo vai raspar na parte dura. O revestimento dos bancos não pode nem ser chamado de couro e tem aspecto bem simplório – ao contrário do volante que tem revestimento de qualidade e agradável ao toque.

É um contraste nítido com o painel de instrumentos totalmente digital de ótima qualidade, cheio de recursos e rápido em sua execução. A central multimídia também merece destaque pela facilidade de uso – parece um grande tablet em que qualquer usuário de iPhone ou Android se sentirá em casa.

Por falar nisso, tem conexões sem fio com os dois sistemas, além de carregador por indução. Dá até para instalar alguns aplicativos diretamente na tela como Waze, mas melhor usar o Android Auto ou o Apple CarPlay mesmo. Aliás, essa tela é de série para todos os Nivus, assim como o piloto automático adaptativo.

O último ponto sobre o interior tem relação com o espaço. Quem senta à frente tem área vasta, sendo o motorista com volante regulando em altura e em profundidade. Mas o espaço traseiro é acanhado: pessoas altas não ficam confortáveis e há pouca área para cabeça e pernas. É um carro para dois e eventuais caronas curtas. Já o porta-malas de 415 litros é bom.

Catálogo da Netflix

Se por fora o Nivus é plena satisfação e dentro beira a decepção, ao volante ele mostra que condiz com seu exterior. Que carro gostoso de dirigir! Rodei 1.000 km com ele durante uma semana e mal foi percebido. Ele foi calibrado na perfeição para agradar ao brasileiro e é, sem dúvida, um dos melhores SUVs compactos no quesito prazer ao volante. Mas tem um porém.

Volkswagen Nivus Highline Hero [Auto+ / João Brigato]
Volkswagen Nivus Highline Hero [Auto+ / João Brigato]
Vamos primeiro tirar o elefante branco da sala antes de ir aos pontos bons. O câmbio automático de seis marchas do Volkswagen Nivus é o seu único defeito no quesito dirigibilidade. Ele já parece algo antigo e que tira todo potencial do motor 1.0 TSI. Para leigos, por trocar de marchas suave e não dar trancos, já seria algo ótimo.

Só que o câmbio se perde. Na estrada fica indeciso entre quinta e sexta marcha tal qual você ao abrir o catálogo da Netflix em um domingo a noite depois de assistir Fantástico e reclamar que não sabe que filme ver. Ele não decide qual marcha fica! E nem precisava reduzir para quinta para ganhar fôlego, porque o 1.0 TSI tem de sobra.

Volkswagen Nivus Highline Hero [Auto+ / João Brigato]
Volkswagen Nivus Highline Hero [Auto+ / João Brigato]
Há também o ponto de que quando ele reduz para primeira marcha, vibra excessivamente segundos antes de desligar o motor por conta do start-stop. Passa a sensação de que ele hesitou em desligar, achou que era uma ideia ruim, depois de fato desligou. Uma transmissão mais moderna se faz urgente ao Nivus.

Louro, pimenta do reino, cebolinha e alecrim

Apesar de o câmbio não extrair tudo que pode do motor 1.0 TSI, ele é a grande estrela. Com 128 cv e 20,4 kgfm de torque só não é o mais potente do Brasil por culpa dos 2 cv a mais que o motor 1.0 turbo do Fiat Pulse tem. Ele é bem elástico, entregando torque em baixa e sem perder o fôlego em alta rotação, além de ter um ronquinho interessante.

Volkswagen Nivus Highline Hero [Auto+ / João Brigato]
Volkswagen Nivus Highline Hero [Auto+ / João Brigato]
Em consumo, preocupa com etanol fazendo médias de 7 km/l na média entre cidade e estrada durante nossos testes. Já com gasolina, passava fácil dos 14 km/l de média, mesmo andando um pouco mais rápido do que deveria e carregado. Os 1.000 km rodados secaram um tanque de etanol e três quartos de um de gasolina.

Com peso preciso, a direção é leve nas manobras a ponto de virar o volante com o dedinho, mas em alta velocidade fica firme na medida certa. Os modelos da Peugoet e da Citroën tem direção parecida, mas que toma mais peso em alta velocidade. Já a suspensão pende mais para o lado de hatch esportivo do que para SUV.

Volkswagen Nivus Highline Hero [Auto+ / João Brigato]
Volkswagen Nivus Highline Hero [Auto+ / João Brigato]
O Nivus é bom de curva, inclinando pouco a carroceria e apontando fácil mesmo nas viradas mais fortes. Mas, como todo Volkswagen, é mais durinho e não muito ávido da buraqueira. Acaba que ele se torna, dinamicamente, um hatch mas que mantém a aparência de SUV. Até porque a posição de dirigir é um tanto quanto baixa.

Pioneirismo custa

Ele foi um dos primeiros modelos da categoria a contar com piloto automático adaptativo, pena que não se modernizou para ter sistema de manutenção em faixa o qual permitiria ao Nivus dirigir praticamente sozinho. Há também itens como frenagem autônoma de emergência, vetorização de torque e indicador de fadiga.

Volkswagen Nivus Highline Hero [Auto+ / João Brigato]
Volkswagen Nivus Highline Hero [Auto+ / João Brigato]
O Nivus Higline é bem completo, contando com seis airbags, ar-condicionado digital de uma zona, faróis full-LED, controle de tração e estabilidade, monitoramento de pressão dos pneus, retrovisores com rebatimento elétrico, vidros elétricos nas quatro portas, Android Auto e Apple CarPlay sem fio e carregador de celular por indução.

Veredicto

Pode entrar em qualquer concessionária da Volkswagen e duvido achar um carro mais bonito que o Nivus no showroom de zero quilômetro. Ele chama atenção mesmo tendo sido lançado há um certo tempo, o que melhorou ainda mais depois que a belíssima cor azul biscay entrou na gama. Por isso, dona Volkswagen, deixe o departamento de design com o Brasil: sabemos o que estamos fazendo.

Volkswagen Nivus Highline Hero [Auto+ / João Brigato]
Volkswagen Gol 1000 e Nivus Highline Hero [Auto+ / João Brigato]
Para não dizer que tudo está perfeito, o interior precisa urgente melhorar o acabamento ruim, enquanto o câmbio já dá sinais de cansaço. Mas são itens que não tiram o brilho do Volkswagen Nivus. Bom de dirigir, bonito de verdade e com lista de itens de série completa, ele é uma compra certeira. Problema é pagar quase R$ 140 mil, mas não é demérito só dele. Desde quando carro no Brasil ficou tão caro?

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João Brigato

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