Semanas atrás, quando fiz esse comparativo com motos de média cilindrada, eu quase coloquei a Yamaha MT-03 na pauta. Embora servida por um motor de cilindrtada (321 cm3) ligeiramente menor que as demais, de 400 a 450 cm3, a MT atendia a outros três itens que compunham o comparativo: era naked, tinha 41,3 cv e custava na faixa de R$ 30 mil. No caso dela, aliás, um pouco mais caro: R$ 35.734 (já com frete).
Só não coloquei mesmo pelo preço. Mas bobeei. Embora ela custe quase 20% acima das demais, você nunca pode subjugar mercadologicamente uma moto de uma marca de renome. Para mim, intimamente, a MT estava fora de preço. Só que fui conferir as vendas desse segmento e descobri que ela disputa palmo a palmo com a Bajaj Dominar 400 a liderança entre as nakeds de porte médio.
A Dominar até triunfou no final: 10.703 unidades vendidas em 2025 contra 9.517 MT-03 emplacadas.

Ela até pode ser mais cara, portanto. Mas é Yamaha, todo mundo conhece. E a rede de concessionários está espalhada em todo o país, abrangendo municípios que, seguramente, não têm revendas Triumph ou nunca ouviram falar de Royal Enfield ou Bajaj. Por isso a MT-03 vende tanto.
Mas por que, então, a Bajaj superou a Yamaha no volume final? Simples: mesmo ausente de dezenas de municípios desse país que só têm concessionárias Honda e Yamaha, a Dominar, nas cidades onde possui revendas, vende muito mais que a MT, a ponto de superá-la no cômputo final.

Mesmo mais cara, a MT-03 vale a pena?
Depende do seu jeito de pilotar. A Yamaha MT-03 ocupa um espaço particularmente interessante no mercado brasileiro: o de porta de entrada para o universo das naked esportivas com personalidade definida, desempenho consistente e um pacote técnico que vai além do básico esperado na categoria.
Avaliá-la é, portanto, compreender como a Yamaha equilibra emoção, racionalidade e identidade em um modelo pensado para formar motociclistas. E não apenas transportá-los.

Visualmente, a MT-03 é talvez uma das motos mais expressivas de sua faixa de cilindrada. O conceito “Dark Side of Japan” segue sendo o fio condutor do projeto, com destaque para o conjunto óptico dianteiro em LED, de desenho agressivo, que confere à moto uma presença quase intimidante quando vista de frente.
O tanque musculoso, os recortes angulosos e a traseira curta reforçam a proposta urbana e esportiva, criando uma moto que parece maior e mais robusta do que seus números sugerem.

Conheça sua receita
O motor bicilíndrico de 321 cm³, já conhecido por equipar a R3, é um dos grandes trunfos da MT-03. Entrega 41,3 cv de potência a 10.750 rpm e 3,0 kgf.m de torque a 9.000 rpm, números que se traduzem em acelerações progressivas e uma faixa de utilização ampla.
O propulsor se mostra elástico, com bom desempenho em médias rotações e disposição para girar alto quando provocado. É um conjunto que agrada tanto o piloto iniciante, pela previsibilidade, quanto o mais experiente, pela vivacidade.

Na prática, você precisa trabalhar com altas rotações se quiser empreender uma tocada mais esportiva. Ela é o oposto de uma Royal Enfield Guerrilla, por exemplo, que, por sua vez, possui um torque abundante em baixa. E dá potência máxima a apenas 8.000 rpm.
A MT, não. Tem que usar o acelerador e ir lá em cima se você quiser usar os 41,3 cv de potência. Para você ter uma ideia, ela gira a 8.000 rotações em sexta marcha, a 120 km/h. Caso você tenha que fazer uma ultrapassagem, ela estará prontinha para servi-lo, pois o torque máximo vem aos 9.000 giros. Ok, ela faz. Mas repito: você precisa gostar de trabalhar em altas rotações.

O câmbio de seis marchas, por sua vez, trabalha com precisão, e o escalonamento favorece o uso urbano sem comprometer a diversão em estradas sinuosas. Trata-se de uma moto que pede uma condução mais agressiva para entregar prazer na pilotagem.
Ciclística de gente (moto) grande
No chassi, a Yamaha adota uma estrutura tubular em aço, bem dimensionada para a proposta do modelo. A suspensão dianteira invertida de 37 mm, um dos diferenciais frente a concorrentes diretos, contribui significativamente para a estabilidade e para a leitura do asfalto, especialmente em condução mais esportiva.

Na traseira, o monoamortecedor oferece comportamento correto, priorizando o equilíbrio entre conforto e firmeza, ainda que não conte com ajustes sofisticados.
O sistema de freios é eficiente e coerente com o desempenho da moto. O disco dianteiro de 298 mm, assistido por pinça de dois pistões, e o disco traseiro de 220 mm trabalham em conjunto com o ABS de série, garantindo frenagens seguras e progressivas. Não há esportividade extrema aqui, mas sim a confiança necessária para o uso diário e eventuais momentos de pilotagem mais intensa.

Ergonomicamente, a MT-03 apresenta uma posição de pilotagem levemente inclinada para frente, com guidão largo e pedaleiras relativamente altas. O resultado é uma postura que favorece o controle e a agilidade no trânsito, sem comprometer o conforto em trajetos mais longos.
O banco, a 780 mm do solo, facilita a vida de pilotos de baixas estaturas, reforçando o caráter acessível do modelo. É o meu caso. Subi na moto, estiquei os braços para segurar o guidão e me senti como se a Yamaha fosse um alfaiate: ela foi feita perfeitamente para o meu tipo físico, o que não significa que pilotos de maior estatura também não se acomodem bem. Mas os baixinhos agradecem.

Uma delícia de moto pra usar na cidade
O painel totalmente digital é simples, mas funcional, com boa leitura e informações essenciais bem organizadas. Não há excessos tecnológicos, e isso parece intencional: a MT-03 aposta mais na experiência de pilotagem do que em recursos eletrônicos avançados.
No uso urbano, a MT-03 se mostra ágil, com bom raio de esterço e respostas rápidas ao acelerador. O peso em ordem de marcha, de 168 kg, contribui para a sensação de leveza e facilidade de condução. Em síntese, a Yamaha MT-03 é uma naked que cumpre com competência o papel de introduzir o motociclista ao universo das médias cilindradas, sem recorrer a concessões excessivas.

É uma moto com identidade forte, motor envolvente e ciclística bem resolvida, que privilegia o prazer de pilotar acima de números ou modismos. Mais do que uma simples opção racional, a MT-03 é uma escolha emocionalmente coerente. E isso, em um segmento tão disputado, faz toda a diferença.
O que você achou da Yamaha MT-03? Teria essa moto? Compartilhe sua opinião conosco.


