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Viajar de carro elétrico ainda é uma ideia de jerico no Brasil

A culpa não é das montadoras ou do carro elétrico, mas viajar hoje com um modelo a baterias não é uma boa ideia
BYD Tan [Auto+ / João Brigato]
BYD Tan [Auto+ / João Brigato]

Há muito tempo se discute sobre a viabilidade de ter um carro elétrico como único na casa. Aqui no Auto+ já avaliamos diversos carros elétricos, assim como testamos a autonomia de quatro modelos até o limite. Mas e na vida real: como é viajar com um carro elétrico? Já adianto: é possível, mas é uma ideia péssima. Se prepare para o perrengue.

Para colocar essa situação a prova, escalei um dos carros elétricos com maior autonomia à venda no Brasil e mais espaço interno para lidar com uma viagem para as montanhas. O BYD Tan foi escolhido para um final de semana em Campos do Jordão com cinco pessoas saindo de Campinas, interior de São Paulo.

Um trajeto de 323 quilômetros é fichinha a autonomia de 437 km do BYD Tan. Mas o mundo real não é tão perfeito assim. Afinal, o GPS buga e te faz errar o caminho, um dos passageiros mora longe e precisa ser buscado, a carga extra de pessoas, ar-condicionado ligado a todo tempo e os 940 litros do porta-malas preenchidos com malas atrapalham na autonomia.

BYD Tan [Auto+ / João Brigato]
BYD Tan [Auto+ / João Brigato]
O BYD Tan chegou com bateria de sobra em Campos do Jordão e ainda por cima gastou menos do que a quilometragem projetada. Confesso que dirigi de maneira tranquila, mas não dá mais econômica possível. Afinal, 517 cv dispostos por seus dois motores elétricos no modo Sport são divertidos para assustar quem está lá dentro (e para causar discórdia sobre a possibilidade de quebrar uma dúzia de ovos no porta-malas).

O ponto chave

Mas se um carro como o BYD Tan consegue te levar a uma viagem com autonomia sobrando e com diversão ainda por cima, por que viajar com um carro elétrico ainda é uma ideia de jerico? Simples: estrutura. Se você sair de casa com um carro a combustão na reserva, não precisará de muitos quilômetros para encontrar um posto de combustíveis.

BYD Tan [Auto+ / João Brigato]
BYD Tan [Auto+ / João Brigato]
Agora experimente fazer o mesmo com um carro elétrico. Vou compartilhar com vocês uma experiência que tenho em Campinas sempre que uso um carro elétrico ou híbrido. Uma pausa antes de voltar a falar da experiência de viajar com um elétrico. Aqui existem pouquíssimos carregadores elétricos, metade dos que temos estão quebrados.

O único rápido existente na cidade é disputado a tapa, especialmente por motoristas de Uber que alugam um Nissan Leaf e não têm onde carregar. Carregadores mais lentos existem em shoppings, mas pagos, enquanto os dos supermercados feitos em parceira com a Volvo estão todos quebrados. Até os da BYD que ficam em locais públicos também estão deteriorados.

BYD Tan [Auto+ / João Brigato]
BYD Tan [Auto+ / João Brigato]
Não tenho onde carregar um carro elétrico quando uso, o que me obrigou a deixar o BYD Tan parado até o dia da viagem. Até existem tomadas 220V no prédio em que moro, mas ao carregar o Peugeot e-208 por uma noite fui amanhecido com a ira de um vizinho raivoso que achou estar em direito de tirar o carro da tomada e me dar lição de moral.

Perrengues de uma viagem

Se com um carro a combustão existe um posto de combustível a cada esquina, com os elétricos não é igual. Campinas já mostrou que é uma cidade pobre nesses recursos e Campos do Jordão é ainda pior: existem só dois carregadores em toda a cidade. Um fica em um supermercado e é lento, outro dentro de um hotel. A solução seria carregar em casa.

BYD Tan [Auto+ / João Brigato]
BYD Tan [Auto+ / João Brigato]
Mas os caminhos eram tortuosos. O roteiro previa uma parada rápida em São Paulo em um eletroposto rápido durante pouco mais de meia hora para jantar e recuperar 100% da autonomia. Seria possível se o eletroposto não estivesse em uso por um Nissan Leaf. Em um raio de mais de 15 km não havia outro ponto de carregamento rápido o suficiente.

Contudo, em São José dos Campos, próximo a Campos do Jordão, havia mais um carregador, que poderia ser o sopro de esperança. Pena que, novamente, estava ocupado. Dessa vez por um Fiat 500. Tive de largar meu jantar na mesa e sair correndo para colocar o BYD Tan para carregar ao ver o subcompacto verde saindo do local de carregamento e não ter meu lugar furado por outro Nissan Leaf.

[Auto+ / João Brigato]
Por sorte, para o segundo momento da viagem, o BYD Tan já tem um carregador doméstico e a casa alugada contava com tomada de 220V. Ela foi a salvadora da pátria, ainda que não tivesse sido projetada para isso. Foram necessárias 15 horas na tomada para carregar de 48% de autonomia para 70% – uma porcentagem de segurança para voltar tranquilo.

A volta exigiu novamente uma parada no mesmo eletroposto que salvou a autonomia na ida. Dessa vez ele estava vazio, por sorte. E coloca sorte nisso: os pontos de carregamento quase sempre estão com algum carro plugado e é algo que demora a ser feito. Muita gente larga o seu veículo carregando por horas. E sempre há apenas uma tomada.

BYD Tan [Auto+ / João Brigato]
BYD Tan [Auto+ / João Brigato]

Outra realidade

Viajar de carro elétrico nos EUA ou na Europa é outra realidade, especialmente se você tiver um Tesla. Isso porque a marca norte-americana conta com pontos de carregamentos espalhados por muitos locais e por quilômetros a fio. Além disso, o eletroposto tem estações para 5 ou mais carros, não um ou (quando muito) dois no Brasil.

Se você planejar uma viagem passando por um corredor elétrico no Brasil, pode até conseguir chegar ao final, mas sempre haverá um carro carregando. Pode contar com isso ou com muita sorte. Os carros elétricos estão se multiplicando no Brasil, mas a estrutura não. Um posto de gasolina na rodovia conta com, muitas vezes, 10 bombas. Um eletroposto na rodovia? Uma tomada, duas no máximo – mas uma delas será de carregamento lento.

BYD Tan [Auto+ / João Brigato]
BYD Tan [Auto+ / João Brigato]
E aí está o problema de viajar com carro elétrico: o problema hoje deixou de ser o automóvel em si, mas sim a estrutura. O Brasil não investe na melhoria e incentivos para isso, nem toda casa pode ter wallbox e com o aumento da frota de modelos elétricos, todo eletroposto sempre estará lotado.

Pense bem, faça as contas e tenha planos A, B, C e Z para carregar um carro elétrico em uma viagem. É possível sim, mas você vai passar por vários perrengues e vai demorar mais do que qualquer um gostaria. Felizmente, a culpa não é do carro.

BYD Tan [Auto+ / João Brigato]
BYD Tan [Auto+ / João Brigato]

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Sobre o autor

João Brigato

6 Comentários

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  • Legal a reportagem. Em fevereiro pensei seriamente em pegar um Volvo elétrico, mas já tinha notado essa limitação da infraestrutura pra viagens. Acabei pegando uma Subaru Forester híbrida, que provavelmente será meu carro pelos próximos 10 anos (como foi minha Forester anterior, rs). Quem sabe o próximo possa ser elétrico.

    • Legal a reportagem informando as dificuldades de se ter carro elétrico no Brasil. Mas só deve comprar/usar quem tem estrutura, casa com tomada, sistema fotovoltaico e principais locais que anda com recarga disponível. Roubar energia do condomínio e ainda ficar reclamando não vale. Se não pode andar com carro elétrico, ande com carro a combustão.

  • Foi e voltou… não ficou na mão e ainda economizou no mínimo 500,00 de combustível com uma boa dose de emoção. Só planejar certinho que dá certo. Só fazer a viagem num raio de 3/4 da autonomia máxima com um local de pernoite com tomada para carregar overnight. Pra mim valeu.

  • Caro Joao, parabéns pela matéria, precisamos de mais matérias assim até para tomar conhecimento de novas tecnologias e serviços.
    Mas tem um ponto que vou discordar, os recarregadores da Volvo não estão todos quebrados e não são em todos os Shoppings que existem cobrança.
    Possuo um veículo elétrico e consigo me adaptar perfeitamente sem perrengues, lógico que precisa de planejamento prévio.
    Mas todos os recarregadores da Volvo que usei estavam excelentes, e até hoje não fui cobrado em nenhum Shopping que frequentei.
    Seria bom depois uma matéria demonstrando os pontos que possuímos de recarga e suas situações e infraestrutura.