Você sabia que a Mercedes-Benz já decidiu entrar no segmento de caminhonetes médias? Mas pelo título pode ver que não deu muito certo. Pois é, a marca alemã queria provar que conseguia levar a estrela de três pontas para qualquer terreno, inclusive o da robustez rural dominado por japonesas. O problema é que ambição não paga conta, e muito menos sustenta produto sem identidade. A Classe X nasceu grande no discurso, mas morreu pequena nas vendas.
Lançada oficialmente em novembro de 2017 e aposentada em maio de 2020, a picape teve pouco mais de 30 meses de vida. Para uma fabricante com a tradição da Mercedes, isso é praticamente um cancelamento precoce com um belo ajuste no portfólio.
A origem do projeto que parecia brilhante no PowerPoint
A Classe X, que tinha código interno W470, não surgiu do zero, e aí entra o maior problema. Ela foi fruto da parceria entre a Daimler e a Aliança Renault-Nissan. A ideia do simplismo foi o que quebrou para a Mercedes, pois em vez de investir bilhões no desenvolvimento de uma picape do zero, a Mercedes utilizaria a base já pronta da Nissan Frontier, conhecida como Navara na Europa.

E com essa redução de custos, produção compartilhada, sinergia indústrial, e no papel fazendo sentido para a Mercedes, para o público, na prática, houve a percepção que o projeto foi rápido demais para um Mercedes e ainda mais por ser um projeto da Nissan.
O que era Nissan e o que era Mercedes
A Classe X utilizava a plataforma D23 da Frontier com chassi de longarinas, sistema de tração 4×4, arquitetura estrutural, tudo vindo da japonesa. Os motores eram diferentes para as duas versões. A X220d utilizava o 2.3 turbodiesel de 163 cv e o X250d com o 2.3 biturbo de 190 cv, ambos de origem Nissan.

Até a transmissão, chave e algumas maçanetas internas eram praticamente idênticas às da Frontier. Em um segmento onde cliente valoriza robustez, isso não é um problemão, mas cobrar preço de Mercedes por algo que lembra demais outro produto, pega mal.
A Mercedes tentou fazer a sua parte. Alargou as bitolas em cerca de 7 cm para melhorar a estabilidade, recalibrou a suspensão, reforçou o chassi para reduzir vibração e até instalou freios a disco nas quatro rodas, algo que a própria Frontier só adotaria anos depois.

Já no interior, aplicou o painel com tela flutuante típico da marca, volante multifuncional e central multimídia no estilo dos seus carros de passeio. Mas o acabamento ainda tinha plástico rígido em excesso. Para um carro que se posicionava como premium, isso pesou. Muito.
A tentativa de redenção com o V6
Para tentar silenciar as críticas, a Mercedes lançou a versão X350d. Essa configuração usava um motor 3.0 V6 turbodiesel, aqui já genuinamente Mercedes, com 258 cv e 56,1 kgfm, acoplado ao câmbio automático 7G-Tronic. Era outro nível de desempenho, refinamento e havia mais força. Ali, finalmente, a picape tinha algo que a Frontier não oferecia.

Mas ainda tinha um grande impedimento: o preço alto. Em alguns mercados europeus, a X350d se aproximava de 80 mil euros (cerca de R$ 495 mil). Isso fazia a picape estar na mesma prateleira de Mercedes-Benz Classe E. Quem compra uma picape média por preço de sedã executivo de luxo? Pouquíssimas pessoas.
As vendas que nunca convenceram
Em 2019, ano cheio de comercialização, a Classe X vendeu apenas 15.300 unidades no mundo. Para efeito de comparação, a Toyota Hilux superou as 500 mil unidades no mesmo período. É uma diferença bem constrangedora.

O comprador tradicional de picape média busca durabilidade, confiança mecânica e custo-benefício. O cliente tradicional da Mercedes busca status, conforto e imagem consolidada. E por isso, a Classe X ficou no meio do caminho.
Mercados atendidos
A Classe X foi vendida na Europa, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e partes da América do Sul. Nunca chegou aos Estados Unidos, principalmente por questões tarifárias. Já no Brasil, até houve uma expectativa real. A picape teria produção na Argentina, na planta de Córdoba, em parceria com Renault-Nissan.

Só que em 2019, a Mercedes cancelou o projeto argentino devido a crise econômica regional, divergências de custos e revisão de estratégia global. Desta forma, a Classe X morreu na América do Sul antes mesmo de nascer.
Em maio de 2020, a produção foi oficialmente encerrada, sem sucessora, sem segunda geração e sem nenhum tipo de despedida também. A própria Mercedes reconheceu que o modelo não atingiu as expectativas. Hoje, unidades remanescentes são raridade em alguns mercados. Há inclusive registros de exemplares abandonados em pátios na Argentina após o cancelamento da produção regional.
Se ela tivesse chegado oficialmente ao Brasil, você encararia pagar quase meio milhão em uma Mercedes-Benz Classe X? Deixe seu comentário!



