Tema tão divertido que lá vou eu pela terceira semana a abordá-lo: prazer ao dirigir. É ele que explica o porquê de estarmos aqui, afinal. Para nós, você e eu, o automóvel nunca foi apenas um meio de locomoção para levar do ponto A ao B. Se fosse, teríamos possivelmente um suve e estaríamos desfrutando daquela mesma sensação superficial de quem veste uma roupa moderna, descolada, e que o faz só para rejuvenescer.
Eu não quero rejuvenescer. Quero é guiar algo que me encante. Por isso gosto tanto de sedãs, os carros mais de “tiozinhos” que existem. Ou de suas variações, como (alguns) hatches, as minivans que deles derivaram e, principalmente, as stations (ou peruas ou camionetas, como preferir). Como é revigorante estar fora de moda, embora nada supra o meu sorriso de canto de boca ao guiar algo que eu realmente aprecie.
Fui na semana passada com meu carro de São Paulo a Curitiba. E voltei no mesmo dia. Foram quase 900 km, sendo que a volta não foi muito cristã. Desci do carro, na garagem de casa, ao final do dia, FELIZ.

Mas você chegou ao quarto parágrafo do texto e deve estar encafifado. “O que é o caminhão de feira?” Explico: é o Opala. Mais do que o Opala. Um Opala com freio pesadíssimo e uns 270 cv de potência. O Opala que era usado na Stock-Car até 1993. Já havia sido anunciada a substituição do dito cujo pelos modernos Omega.
Agendei uma pauta para a Quatro Rodas com o piloto Adalberto Jardim. Isso era início da temporada de 1994. Eu havia acabado de guiar nas Mil Milhas de Interlagos. Estava afiado com o circuito.

Não gosto, não tem jeito
Conhecia bem o Omega de rua e sabia do salto tecnológico e qualitativo que ele havia dado em relação ao Opala. Aliás, um aparte: há dois exemplos históricos, ambos da GM, que retratam saltos gigantescos de um carro e seu sucessor: Chevette x Corsa e Opala x Omega. Acho até que o segundo exemplo é mais contundente. O Chevette nem era tão ruim. Opala, era.
Até tive um Diplomata 4p 6 cil. 1986, na tentativa de entender a paixão que o brasileiro tinha por esse carro e se minha implicância diminuiria. Pois aumentou. Ô coisa ruim que era, foi e sempre será o tal do Opala!

(Pausa para ser achincalhado por metade dos leitores, enquanto a outra metade sorri: “até que enfim alguém disse a verdade publicamente”)
Se no Voyage das Mil Milhas eu havia andado a 0s2 ou 0s3 do tempo do piloto que era dono do carro, aqui, no Opala, eu não consegui baixar a diferença de 1s8. Era um temporal! Pra começar, o Opala não usava servofreio. Os freios eram mecânicos, como os de Fusca.

“E como freia isso?”
Só que a belezinha fazia 220 km/h de final de reta dos boxes e pesava mais de 1,2 tonelada. Imagine a força pra subir no pedal de freio no freada do S do Senna! Custei a me acostumar. E, além disso, apesar de contar com blocante no diferencial, qualquer triscadinha no pedal de acelerador em saída de curva, ele saía de traseira e eu rodava.
Dei 10 voltas. E consegui marcar tempo só em 3 delas – rodei em todas as demais. E fiquei a quase 2 segundos do Jardim. Sempre gentil, ele garantiu que era um tempo ótimo, considerando que eu nunca havia guiado o Opala StockCar. E emendou: “vamos andar aqui em Interlagos no final de semana. Pega seu tempo e olha o grid. Você vai ver que não tá ruim”.

No domingo, fui ver a corrida. Jardim largou lá nas primeiras filas. Com o meu tempo, eu seria 15º ou 16º, à frente de outros 15 pilotos.

E isso porque só dei 3 voltas “certas”. Pudesse ficar treinando 3 ou 4 horas por dia durante uma ou duas semanas, eu melhoraria muito. E é essa sensação do “daria certo” que acentua minha frustração por não ter sido piloto. Mas vamos para os carros de rua. Esses, eu andei bastante. E também me diverti muito.
Dauer 962 LeMans

Equipado com motor boxer de seis cilindros, 3 litros, biturbo, de 720 cv, a potência pode até não parecer tão assustadora hoje, mas ele tinha o peso de um Uno: 1.130 kg. Resultado: fazia 0 a 100 km/h em 2,8 segundos. Saí acelerando aquele demônio do acostamento de uma estrada alemã observando o quanto o pedal de embreagem era duro e com curso minúsculo. Você tirava o carro do lugar acima de 3 ou 4 mil rpm.
Nunca guiei (e nunca mais vou guiar) um carro com engates de marchas tão curtos – você nem movimentava o braço, mas só a munheca. Até onde o suor das mãos permitiu, eu consegui passar dos 300 km/h, que era uma “meta pessoal”. Mantive 310 km/h por 3 ou 4 segundos. Você muda o referencial de observação da estrada e fica proibido de fazer movimentos bruscos. Até para desacelerar eu usava ações progressivas.
Chevrolet Zafira
![Carro Chevrolet Zafira [divulgação]](https://www.automaistv.com.br/wp-content/uploads/2023/12/chevrolet_zafira_1-1200x719.jpg)
Naquela virada de anos 90 para 2000, o Brasil foi inundado por minivans. De repente, elas eram a “bola da vez”. A GM tinha duas: Meriva e Zafira. E onde estava o prazer ao dirigir um Zafira? No comportamento dinâmico. Eu achava o máximo o conceito de aproveitamento de espaço das minivans, mas torcia o nariz para as suspensões de Picasso e Scénic.
Até que a Opel entregou o Zafira para a Porsche calibrar sua suspensão… Ah, doutor. Como era precisa. E não era dura. Mas tinha a calibração exata para ser um carro de família sem gerar a sensação de balançar a cada curva. Era um carro firme. Preciso. Receita exata. Não foi à toa que fez o sucesso que fez no Brasil.
Chevrolet Omega CD

Estou falando da primeira geração, que tinha motor 3.0, 6 cilindros em linha. Rendia 165 cv e trazia para o Brasil, pela primeira vez em muito tempo (podemos até discutir quando havia sido a última) o conceito de um carro realmente moderno. Era veloz, confortável, tecnológico, bom de chão. Um verdadeiro alento para um país que ninguém parecia enxergar como prioritário para o lançamento de bons automóveis.
A revista Quatro Rodas tinha um desses no Longa Duração. Lembro que viajei de São Paulo a Porto Seguro. Rodei mais de 3.000 km com aquele carro só nesse roteiro. E um número que nunca esqueci: gastei rigorosamente 400 litros de gasolina. Mas e daí? Com ele, a despesa exorbitante até compensava, pois ele te entregava desempenho, conforto e tecnologia que não existiam na indústria nacional naquele período.
Ford Ka XR 1.6

Nunca fui fã de carros da Ford. Talvez eu tivesse, hoje, uma de suas picapes. Talvez até incentivaria minha esposa a ter um Bronco. Mas lá atrás era raro algo me cativar. Até que estreou esse pequeno esportivo. Cara, esse carrinho era muito divertido!
Por ser minúsculo, ele era muito comunicativo para quem guiava. Copiava cada imperfeição do piso, mas, por não ter balanço dianteiro ou traseiro, era um kart, pregado no chão. Os 95 cv do motorzinho Zetec eram mais do que suficientes para uma pilotagem sempre esportiva, ainda que não o levasse a um desempenho estratosférico. Olha… eu teria um cara desses hoje como daily em dia.

Estou te devendo uma moto (Kawasaki Z900RS), um hot hatch dos anos 90 (Honda Civic VTi) e dois atuais – o Macan Turbo (elétrico que mais me impressionou até hoje, diria que numa escala até superior ao Taycan Turbo GT (foto acima) em termos de sensação de pilotar), e o 911 992.2, na versão Carrera GTS, com o sistema T-Hybrid. Esses modelos estão na primeira prateleira e vão exigir muito mais verbo.
Falamos deles na próxima semana?
Conte as suas experiências: quais os carros que mais te deram prazer ao dirigir até hoje?


