Existe uma curiosidade histórica em marcas italianas, especialmente na Fiat, que muitas pessoas nem percebem. Diferente de montadoras como Volkswagen ou Toyota, que mantêm nomes por décadas, a fabricante italiana criou o hábito de substituir seus carros por novos modelos com nomes completamente diferentes.
Esse comportamento virou praticamente uma marca registrada da Fiat, principalmente no Brasil e na Europa. Cada mudança de plataforma, design ou posicionamento muitas vezes resulta em um nome totalmente novo, como se o modelo fosse um projeto inédito.
Todavia, essa lógica não surgiu por acaso, já que ela reflete em uma cultura histórica das marcas italianas, como a Ferrari, Alfa Romeo, e até a Lamborghini. Essas empresas valorizam a ideia de renovação completa e tratam cada grande mudança de projeto como um novo começo.
Uma tradição antiga dentro da Fiat

Esse hábito de trocar nomes surgiu há muito tempo atrás, mais especificamente entre os anos 1970 e 1980, na Europa. O Fiat 133, originalmente desenvolvido como SEAT 133 na Espanha, substituiu o Fiat/SEAT 600 e 850 simultaneamente.
O 133 teve vida curta e abriu espaço para outros projetos. Quem entrou no lugar dele foi o atual conhecido Panda, que acabou se tornando o compacto mais importante da marca e um dos poucos modelos que realmente atravessaram várias gerações.

Outro caso clássico aparece na sucessão do 127 que não foi nada menos que o Uno. O 127 foi um fenômeno de vendas na Europa na década de 70, sendo um dos únicos hatches com tração dianteira e motor transversal. E com a idade do projeto e rivais como Ford Fiesta e VW Polo, a Fiat então reforçou sua imagem com o Uno, lançado em 20 de janeiro de 1983, produzido na Itália, com design criado por Giorgetto Giugiaro.
O Fiat 127 não morreu imediatamente, ele continuou sendo produzido em versões de baixo custo, como a série Unificata. Inclusive, o 127 era o 147 em nosso mercado modificado. E foi em 1984 que o Uno chegou no Brasil produzido em Betim (MG), desta forma, substituindo o 147 lançado em 1976, embora conviveram por um tempo até o 147, depois chamado de Spazio, sair de linha em 1986

O Uno se tornaria um dos carros mais importantes da história da marca. Mesmo assim, ele também não escapou da lógica de substituição. Após duas gerações bem diferentes entre si, o modelo saiu de linha e deu lugar ao Argo, lançado em 2017.
No processo, o Argo acabou absorvendo também o espaço deixado por outros dois carros da Fiat no Brasil, como o Palio e o Punto, ambos descontinuados poucos anos antes. E agora, a Fiat inaugura sua nova identidade visual vista na nova geração do Panda, que será produzido no Brasil e lançado em 2026. Não se sabe o nome, podendo ser novo Argo ou até a volta do Uno.
Hatches médios seguem o mesmo exemplo

Se existe um segmento que resume perfeitamente essa estratégia da Fiat, ele é o dos hatches médios. O Fiat Tipo, lançado na Europa em 1988 e bastante popular no Brasil nos anos 90, em vez de ganhar uma segunda geração, o modelo foi substituído em 1995 por dois carros diferentes, o Brava, de cinco portas, e o Bravo, de três portas.
A história não parou ali, já que em 2001, a dupla Brava e Bravo saiu de cena para abrir espaço ao Fiat Stilo, que buscava reposicionar a marca com mais tecnologia e sofisticação. Mesmo assim, o nome Stilo durou pouco. Em 2007, a Fiat voltou a usar o nome Bravo na Europa, agora em um projeto completamente novo. O modelo chegou ao Brasil em 2010, mas teve apenas uma reestilização antes de desaparecer novamente em 2016.


Curiosamente, a história deu uma volta completa quando o nome Tipo voltou em 2015 na Europa, mas agora como uma família inteira de carros com hatch, sedã e perua, pensada no custo-benefício europeu.
Sedãs também seguiram a mesma lógica
A linha de sedãs da Fiat também mostra uma sequência parecida, com os anos 80, aqui mesmo no Brasil. Tivemos em 1983 o Fiat Oggi, um projeto produzido em Betim (MG) derivado do 147, mas que teve uma vida curtíssima e saiu de linha em 1985.

Seguindo a mesma filosofia, tivemos o Fiat Prêmio que substituiu o Oggi, lançado em 1985 e baseado no Uno, também produzido aqui até 1994, foi para a Argentina em 1995, onde teve o nome de Duna e em seguida saiu de linha.
Mais tarde, a Fiat voltaria a mudar tudo novamente e o Prêmio deu lugar ao Fiat Siena. Isso porque entre 1995 e 1997 a Fiat ficou sem nenhum sedan compacto no catálogo, e então, o Siena chegou em 1997, produzido na Argentina e acompanhou a família Palio durante anos.

![Fiat Siena [divulgação]](https://www.automaistv.com.br/wp-content/uploads/2022/09/fiat_siena_fire_2_edited-1200x720.jpg)

Depois disso, em 2012, na segunda geração, o Siena recebeu o nome de Grand Siena por causa do crescimento de tamanho. Enquanto isso, o Siena na versão EL, ganhou uma reestilização e continuou sendo vendido por um tempo ao lado do Grand Siena. O sedan viveu até 2021, enquanto seu substituto, o Fiat Cronos, foi lançado em 2018 e vive até hoje em nosso mercado, hoje o único sedã da marca no Brasil.
Entre os sedãs médios, a história também seguiu o mesmo caminho, com o Fiat Tempra, sucesso nos anos 90, viveu até 1998, quando o Marea chegou no mesmo ano e sucedeu o Tempra. O Marea, no entanto, viveu apenas uma geração, saindo de linha em 2007. Depois dele veio o Linea, em 2008, baseado na plataforma do Punto ampliada, e saiu de linha em 2016, sem sucessor direto no segmento de médios.
Mudanças também aconteceram na Europa

No mercado europeu, a lógica da Fiat foi praticamente a mesma. O Fiat Ritmo, por exemplo, acabou sendo substituído pelo Tipo, enquanto o Cinquecento dos anos 90 teve apenas uma geração antes de ser renomeado como Seicento.
A minivan Idea também seguiu esse destino, sendo lançada em 2003 e ela não ganhou uma nova geração, acabando sendo substituída pelo 500L, que aproveitou o sucesso da família 500 com um visual retrô.

Outro caso recente envolve o fim do Punto na Europa em 2018, pois durante anos, o modelo ficou sem um sucessor direto. A Fiat só voltou a ocupar esse espaço recentemente com o 600e, um SUV elétrico que muitos consideram o substituto espiritual do antigo hatch.
Por que a Fiat sempre fez isso
Essa estratégia tem raízes culturais dentro da própria indústria italiana. Enquanto fabricantes alemãs e japonesas valorizam a continuidade e tradição dos nomes, as marcas italianas tendem a tratar cada projeto como uma nova obra. Por isso também vemos em fabricantes de supercarros.

A Lamborghini, por exemplo, raramente permanece com o mesmo nome por mais de uma geração. O Miura foi substituído pelo Countach, depois vieram Diablo, Murciélago, Aventador e agora Revuelto. Na Ferrari, a mesma coisa: o 360 Modena virou F430, depois 458 Italia, 488 GTB e F8 Tributo, cada modelo representando uma nova fase.
Até a Alfa Romeo segue essa filosofia. O hatch 147 deu lugar à Giulietta, enquanto os sedãs passaram por nomes como 156, 159 e Giulia. Em todos esses casos, o objetivo é praticamente o mesmo: um nome novo reforça a ideia de ruptura completa com o passado.

Outro motivo é em relação ao marketing, já que quando um nome totalmente novo aparece, a marca evita comparações diretas com o modelo anterior. Isso ajuda quando o projeto anterior teve problemas de imagem ou quando a empresa quer reposicionar o carro em outro patamar.
A Fiat começa a mudar
Apesar dessa tradição, a Fiat segue forte nesse mesmo caminho, mas já percebemos diferenças em relação ao passado. A criação da Stellantis trouxe uma estratégia mais global para a marca, que agora busca construir nomes fortes e reconhecidos internacionalmente.

O melhor exemplo é a Fiat Strada, picape essa que passou mais de duas décadas na primeira geração e, quando a segunda apareceu em 2020, a empresa decidiu deixar o nome de sucesso. Agora o modelo caminha para uma terceira geração, algo extremamente raro dentro da história da Fiat, que só aconteceu com o Panda.
Outros carros podem seguir o mesmo caminho, já que devemos ter a segunda geração do Pulse e Fastback com o mesmo nome no Brasil. O Fastback, um projeto criado no Brasil, curiosamente vai dar as caras na Europa, onde já é testado a nossa segunda geração por lá e a primeira para eles, já que o SUV cupê não existe ainda na gama europeia.
E você, prefere quando a Fiat cria um carro totalmente novo ou quando deixa os nomes tradicionais por várias gerações? Compartilhe sua opinião nos comentários!




