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Inteligência Artificial pode ser caminho para alcançar os chineses

O uso da Inteligência Artificial pode acelerar o desenvolvimento de novos produtos, assim como diminuir os custos para os fabricantes

8 min de leitura

Eu não vou te enganar. Usei ferramentas de IA para me ajudar na pesquisa sobre a atuação plural da Inteligência Artificial na indústria automobilística. Parece natural experimentar por si mesmo algumas das funcionalidades mais simples, como pesquisar sobre um tema. Nem preciso dizer o quanto esse assunto me encanta. Muito menos pelo que ela é capaz de promover de benfeitorias no próprio produto, mas sim nos processos de desenvolvimento e produção.

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Desde criança, eu sempre fui aficionado por tecnologia de ponta. Enquanto alguns amigos eram encantados com o ronco grave dos motores de alta cilindrada, como Opala, Puma GTB e Maverick V8, além de muscle-cars norte-americanos, eu preferia incondicionalmente Alfa 2300, Passat TS, além dos esportivos europeus. São mais refinados, indiscutivelmente.

Os americanos adoram dizer que there is no substitute for cubic inches. Discordo. Tecnologia mais refinada substitui, sim. Estão aí os motores pendurados atrás do eixo traseiro do 911 que, depois de muitas décadas de ensaios de distribuição de massas, continuam produzindo carros irretocáveis em equilíbrio dinâmico.

E a IA é a grande revolução prometida, e já presente a olhos vistos, no automóvel do presente/futuro.

Os chineses contra a rapa

Passei minha vida assistindo ou até escrevendo alguns comunicados de imprensa que orgulhosamente narravam investimentos vultosos, de algumas centenas de milhões de dólares, no desenvolvimento de um novo automóvel. Parecia que isso era uma enorme vantagem, virtude, atributo positivo em favor do produto. Usávamos sem moderação.

O problema é que os chineses também estavam lendo as mesmas reportagens na imprensa. E, para ser simplista, uma das vantagens que eles possuem hoje frente às marcas ocidentais é que os novos projetos desenvolvidos por lá são muito mais baratos. O diretor de Comunicação pode até perder força na divulgação… mas a área de Finanças agradece, enternecida. 

BYD King em montagem na fábrica da BYD em Camaçari
BYD King [Auto+/Luiz Forelli]

Ora, quando você investe menos, o custo de amortização é igualmente inferior. Funciona assim. Faz de conta que você investiu R$ 1 bilhão pra fazer aquele novo suve. E, em seu plano de negócios, durante dez anos, você prevê vender 250 mil unidades daquele modelo. A conta é simples: cada carro vendido terá um custo de amortização de R$ 4.000.

Contabilmente, esse valor entra no caixa como lucro, mas, gerencialmente, ele é alocado como “custo de amortização”, pois serve para “reembolsar” a própria fábrica no valor que ela investiu para desenvolvê-lo.

Se o das marcas chinesas é menor, adivinhe: você pode trabalhar com um preço final para o público também mais vantajoso, certo? 

Pois. O que isso tem a ver com IA?

Tudo.

Inteligência Artificial: menos testes práticos

Ocorre que a Inteligência Artificial deixou de ser apenas uma promessa futurista para se tornar uma das engrenagens mais importantes da transformação da indústria automobilística global. Se durante décadas o setor automotivo evoluiu baseado em potência, design, segurança e eficiência mecânica, agora a revolução acontece em outra camada: a do processamento de dados, do aprendizado de máquina, da automação inteligente e dos ensaios de laboratórios.

A IA não apenas mudou a forma como os veículos são desenvolvidos, mas também redefiniu processos industriais, logística, relacionamento com consumidores e a própria experiência de dirigir.

BYD Atto 8 branco parado de frente
BYD Atto 8 [Auto+/Luiz Forelli]

E os chineses avançaram barbaramente nesse aspecto, muito mais do que as marcas do resto do mundo. A vantagem chinesa hoje não está apenas no custo da mão de obra ou nos subsídios do governo. Ela está principalmente em velocidade de desenvolvimento, integração de software, cadeia de suprimentos verticalizada e uso massivo de automação e IA.

Hoje praticamente não existe uma grande montadora que não tenha a Inteligência Artificial como prioridade estratégica, ainda que a implantação pareça estar em degraus diferentes, com os chineses lá nos andares mais altos. Em um cenário marcado por eletrificação, conectividade e pressão por sustentabilidade, a IA passou a ser vista como elemento central para garantir competitividade. Mais do que um diferencial tecnológico, ela virou um fator de sobrevivência.

Um novo capítulo

Nas fábricas, a Inteligência Artificial vem promovendo uma transformação silenciosa, porém gigantesca. Linhas de produção que antes dependiam exclusivamente de processos robotizados programados de forma estática agora operam com sistemas capazes de aprender padrões, identificar falhas e tomar decisões em tempo real. Sensores conectados monitoram milhares de variáveis simultaneamente, permitindo prever problemas antes mesmo que eles aconteçam.

O conceito de manutenção preditiva é um dos exemplos mais emblemáticos. Em vez de esperar uma máquina apresentar defeito para interromper a produção, algoritmos analisam vibração, temperatura, ruídos e comportamento operacional para antecipar falhas. Isso reduz custos, evita desperdícios e aumenta drasticamente a eficiência das plantas industriais.

A Inteligência Artificial pode otimizar os processos produtivos
Fábrica da GAC [Divulgação]

Mas talvez o maior símbolo da aplicação da Inteligência Artificial no setor automotivo esteja no desenvolvimento dos novos produtos, exatamente onde os chineses nadam de braçada. Você não precisa mais arremessar meia dúzia de protótipos contra uma barreira de concreto (crash-test) para testar o grau de segurança passiva. 

Nem colocar um chassi vibrando para ensaiar desgaste de amortecedores durante xis mil horas. Muito menos gastar horas com modeladores de clay para testar um novo design – e isso porque estou dando exemplos bem grosseiros. A Inteligência Artificial passou a influenciar diretamente nesses estágios de desenvolvimento de novos veículos.

A inteligência artificial pode acelerar o desenvolvimento de novos produtos
BYD Dolphin Plus [Divulgação]

Antes, criar um automóvel exigia anos de testes físicos, inúmeros protótipos e ciclos longos de validação. Agora, sistemas inteligentes conseguem simular milhares de cenários em poucas horas. Isso acelera projetos, reduz custos e permite criar carros mais eficientes.

As possibilidades da Inteligência Artificial

A IA permite que as fabricantes tradicionais reduzam drasticamente a complexidade organizacional que elas próprias criaram ao longo de décadas. Enquanto empresas chinesas nasceram já na era do software, grupos ocidentais carregam estruturas corporativas inchadas, fornecedores fragmentados (complica a Logística e exige multidões de colaboradores em áreas fiscais, Compras etc) e, sob o ponto de vista técnico, validações excessivamente burocráticas. 

A IA ajuda a automatizar exatamente essas camadas onerosas. Percebe que a saída de algumas fabricantes pode estar nisso? Simulações inteligentes permitem fazer muito mais com equipes menores. Isso muda completamente a escala econômica da indústria.

Se o custo de desenvolvimento for mais acessível, os preços finais serão mais competitivos; senão nos mesmos patamares dos chineses, pelo menos um pouco mais próximos. E aí restará ao meu Marketing & Comunicação valorizar a questão de tradição, legado, história. Isso os chineses não têm. Mas terão um dia. A hora der aproveitar é essa.

Não adianta só choramingar barreiras tributárias. Seja competente como seu rival, ora. “Ah, Edu, mas os chineses continuarão evoluindo em IA”. Sim, mas eles já percorreram boa parte desse caminho. Entendo que, potencialmente, a redução de custos tende a ser maior para quem inicia uma plataforma de gestão de projetos com IA versus quem já está surfando nessa onda. 

Inteligência Artificial
[Divulgação]

O futuro com a Inteligência Artificial

E eu nem vou entrar na seara da IA nos próprios produtos. Isso será papo para outra coluna. 

O fato é que a Inteligência Artificial já redefiniu os rumos da indústria automobilística mundial. O automóvel do futuro será eletrificado, conectado, inteligente e fortemente dependente de software. E nesse novo cenário, as fabricantes de veículos que dominarem IA terão vantagem competitiva decisiva.

Mais do que fabricar carros, a indústria passa agora a desenvolver ecossistemas completos de mobilidade inteligente. O motor da próxima revolução automotiva não será movido apenas a combustão, eletricidade ou hidrogênio. Ele será movido por dados, algoritmos e Inteligência Artificial.

E você, o que acha da indústria utilizar a Inteligência Artificial no desenvolvimento de novos produtos? Escreva nos comentários.

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Edu Pincigher

Eduardo Pincigher é jornalista formado pela PUC-SP e atua no setor automotivo desde 1989, sendo o autor da Coluna do Tio Edu com textos divertidos sobre o presente e passado do setor automotivo. Com passagens em diversas publicações e montadoras, hoje trabalha como assessor de imprensa e consultor de diversas empresas

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