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Essa deu trabalho

O fracasso milionário da Mercedes em uma caminhonete que ninguém pediu

Primeira e última picape da marca alemã nasceu como símbolo de ousadia, mas virou exemplo clássico de erro estratégico e crise de identidade

5 min de leitura

Você sabia que a Mercedes-Benz já decidiu entrar no segmento de caminhonetes médias? Mas pelo título pode ver que não deu muito certo. Pois é, a marca alemã queria provar que conseguia levar a estrela de três pontas para qualquer terreno, inclusive o da robustez rural dominado por japonesas. O problema é que ambição não paga conta, e muito menos sustenta produto sem identidade. A Classe X nasceu grande no discurso, mas morreu pequena nas vendas.

Lançada oficialmente em novembro de 2017 e aposentada em maio de 2020, a picape teve pouco mais de 30 meses de vida. Para uma fabricante com a tradição da Mercedes, isso é praticamente um cancelamento precoce com um belo ajuste no portfólio.

A origem do projeto que parecia brilhante no PowerPoint

A Classe X, que tinha código interno W470, não surgiu do zero, e aí entra o maior problema. Ela foi fruto da parceria entre a Daimler e a Aliança Renault-Nissan. A ideia do simplismo foi o que quebrou para a Mercedes, pois em vez de investir bilhões no desenvolvimento de uma picape do zero, a Mercedes utilizaria a base já pronta da Nissan Frontier, conhecida como Navara na Europa.

Mercedes-Benz Classe X (divulgação)

E com essa redução de custos, produção compartilhada, sinergia indústrial, e no papel fazendo sentido para a Mercedes, para o público, na prática, houve a percepção que o projeto foi rápido demais para um Mercedes e ainda mais por ser um projeto da Nissan.  

O que era Nissan e o que era Mercedes

A Classe X utilizava a plataforma D23 da Frontier com chassi de longarinas, sistema de tração 4×4, arquitetura estrutural, tudo vindo da japonesa. Os motores eram diferentes para as duas versões. A X220d utilizava o 2.3 turbodiesel de 163 cv e o X250d com o 2.3 biturbo de 190 cv, ambos de origem Nissan. 

Mercedes-Benz Classe X (divulgação)

Até a transmissão, chave e algumas maçanetas internas eram praticamente idênticas às da Frontier. Em um segmento onde cliente valoriza robustez, isso não é um problemão, mas cobrar preço de Mercedes por algo que lembra demais outro produto, pega mal.

A Mercedes tentou fazer a sua parte. Alargou as bitolas em cerca de 7 cm para melhorar a estabilidade, recalibrou a suspensão, reforçou o chassi para reduzir vibração e até instalou freios a disco nas quatro rodas, algo que a própria Frontier só adotaria anos depois.

Mercedes-Benz Classe X (divulgação)

Já no interior, aplicou o painel com tela flutuante típico da marca, volante multifuncional e central multimídia no estilo dos seus carros de passeio. Mas o acabamento ainda tinha plástico rígido em excesso. Para um carro que se posicionava como premium, isso pesou. Muito.

A tentativa de redenção com o V6

Para tentar silenciar as críticas, a Mercedes lançou a versão X350d. Essa configuração usava um motor 3.0 V6 turbodiesel, aqui já genuinamente Mercedes, com 258 cv e 56,1 kgfm, acoplado ao câmbio automático 7G-Tronic. Era outro nível de desempenho, refinamento e havia mais força. Ali, finalmente, a picape tinha algo que a Frontier não oferecia.

Mercedes Classe X V6 (divulgação)

Mas ainda tinha um grande impedimento: o preço alto. Em alguns mercados europeus, a X350d se aproximava de 80 mil euros (cerca de R$ 495 mil). Isso fazia a picape estar na mesma prateleira de Mercedes-Benz Classe E. Quem compra uma picape média por preço de sedã executivo de luxo? Pouquíssimas pessoas.

As vendas que nunca convenceram

Em 2019, ano cheio de comercialização, a Classe X vendeu apenas 15.300 unidades no mundo. Para efeito de comparação, a Toyota Hilux superou as 500 mil unidades no mesmo período. É uma diferença bem constrangedora.

Mercedes Classe X V6 (divulgação)

O comprador tradicional de picape média busca durabilidade, confiança mecânica e custo-benefício. O cliente tradicional da Mercedes busca status, conforto e imagem consolidada. E por isso, a Classe X ficou no meio do caminho.

Mercados atendidos

A Classe X foi vendida na Europa, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e partes da América do Sul. Nunca chegou aos Estados Unidos, principalmente por questões tarifárias. Já no Brasil, até houve uma expectativa real. A picape teria produção na Argentina, na planta de Córdoba, em parceria com Renault-Nissan.

Mercedes Classe X V6 (divulgação)

Só que em 2019, a Mercedes cancelou o projeto argentino devido a crise econômica regional, divergências de custos e revisão de estratégia global. Desta forma, a Classe X morreu na América do Sul antes mesmo de nascer.

Em maio de 2020, a produção foi oficialmente encerrada, sem sucessora, sem segunda geração e sem nenhum tipo de despedida também. A própria Mercedes reconheceu que o modelo não atingiu as expectativas. Hoje, unidades remanescentes são raridade em alguns mercados. Há inclusive registros de exemplares abandonados em pátios na Argentina após o cancelamento da produção regional.

Se ela tivesse chegado oficialmente ao Brasil, você encararia pagar quase meio milhão em uma Mercedes-Benz Classe X? Deixe seu comentário!


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Luiz Forelli

Jornalista pela Faculdade Cásper Líbero, sempre fascinado por carros. Passava horas dirigindo no colo da família dentro da garagem ou empurrando carrinhos pela casa, como se já soubesse que seu caminho estaria entre motores e rodas. Hoje, realiza o sonho de infância escrevendo sobre o universo automotivo com a mesma empolgação de quem brincava com um volante imaginário. No lugar do sangue, corre gasolina, e isso nunca foi segredo.

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