O Honda Accord passa quase invisível pelas ruas brasileiras, e talvez seja exatamente essa a graça dele. Não é por falta de competência, e sim porque ele vive em um segmento que praticamente sumiu. É um sedã grande, bem construído, confortável e muito econômico, mas custa R$ 332.400, algo que por si só já explica boa parte do cenário. A Honda sabe disso, tanto que mantém o preço, sem desconto. Quem quer, compra. Quem não quer, passa longe.
Ainda assim é curioso pensar que um modelo que está no Brasil desde 1992, que já saiu, voltou e hoje vive sua 11ª geração, continue seguindo a mesma filosofia de sempre. O Accord nunca precisou chamar atenção, e quem compra também não. É um público que não busca provar nada para ninguém, só precisa de um veículo confortável, quer economia e correto no que se propõe, e com poucas paradas no posto de combustível.
Eficiência máxima
Só dirigindo o Accord para entender como a Honda consegue fazer um sistema tão inteligente e harmonioso, com potência na medida certa e um consumo impressionante para um carro de quase duas toneladas. O segredo fica concentrado no sistema e:HEV.


O motor é o 2.0 aspirado ciclo Atkinson de 146 cv e 19,2 kgfm, mais dois motores elétricos. Um é o gerador, o outro é o de tração, que é quem realmente move o carro na maior parte do tempo. Esse motor elétrico de tração entrega 184 cv e 34,1 kgfm na hora.
Já o motor-gerador fica acoplado ao 2.0 e cria energia para alimentar a pequena bateria de 1,05 kWh, que por sua vez alimenta o motor de tração. Basicamente funciona assim na maior parte do tempo: a bateria move o carro e o combustão alimenta e carrega a bateria.



O 2.0 só vai acionar as rodas diretamente quando precisa de força extra, como uma aceleração mais forte, subida ou quando o sistema entende que, naquela velocidade, o motor a combustão é mais eficiente do que o elétrico sozinho. É por isso que no trânsito pesado, em baixíssimas velocidades do anda e para, o Accord quase vira quase um elétrico puro.
Toda a orquestra funciona por meio do IPU, uma central que decide como o sistema vai entrar — o motor a combustão ou a bateria. É por isso que o Accord arranca com suavidade típica de elétrico, sem lag. A alternância do motor a combustão e o sistema elétrico ocorre de forma suave. Quando o motor a combustão liga, você percebe só aquela vibração mínima típica de híbrido, mas nada que incomode.



A Honda não divulga o número final de potência quando tudo atua junto, mas o carro trabalha com cerca de 207 cv, especialmente no modo Sport. A entrega de potência é linear e uniforme. Ao pisar, ele ganha velocidade de forma fácil e progressivo, totalmente previsível.
Fato esse confirmado pelo seu 0 a 100 km/h feito em 8,8 segundos, o que permite ultrapassagens simples, sem esforço e susto, e a velocidade máxima divulgada é de 183 km/h que chega rápido e você nem percebe.

É justamente aqui que entra o equilíbrio dinâmico do Accord. Ele tem estabilidade de sobra e faz a sensação de velocidade alta simplesmente sumir. Parte disso vem da aerodinâmica baixa e do corpo grande e bem assentado com seus 4,97 m de comprimento, 1,86 m de largura e só 1,46 m de altura.
A carroceria corta o ar fácil e o carro se mantém na trajetória como se estivesse em um trilho, sempre muito firme. O modo Sport ainda adiciona um emulador de som que tenta resgatar um pouco daquela emoção dos velhos V6, e honestamente, não traz nenhuma emoção, mas não deixa de ser legal. O e-CVT ainda simula trocas para engrossar o clima.

Já na cidade, o Accord segue o mesmo refinamento e conforto que apresenta na estrada. A suspensão McPherson na frente e Multilink atrás segue aquela assinatura clássica da Honda em ser firme, sem ser desconfortável. Ela absorve bem as irregularidades até melhores que muitos SUVs e ainda tem a vantagem de deixa o Accord totalmente plantado no asfalto.
O carro tem apenas 134 mm de altura do solo, e isso ajuda demais na sensação de estabilidade. Ele faz curva como se fosse menor do que realmente é, com pouca rolagem de carroceria e ótimo apoio. O único ponto é a direção, que embora seja precisa e rápida, é um pouco pesada para o uso urbano. Nada que atrapalhe, mas um ajuste mais leve deixaria melhor.



O ângulo de ataque de 14,7° cobra seu preço na cidade. Ele raspa com facilidade em valetas e rampas, como já é esperado em um sedã grande de frente longa. Quem é mais chato com isso vai precisar ficar atento.
Por outro lado, os freios são a disco nas quatro rodas e tem o padrão Honda de ser sensível e com extrema responsabilidade. E os seis níveis de regeneração controlados pelas borboletas atrás do volante fazem muita diferença, principalmente em descidas longas. É possível praticamente controlar o carro só na regeneração e ainda por cima economizando pastilha.

E aqui entra o ponto mais forte do Accord, seu consumo. Nos nossos testes, foram 17,3 km/l na cidade e 21 km/l na estrada. Para um sedã desse tamanho com 1.625 kg, é algo absurdo. Com o tanque de 48,5 litros, a autonomia passa facilmente de 800 km na cidade e chega a mais de 1.000 km na estrada. Você esquece o posto de combustível por dias e se bobear até no mês.
Uma verdadeira barca



O Honda Accord sempre carregou a fama de barca e nessa geração não é diferente. Com seus quase 5 metros de comprimento, o entre-eixos oferece 2,83 m, números que fazem ele ser um sedã de luxo de verdade. E o espaço interno acompanha isso. Atrás, mesmo com meus 1,88 m, sobra um palmo cheio entre o joelho e o banco da frente.
A cabeça também não encosta no teto, mesmo com a queda da coluna C. O único ponto menos prático é o túnel central, bem elevado por causa da bateria, mas ainda assim você tem USB-C, saída de ar e conforto de sobra.



Por ser um carro tão grande, você até espera um ar-condicionado de três zonas, mas aqui ele oferece o básico de duas zonas. Não há também banco ventilado ou aquecido. O porta-malas de 574 litros deixa claro que estamos falando de um sedã gigante.
Sentar ao volante do Accord é a sensação imediata de carro bem pensado. A ergonomia é muito boa, principalmente pelo recuo generoso e ajuste baixo do assento, como um sedã grande deve ser. O volante, com ajuste de altura e profundidade bem amplo, facilita encontrar a posição certa e o console central e as boas abas do banco abraçam o motorista.
Onde o Accord mostra porque é Honda



E aqui entra outra característica que poucas montadoras mantêm atualmente — o conservadorismo bem aplicado. Há botões físicos para tudo, o que deixa qualquer comando óbvio e rápido. Já o acabamento oferece soft touch no painel, portas dianteiras e traseiras, acolchoamento bem feito e um capricho que realmente diferencia o Accord de outros modelos da própria marca.
O painel de instrumentos digital tem 10,2 polegadas com ótima personalização e leitura. A multimídia de 12,3 polegadas continua sendo a maior já colocada em um Honda vendido no Brasil e traz a novidade da linha 2026 que é o sistema Google integrado.



Ou seja, Google Maps nativo, Google Assistant, comandos de voz direto no carro e a possibilidade de espelhar o mapa no painel digital. É bem útil na prática e funciona direitinho. O head-up display de seis polegadas continua, e o sistema de som Bose com 12 alto-falantes é excelente, com ótimos graves e médios, isso digno do preço que o Accord cobra.
Falta de detalhes difíceis de justificar
Mas nem tudo faz sentido. A Honda decidiu vender o carro só na cor preta no Brasil, o que elimina qualquer opção e nem mais o prata está disponível. E falta a câmera 360°, que sinceramente, é duro de engolir em carro dessa categoria. Você tem sensores dianteiros e traseiros, mas estacionar quase cinco metros de carro só com câmera de ré é pedido para sofrer.



O sedã ainda oferece carregador de celular por indução de 15 W, freio de estacionamento eletrônico com Auto Hold, chave presencial, sensor de chuva e crepuscular.
Em relação a segurança o modelo oferece o famoso Honda Sensing, presente em todos os veículos da marca no Brasil. Ou seja, piloto automático adaptativo com Stop & Go, assistente e centralização de faixa, frenagem automática de emergência com detector de pedestres e objetos e farol alto automático.



Tudo funciona bem e calibrado, porém a tecnologia só não é melhor devido ao detalhe brasileiro, que pelo preço, não merecia. O Accord não oferece alerta de ponto cego e não tem alerta de tráfego cruzado.
Nos Estados Unidos, o Accord tem ambos. Aqui a Honda insiste no LaneWatch, aquela câmera no retrovisor direito que aparece na tela quando você dá seta e cobre toda a tela. Em 2026, não ter blind spot nos dois retrovisores, em um carro desse tamanho, é difícil de justificar.
Veredicto

O Honda Accord, o Civic e o CR-V mostram claramente como a Honda mudou de patamar no Brasil. Sim, ficaram mais caros, mas também muito mais refinados e inteligentes. O Accord sempre carregou esse perfil de luxo discreto, e continua sendo a vitrine do que a marca tem de melhor por aqui. Grande parte do seu valor está no sistema e:HEV, tão bem calibrado que entrega autonomia de híbrido plug-in sem precisar de tomada.
Caro? Muito. A verdade é que o Civic Hybrid (R$ 265.900), que custa R$ 66 mil a menos, já assume quase todo o papel do Accord. Mesma lógica de motorização, eficiência e pacote muito próximo, só que em um carro menor. O diferencial real do Accord é espaço e aquela sensação de carro grande bem resolvido. É o charme dele. Ele não tenta aparecer, não tenta provar nada para ninguém.

O problema é que muitos elogiam o Accord, mas pouca gente lembra que ele existe. Falta divulgação, chegam poucos lotes e o brasileiro, no fim, compra status. Entre pagar mais de R$ 300 mil em um Honda ou um BMW, Audi ou Mercedes, o público médio escolhe o brasão alemão. Só que ignorar o Accord é perder um dos melhores carros que a Honda já trouxe ao Brasil. Prazeroso, inteligente e muito mais especial do que parece à primeira vista.
E você, compraria um Honda Accord por R$ 334.900? Deixe sua opinião nos comentários!



