O rally sempre foi o laboratório mais extremo da indústria automotiva, pois diferente da Fórmula 1, que vive isolada dos carros de rua, o WRC fez por décadas que as montadoras vendessem versões civis muito próximas dos modelos de competição. Desta forma, nasceram máquinas que misturam brutalidade, engenharia e uma dose generosa de loucura.
Por isso, o Auto+ separou cinco carros que saíram das especiais de Monte Carlo, Finlândia e Portugal direto para as concessionárias. Vale lembrar que alguns foram feitos apenas para homologação, já outros até mudaram o rumo da indústria.
Mitsubishi Lancer Evolution VI Tommi Mäkinen Edition 1999 a 2001

Entre os fãs da fabricante japonesa, o modelo chamado Evo 6.5 é o ápice da linhagem. O Mitsubishi Lancer Evolution VI Tommi Mäkinen Edition nasceu como celebração direta do tetracampeonato mundial de Tommi Mäkinen entre 1996 e 1999. Foram apenas 2.500 unidades produzidas entre 1999 e 2001, além da Mitsubishi ter aproveitado as regras do Grupo A para criar uma versão ainda mais próxima do carro de competição.
Por exemplo, o chassi recebeu 130 pontos extras de solda para aumentar a rigidez torcional. O para-choque dianteiro também ganhou novo desenho para melhorar o fluxo de ar, enquanto a asa traseira passou a ter ajuste.

Já a suspensão foi rebaixada em 10 mm na dianteira e adotou amortecedores invertidos e braços de alumínio, além das rodas Enkei de 17 polegadas que replicavam o visual das usadas no WRC.
Debaixo do capô, o lendário 4G63 2.0 turbo respeitava oficialmente o acordo japonês que limitava a potência declarada a 280 cv. Na prática, muitos exemplares passavam dos 300 cv. O torque chegava a 38,1 kgfm a 2.750 rpm graças ao turbocompressor de titânio que aguentava toda a pressão em baixa. O 0 a 100 km/h ficava em 4,8 segundos.

Nas especiais do WRC, o Evo VI Group A foi muito bem em Monte Carlo, venceu na Suécia sobre neve, foi competitivo na Finlândia e na Austrália e consolidou o ciclo de vitórias que garantiu o tetracampeonato de Mäkinen.
Subaru Impreza 22B STi 1998

Se existe um Santo Graal da Subaru, ele atende pelo nome de Subaru Impreza 22B STi. Esse modelo foi lançado em 1998 e comemorava os 40 anos da Subaru e o tricampeonato mundial de construtores no WRC entre 1995 e 1997. Foram 400 unidades para o Japão, esgotadas em cerca de 30 minutos, além de 24 feitas à exportação.
Baseado no cupê WRX Type R, o 22B recebeu carroceria wide-body com para-lamas 80 mm mais largos, idênticos aos do Impreza WRC97 desenhado por Peter Stevens. A suspensão usava amortecedores invertidos Bilstein e molas Eibach, nesse caso ajustadas para o asfalto e cascalho.

O nome vem do motor 2.2 litros turbo EJ22G que, oficialmente, declarava 280 cv a 6.000 rpm devido ao pacto entre as montadoras japonesas com a Associação de Fabricantes de Automóveis no Japão (JAMA), que regulava a potência até 276 hp e o velocímetro até 180 km/h de máxima por efeito do aumento crescente de acidentes fatais.
Já o torque atingia 37 kgfm a 3.200 rpm. O 0 a 100 km/h era de 5,1 segundos. O 22B foi inspirado no WRC97 e WRC98 preparado pela Prodrive, com câmbio sequencial e interior totalmente aliviado. O 22B era a versão civil ultra-limitada.

Hoje, exemplares ultrapassam US$ 300.000 em leilões (cerca de R$ 1,5 milhão). Uma réplica quase perfeita do carro de Colin McRae, mas com placa e ar-condicionado.
Audi Quattro

Antes do Audi Quattro, a tração integral era coisa de jipe. Depois dele, virou regra no rali. Por isso falamos que o Audi Quattro mudou o esporte para sempre. Lançado em 1980, o modelo introduziu tração integral permanente com diferencial central oco. O motor 2.1 turbo de cinco cilindros entregava cerca de 200 cv e 29 kgfm. O 0 a 100 km/h acontecia em 7,1 segundos, número forte para a época.
A Audi pressionou a FIA para permitir 4×4 no rally. Enquanto os rivais apostavam na tração traseira, o Quattro mostrou que a aderência extra era vantagem decisiva em neve, gelo e cascalho.

Entre 1981 e 1985, venceu em Sanremo, Suécia, Finlândia e até na Costa do Marfim. Em 1982 o Quattro conseguiu o título de construtores. Depois surgiram as versões A1, A2 e o radical Sport Quattro S1 E2 do Grupo B.
Diferente de modelos de homologação quase artesanais, o Quattro virou carro de produção real. Foram 11.452 unidades fabricadas até 1991. Era um Gran Turismo civilizado, com interior bem acabado, bancos esportivos e até painel digital nas versões posteriores.
Peugeot 205 Turbo 16 1984

O Peugeot 205 Turbo 16 é o exemplo perfeito de lobo em pele de cordeiro. Lançado em 1984, ele compartilhava apenas faróis e silhueta com o 205 comum.
O motor 1.8 turbo foi movido para posição central-traseira, e o chassi traseiro recebeu estrutura tubular para abrigar a mecânica. Foram apenas 200 unidades de rua para homologação.

Sob liderança de Jean Todt, a Peugeot criou um carro compacto e extremamente ágil para derrotar o Audi no Grupo B. Deu certo. O 205 T16 conquistou os títulos mundiais de construtores e pilotos em 1985 e 1986.
A versão civil entregava 200 cv e 26 kgfm, com 0 a 100 km/h em 6 segundos. Já a Evo 2 de competição passava dos 500 cv.

Depois do fim do Grupo B, o modelo ainda venceu o Dakar em 1987 e 1988 e conquistou Pikes Peak. Um detalhe curioso que agrada qualquer entusiasta é que o bloco do motor derivava de um diesel da própria Peugeot, escolhido pela robustez para aguentar altas pressões de turbo.
Ford Escort RS Cosworth

A asa traseira de dois andares virou assinatura do Ford Escort RS Cosworth. A Cosworth e a Ford encurtaram o chassi do Sierra RS Cosworth e adaptaram à carroceria do Escort. O motor YBP entregava 227 cv e 31 kgfm. A tração integral distribuía 34% na frente e 66% atrás, o que fazia ser um carro bem arisco. O 0 a 100 km/h acontecia em 6,1 segundos.
Foram 7.145 unidades entre 1992 e 1996. As primeiras 2.500 eram puras para homologação, com turbinas maiores e o famoso turbo lag evidente que conhecemos em diversos modelos atuais.

Nas especiais, competiu entre 1993 e 1998 e venceu Monte Carlo em 1994 com François Delecour. Em alguns mercados, a Ford removeu a asa por exigências legais. Quase todos os donos instalaram novamente.
E você, qual desses monstros do rally teria coragem de colocar na sua garagem? Compartilhe sua opinião nos comentários!




