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Maestro de Todos

Meio século depois de seus cinco títulos na F1, Juan Manuel Fangio ainda é um mito para os “hermanos”. A 430km de Buenos Aires, o Museo Fangio é uma viagem ao passado para os fãs do automobilismo.
pequena Balcarce ainda respira Juan Manuel Fangio, décadas após a morte do 'Maestro' (Cassio Cortes)

A coluna de hoje é uma das matérias de “Movido a Gasolina, coletânea das melhores reportagens da minha carreira publicadas em revistas como Road & Track, Car and Driver, Quatro Rodas e The Red Bulletin.

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Falar a um amigo que se vai ao Museo Fangio equivale a dizer que você pretende visitar a galáxia de Andrômeda nas próximas férias – a resposta, invariavelmente, é um “Museu quê?”.

Mas se no Brasil a memória de Juan Manuel Fangio, o primeiro pentacampeão mundial de Fórmula 1, não sobrevive assim tão bem fora dos círculos dos fanáticos por automobilismo, na sua Argentina natal o piloto (que morreu em 1995, aos 84 anos) ainda é um mito presente no dia-a-dia de muitos. Até na hora de abastecer o carro: a gasolina de alta octanagem da YPF, a Petrobras deles, chama-se Fangio XXI.

Em autódromos tupiniquins, a piada clássica é que Fangio era tão bom, mas tão bom, que conseguiu ser pentacampeão do mundo mesmo sendo argentino. Sacanagens à parte, depois de Fangio, o máximo que a Argentina conseguiu foi um vice, com Carlos Reutemann em 1981 – enquanto os brasileiros faturavam oito canecos com Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna, além de dois vices de Rubens Barrichello e um de Felipe Massa. Detalhe: Reutemann perdeu a decisão de 81 para o próprio Piquet.

Fangio já não é mais o maior campeão de todos os tempos da F1 desde que Michael Schumacher chegou a sete títulos (o recorde do argentino manteve-se durante 46 anos) mas ainda é o único piloto da história que:

  • Foi campeão pilotando por quatro equipes diferentes (Alfa Romeo, Ferrari, Mercedes e Maserati), feito que dificilmente será igualado, dada a importância se estar no “carro certo” na F1 moderna;
  • Ganhou quase 50% das corridas que participou (foram 24 vitórias em 51 GPs, equivalentes a 47,1%). Em poles, superou os 50% de aproveitamento: foram 29, ou 55,7%. Fez ainda 23 voltas mais rápidas, 44,2% do total. Em percentagem, Fangio lidera essas três estatísticas até hoje, e também é improvável que venha a ser superado nesses números relativos;
  • Conquistou todos seus títulos após os 40 anos de idade. Fangio só foi para a Europa após quase duas décadas de vitórias no automobilismo sul-americano, e “perdeu” para a 2ª Guerra Mundial o que teriam sido seus melhores anos. Entre 1939 e 1945, viveu do comércio de caminhões pelas regiões rurais da Argentina.

E “El Chueco” (“O Manco”, outro de seus apelidos) fez isso tudo sem nunca perder a humildade: “É preciso sempre tentar ser o melhor sem nunca pensar que se é o melhor” é uma de suas frases clássicas.

O que até vários brazucas que amam corridas não sabem é que a terra natal de Fangio, a pequena Balcarce, a 430 km de Buenos Aires, abriga um espetacular museu narrando os feitos do “Maestro”, como lhe chamam os argentinos. Inaugurado em 1986 e mantido por várias das marcas que Fangio ajudou a tornar vencedoras nas pistas – principalmente a Mercedes-Benz, cuja “Flecha de Prata” o argentino consagrou com dois títulos mundiais – o museu não encontra par na América Latina em termos de importância do acervo automobilístico.

Além do Museo Fangio, a pequena Balcarce, com 40 mil habitantes, abriga também um autódromo que sedia provas da Turismo Carretera até hoje. Alugando um carro em Buenos Aires, basta pegar a auto-estrada para La Plata e, dela, a “Autopista” 2 rumo a Mar del Plata, que avisa logo em sua entrada: “Maneje con cuidado – Fangio sólo tuve uno”.

Na Autopista 2, são 360 km em excelentes condições (e praticamente em linha reta através do pampa argentino – estoque energéticos no carro para não dormir ao volante) até a discreta saída para a “ruta” 55, uma estradinha de asfalto estreita mas bem conservada que leva a Balcarce após 70 km.

Enfileirados no moderno interior do prédio, que contradiz a fachada em estilo clássico (a construção original é de 1906) estão pérolas como a McLaren que Mika Hakkinen pilotou no mundial de 1995, um Penske vencedor das 500 Milhas de Indianápolis em 1994 e a belíssima Sauber-Mercedes prateada com a qual Michael Schumacher estourou no cenário mundial. Além, é claro, dos cinco carros com os quais Fangio conquistou seus títulos na F1: a Alfa Romeo Alfetta de 1951, as Mercedes W196 (1954) e “Flecha de Prata” (de 1955, considerada por muitos o mais belo F1 de todos os tempos), a Ferrari D50 (1956) e a Maserati 250F de 1957.

Outras preciosidades incluem a bicicleta que Fangio deu ao seu pai após conquistar o primeiro título mundial (até então, o humilde mecânico de Balcarce caminhava para o trabalho todos os dias) e as carreteras, algumas ainda enlameadas, com as quais o piloto obteve suas primeiras vitórias no automobilismo sul-americano nos anos 40. Reserve no mínimo quatro horas para curtir o museu em todos os seus detalhes.

Para os brasileiros, um carro é ainda mais especial que os demais: um McLaren-Honda 1988, idêntico ao que Ayrton Senna conduziu no ano de seu primeiro título mundial. Ao lado do carro, uma foto em tamanho real de Senna e Fangio abraçados ilustra a admiração que nosso tricampeão nunca escondeu: várias vezes, Senna afirmou que Fangio era seu maior modelo nas pistas.

A verdade é que não me recordo de elogios públicos rasgados de Ayrton a nenhum outro piloto além do “Maestro”. Vendo os dois mitos juntos, a idéia é inevitável: não está na hora de termos um “Museu Senna”, homenageando o maior piloto da nossa história?

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Cassio Cortes

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