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Coluna do Tio Edu

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O fenômeno da “Defenderização” – a China copiando o Defender

Título enigmático, não? Mas será simples entender. Explico já já. Antes disso...

7 min de leitura

De 2000 a 2003, eu trabalhei numa empresa chamada Matel. Era ela que organizava algo bem enraizado na memória dos paulistanos em décadas anteriores: a Feira Livre do Automóvel, no Parque Anhembi. Nascida para ser um programa de TV, o negócio transformou-se no maior canal de revenda de seminovos e usados da época, chegando a acumular mais de 5 mil carros usados à venda por domingo em um único espaço físico. Existe até hoje, sob o nome, agora, de AutoShow.

YouTube video

Além da Feira propriamente dita, a Matel fazia algumas produções para a TV, como o próprio programa “Feira Livre do Automóvel”, aos domingos de manhã, na TV Gazeta, além do “AutoShop” e de outros tantos produtos que acabei sendo contratado para dirigir. O programa AutoShow, por exemplo, nasceu como uma revista eletrônica que ia ao ar na mesma Gazeta, só que aos domingos à noite. Foi orgulhosamente o precursor, por assim dizer, do programa AutoEsporte, que hoje você tão bem conhece.

Eu não tinha lá muito talento pra TV. Fazia minhas avaliações, mas sempre fui um cara de texto. Não de vídeo. Mas foi uma experiência bem interessante, até mesmo porque minha função era coordenar o conteúdo editorial dos programas e orientar os repórteres. E isso eu tocava. Foi legal também por ter convivido com o dono da Matel, o publicitário Luiz Eduardo Ribeiro dos Santos. Lembro bem de uma de suas pérolas, pouco antes de embarcar para o Salão de Frankfurt, em 2001. “Todo Salão tem uma essência. Ela aponta o caminho. Descubra qual é essa essência e sua cobertura jornalística estará praticamente feita”, dizia, profeticamente.

Land Rover Defender
Land Rover Defender OCTA [Divulgação]

O Edu da Matel (como sempre foi conhecido) não estava errado.

Hora de retornar ao título: a “Defenderização” foi a essência do que eu colhi no Auto China 2026, salão do automóvel de Pequim que acabei de retornar nessa semana. Esse fenômeno nada mais é do que o lançamento – e isso não é coincidência, e sim a tal da essência – de diversos SUVs com cara de jipões. Quando menciono o Defender, o intuito aqui é te posicionar rapidamente sobre a linguagem estética desses novos veículos. Não caia na tentação, encarecidamente, de achar que as marcas chinesas estão copiando o modelo mais famoso da Land Rover. Não, não é isso. Até porque elas já entenderam que o design define personalidade de marca e, hoje, ninguém mais copia. Cada uma tem sua proposta, embora a filosofia seja a mesma.

Vi nitidamente essa tendência: várias marcas chinesas criaram SUVs ao melhor estilo Defender, que tecnicamente dá também para chamar de “box design”. As formas retas, cúbicas, tão bem representadas historicamente por dois ilustres representantes mundiais (Land Rover Defender e Mercedes-Benz Classe G), ganharão inúmeras variáveis made in China.

Vale aqui a menção à GWM por ter enxergado esse viés de mercado antes das demais, tanto com o Tank 300 como o Haval H9. E é óbvio que cabe também a menção ao Jeep Renegade, exemplo brasileiríssimo dessa proposta esteticamente mais root. Se esse referido modelo cumpre o que promete, isso é outra história.

GWM Tank 300 cinza de frente
GWM Tank 300 [Auto+ / João Brigato]

E o que havia antes disso?

Todo mundo sabe da minha restrita afeição aos utilitários-esportivos, verdadeiros algozes de carrocerias muito mais úteis, eficientes e inteligentes, como stations e minivans. Confesso que essa antipatia era bem menos atuante, no entanto, com as versões “acupezadas”. Sei lá se porque remetem aos hatches, com um quê de esportividade, mas eu quase gosto deles. Carros como o Changan Uni-T e o GAC Hyptec HT, sem precisar citar modelos alemães de marcas premium, na minha opinião, são bonitos demais.

E esses veículos são uma febre nacional na China. Diferentemente daqui do Brasil, onde você vê muito mais unidades de X1 e X3 do que X2 e X6, bem como encontra mais carrocerias tradicionais do Cayenne do que do Cayenne Coupé, os chineses, a olho nu, empatam essa peleja. Tem muitos SUVs cupê nas ruas. Mas muitos mesmo.

Porsche Cayenne Coupé verde de traseira
Porsche Cayenne Coupé [divulgação]

Falo desses modelos para dizer que a tendência anterior, ao que me parece, era essa: as fabricantes chinesas passaram os últimos 5 anos produzindo versões e mais versões de novos SUVs com essa configuração em que a traseira não tem uma queda brusca, mas sim uma linha mais “cupê”. Toda marca chinesa tem o seu (ou os seus).

Acho, aparentemente, que essas profusão chegou ao limite. Quem está rodando por aí continuará, principalmente na China, sendo muito bem vendido, obrigado. Mas o frescor da novidade, a tal da “essência do Salão”, conforme apregoava o meu ex-chefe da Matel, chama-se SUV jipão. Tipo Defender. Eis que, de repente, os Canhões de Navarone (revi esse filme no avião e achei que tinha de usar aqui no texto) voltaram-se para o box design.

Vários modelos foram lançados. Certamente esquecerei algum(ns), tentando mencionar só os que possuem marcas trabalhando no Brasil. Conforme mencionei na coluna passada, a China possui 130 fabricantes de veículos. Falarei só das que estão (ou ainda chegarão) no nosso país, o que naturalmente vai repercutir (e muito) na fauna dos SUVs vendidos por aqui.

Além da linha GWM (Tank 300 e Haval H9), mais Tank 400 e Haval H7, do Chevrolet Spark e dos Jetour T1, T2 e G700, anote aí modelos com essa configuração que podem (não estou cravando, mas apenas especulando) desembarcar por aqui em breve: BYD Ti7, GAC 7, Deepal G318 (da Changan) e Denza B5 e B8. Além deles, você também poderá ver novas marcas estreando no país em breve com veículos que seguem esse mesmo estilo: iCar V23 e V27, IM Motors LS8, Dongfeng EQ-Reborn e BAIC BJ30 e BJ60.

iCar V23 [divulgação]
iCar V23 [divulgação]

Ah… e tanto esse movimento pareceu forte nos pavilhões chineses do Auto China 2026, que até a criadora das criaturas tinha a sua própria novidade: a Jaguar Land Rover criou uma nova marca chamada Freelander. Não, não é pra chamá-lo de LR. É Freelander, um novo brand. E adivinhe o estilo do primeiro modelo?

Pra quem só tinha Tank até outro dia… é muito jipão chegando, não?

Freelander 8 Land Rover Chery de frente cinza
Freelander 8 [divulgação]

Vão dar certo?

Tenho a mais absoluta convicção de que, sim, farão enorme sucesso no Brasil. Minha visão simplista é até assustadora, mas confio nela. E o motivo exaspera os dotes mecânicos e o custo-benefício desses veículos, que certamente seguirão a cartilha das marcas chinesas e chegarão ao país com ótimas combinações. Qual é o motivo? É inconsciente. Veja se você concorda com a minha tese: há alguns anos, nós temos brincado no dia a dia, com qualquer tema e/ou assunto, referindo-se à brincadeira do “raiz ou nutella”.

Alguma dúvida de qual categoria esses SUVs pertencem? E eu nem vou discutir aqui as aptidões de cada um, até porque nem deu tempo de avaliar um a um e muito menos os preços que cada um vai chegar. Só me refiro à predisposição do consumidor em aplaudir o jipão raiz como o Defender. Você seguramente nunca vai usar 4×4, reduzida, blocante e o escambau. Mas se é raiz, o povo topa. Os SUVs tradicionais e/ou acupezados serão nutella. Quer apostar?

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Edu Pincigher

Eduardo Pincigher é jornalista formado pela PUC-SP e atua no setor automotivo desde 1989, sendo o autor da Coluna do Tio Edu com textos divertidos sobre o presente e passado do setor automotivo. Com passagens em diversas publicações e montadoras, hoje trabalha como assessor de imprensa e consultor de diversas empresas

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