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Por que a globalização matou o Ford EcoSport?

Na tentativa de agradar a muita gente, o Ford EcoSport abriu muitas concessões e viu a concorrência o esmagar

5 min de leitura

Pode culpar o Ford EcoSport pelo surto dos SUVs de shopping. Apesar de já estar aposentado, foi ele quem ensinou ao mundo como transformar um hatch compacto em um SUV e ganhar muito mercado com isso. Mas, quando a segunda geração chegou e a Ford decidiu transformar o EcoSport em carro global, a vida do modelo não foi fácil.

Durante a crise financeira dos EUA, a Ford decidiu adotar a estratégia One Ford. Ao invés de desenvolver carros específicos para cada país em que atuava, ou adotar a estratégia de modificação de produtos para cada região, a nova geração dos carros da Ford se tornaria uma só.

Assim tivemos a unificação de carros como Fusion e Mondeo ou Kuga e Escape. Mas também a globalização de modelos como Ka, Fiesta, Focus e EcoSport. Como o Brasil inventou o EcoSport, nós fomos os responsáveis pelo desenvolvimento da segunda geração, mas havia a necessidade de atender a vários países no mundo e isso comprometeu o SUV.

Ford EcoSport [divulgação]
Ford EcoSport [divulgação]

Um EcoSport

O ponto mais controverso sobre o EcoSport de segunda geração tem relação ao seu porte. O primeiro modelo tinha 4,28 m de comprimento (4,03 m sem o estepe), 2,49 m de entre-eixos, 1,73 m de largura e 1,67 m de altura. Era um SUV compacto com porte interessante, mas que ficava relativamente pequeno perto do Renault Duster, que estabeleceu o novo padrão.

Com isso, era natural pensar que o Ford EcoSport de segunda geração seria um carro bem maior, certo? Só que não. Ele tinha 4 m de comprimento sem o estepe, 1,76 m de largura, 1,65 m de altura e entre-eixos de 2,51 m. Praticamente ele tinha o mesmo tamanho do antecessor, mas o aproveitamento de espaço interno era bem pior.

Ford EcoSport [divulgação]
Ford EcoSport [divulgação]

Quando modelos como Jeep Renegade e Honda HR-V estabeleceram o patamar a ser seguido pelos SUVs compactos, ficou claro que o segundo EcoSport era pequeno demais. E essa medida certeira de 4 m no comprimento se deu por conta da Índia. Por lá, carros com até 4 m de comprimento contam com descontos de impostos.

O problema da Ford foi ter pensado o comprimento de todo um automóvel com foco em apenas um mercado, enquanto um Duster ostentava 4,31 m de comprimento e era seu único concorrente. Hoje, os SUVs compactos ficam sempre acima de 4,25 m, enquanto um SUV subcompacto que tem o comprimento do EcoSport.

Ford EcoSport [divulgação]
Ford EcoSport [divulgação]

Gostos diversos

Outro ponto sobre o Ford EcoSport de segunda geração era o conflito da suspensão. Ao mesmo tempo que ele balançava demais como um belo SUV gigantesco norte-americano, ele era mais firminho como o gosto dos europeus manda. Ou seja, era um carro que batia seco nos buracos e depois flutuava. Algo piorado na versão Titanium sem estepe por conta dos pneus runflat bem duros.

O acabamento do EcoSport, que era um problema grave da primeira geração, parecia ter mudado na segunda geração, mas era só visual. Os encaixes ainda eram bem ruins e a qualidade de montagem deixava a desejar em todo lugar do mundo – tanto que isso sempre foi a maior crítica ao EcoSport.

Ford EcoSport [divulgação]
Ford EcoSport [divulgação]

Outro ponto é que o Ford EcoSport de segunda geração foi desenhado para ter o estepe pendurado na traseira, seguindo a primeira geração. Contudo, a legislação na Europa não permitiu que o modelo tivesse sua típica mochila. Isso obrigou a marca a fazer adaptações e manter a tampa abrindo lateralmente, porém com a placa deslocada para cima. O visual era extremamente estranho e não ornava com o carro.

O resultado é que, fora do Brasil, o Ford EcoSport nunca vendeu bem. Nos EUA ele era considerado pequeno demais, enquanto na Europa outras marcas já ofereciam SUVs compactos mais interessantes. Por aqui, ele manteve seu reinado somente até a chegada de Jeep Renegade e Honda HR-V, entrando em um enorme limbo logo em seguida.

Ford EcoSport [divulgação]
Ford EcoSport [divulgação]

Seu recorde de vendas por aqui foi em 2013 com 66.103 unidades emplacadas. Já na Índia, o ano de 2018 foi o recorde com 51.973 unidades. Um ano depois, a Europa emplacou 120.376 unidades do EcoSport, seu recorde global. A China teve 84.643 unidades como seu recorde em 2014, ao passo que os EUA vendeu 64.708 EcoSport em 2019 como seu melhor ano.

O Powershift

Outro problema grave da globalização do Ford EcoSport foi o câmbio Powershift. A marca do oval azul em seu plano One Ford decidiu também unificar as motorizações de seus carros. Com isso, desenvolveu a transmissão de dupla embreagem Powershift que foi usada no EcoSport com motor 1.0 turbo, 1.6 aspirado e 2.0 aspirado.

Ford EcoSport [divulgação]
Ford EcoSport [divulgação]

Essa transmissão é reconhecida globalmente por sua série de problemas e casos frequentes de substituição completa do câmbio ou swap por uma transmissão manual. Com isso, o EcoSport que já precisava se provar frente aos rivais maiores e mais bem acabados, também tinha de lidar com problemas de confiabilidade. 

No final das contas, a Ford foi desligando a luz do EcoSport com o tempo. Ele parou de ser produzido na Tailandia em 2018, depois saiu de linha em 2019 na Rússia, seguido pela China em 2020 e a Índia e Brasil em 2021. Os EUA interromperam as vendas em 2022. Vietnã e Romênia seguiram fabricando o SUV até 2022, o mantendo à venda na Europa até 2023. 

Ford EcoSport [divulgação]
Ford EcoSport [divulgação]

Você já teve um Ford EcoSport? Conte nos comentários.


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1 comentário em “Por que a globalização matou o Ford EcoSport?”

  1. Italo

    Tive um (2004) da primeira geração. Gostava do carro. Rodei uns 120.000 km. Mecânica confiável, nunca tive problemas. Não dava importância ao acabamento mas um carro com aparência de SUV e confiável. O problema foi ferrugem na lataria. Durante os 4 anos de garantia foram 7 idas à concessionária para reparos. Numa delas trocaram o teto. Um amigo que trabalhava na linga de montagem me informou que era problema crônico na formulação da pintura. Não sei se é verdade.

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João Brigato

Formado em jornalismo e design de produto, é apaixonado por carros desde que aprendeu a falar e andar. Tentou ser designer automotivo, mas percebeu que a comunicação e o jornalismo eram sua verdadeira paixão. Dono de um Jeep Renegade Sem Nome, até hoje se arrepende de ter vendido seu Volkswagen up! TSI.

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