A indústria automotiva parece ter decidido que qualquer espaço vazio no painel precisa receber uma tela. Primeiro foi a central multimídia, depois o painel de instrumentos virou digital, até os comandos da climatização ganharam telas e, mais recentemente, até o passageiro ganhou seu próprio display. Só existe um pequeno problema: muita gente simplesmente não usa.
Um novo estudo da J.D. Power, feito com 68.084 proprietários de veículos ano/modelo 2026, mostrou que 35% daqueles que possuem uma tela dedicada ao passageiro nunca sequer tentaram utilizar o equipamento. Além disso, somente 6% dizem usar o recurso em todas as viagens.
Os números fazem parte do Tech Experience Index da consultoria. Afinal, as fabricantes estão colocando cada vez mais tecnologia dentro dos carros, mas nem tudo que parece impressionante na concessionária vai necessariamente melhorar a vida de quem está dentro deles.
Uma tela bonita que você provavelmente não precisa

Não dá para dizer que o equipamento seja completamente inútil. Dependendo do carro, o passageiro consegue controlar as músicas, ver a navegação, consultar informações da viagem ou mexer em determinadas configurações sem precisar disputar a central multimídia com o motorista.
Além disso, alguns sistemas mostram velocidade, bússola, mapas e outras informações sobre o veículo. Desta maneira, existe alguma interação e, principalmente em viagens longas, brincar com essas funções pode até ser interessante. A questão começa quando acaba a curiosidade dos primeiros dias.

Assim, muitas dessas funções já estão disponíveis na enorme central multimídia posicionada poucos centímetros ao lado. Desta forma, a terceira tela acaba repetindo informações que já poderiam ser acessadas facilmente em outro lugar.
E existe ainda a questão que durante boa parte do tempo, ninguém vai estar sentado naquele banco. Quem dirige sozinho leva diariamente um enorme display desligado na frente do banco vazio. Com isso, o equipamento muitas vezes parece cumprir uma função maior na apresentação do interior do que propriamente durante o uso do carro.
No Brasil ela faz ainda menos sentido

Uma das funções que realmente poderia justificar uma tela exclusiva para o passageiro seria justamente consumir algum entretenimento durante uma viagem, como filmes ou vídeos, algo que a central jamais poderá oferecer. E isso ganhou uma novidade recentemente no Brasil.
Em agosto de 2026, o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) publicou a Resolução nº 1.030/2026, que atualizou as regras para exibição de conteúdo dentro dos veículos e passou a permitir entretenimento para o passageiro do banco dianteiro mesmo com o carro em movimento.

Só que o motorista não pode enxergar filmes, séries ou vídeos exibidos naquela tela em nenhuma hipótese. Para isso, o sistema precisa utilizar uma tecnologia ou filtro óptico capaz de bloquear completamente a visualização do conteúdo pela perspectiva do condutor, independentemente da posição e dos ajustes do banco.
Desta forma, uma tela dedicada ao passageiro finalmente pode ter uma função mais interessante por aqui, desde que o carro tenha a tecnologia necessária para atender à regulamentação brasileira. O problema é que nem todos os sistemas vão ter possibilidade. Dependendo da tela utilizada e da homologação do veículo para nosso mercado, algumas funções podem continuar limitadas ou até indisponíveis.
![Jeep Grand Cherokee 4xe [divulgação]](https://www.automaistv.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Jeep_Grand_Cherokee_4xe_060_edited-1200x719.jpg)
Com isso, nos carros que não conseguem aproveitar o entretenimento, voltamos praticamente ao ponto inicial. Restam navegação, informações do veículo, comandos de áudio e outras funções que, novamente, já estão disponíveis na central multimídia poucos centímetros ao lado.
E elas também estão dando problema
A pesquisa da J.D. Power encontrou 21,3 problemas relacionados às telas dos passageiros para cada 100 veículos equipados com o recurso. Desta forma, além de uma parcela significativa dos proprietários ignorarem completamente o equipamento, aqueles que resolvem usá-los ainda podem achar defeitos chatinhos.

Isso não significa que os consumidores estão rejeitando tecnologia nos carros. Na verdade, o mesmo estudo mostra que os proprietários adoram e aceitam os recursos que simplificam a rotina sem exigir muita interação, como é o caso de um Head Up-Display. Todavia, existe uma diferença importante aí.
São tecnologias que trabalham para o motorista sem necessariamente ficarem lembrando o tempo inteiro que estão presentes. Como resumiu Doron Hikry, diretor de Customer Success da J.D. Power, as tecnologias mais valorizadas pelos consumidores costumam ser justamente aquelas que eles praticamente não percebem, porque simplesmente funcionam.
Estamos colocando tela demais nos carros?

Durante os últimos anos, aumentar o tamanho e a quantidade das telas virou praticamente uma corrida entre as fabricantes. Ou seja, quanto mais telas, mais moderno parece o interior. Só que a própria indústria começa a perceber que digitalizar absolutamente tudo também tem consequências.
Algumas fabricantes já voltaram a usar botões físicos para funções importantes, principalmente climatização e atalhos utilizados constantemente pelo motorista. Desta maneira, a discussão não precisa ser entre abandonar as telas ou transformar novamente os carros em interiores dos anos 1990. Tem que ter um meio-termo.
E você, acha útil ter uma tela exclusiva para o passageiro? Deixe seu comentário!


