Entrar no universo dos SUVs é praticamente um desejo para quem troca de carro no Brasil. Não por acaso, mais da metade dos veículos vendidos hoje pertence a essa categoria. A posição de dirigir mais alta, a aparência robusta e a promessa de versatilidade explicam essa preferência. Só que, para colocar um SUV na garagem, o ponto de partida é alto. Hoje, o modelo mais barato é o Fiat Pulse Drive, de R$ 102.990.
Mesmo sendo a porta de entrada da linha, o Pulse tenta provar que preço menor não significa experiência básica demais. É verdade que nessa configuração ele ainda usa o câmbio manual, algo que muitos consumidores já deixaram de lado, mas o conjunto não decepciona quando o assunto é dirigibilidade, consumo e lista de equipamentos.
Esse cenário ficou ainda mais interessante com a chegada do Volkswagen Tera na versão MPI que parte de R$ 105.690 e se tornou o principal concorrente do modelo da Fiat. De um lado, há quem prefira o Volkswagen por ser mais seguro ou pela tradição da marca. Do outro, o Pulse aposta em um motor mais potente e em um preço inicial menor. Mas o SUV mais barato do Brasil ainda é uma boa escolha? Sim.
Único 1.3 Firefly manual com engates precisos



Falar sobre dirigir um carro manual hoje em dia é algo bem curioso, isso porque simplesmente virou raridade. Depois de tanto tempo cercado por carros automáticos, voltar a trocar marchas, controlar a embreagem e sentir o carro responder diretamente aos comandos é algo muito gostoso para nós que amamos dirigir, mas ao mesmo tempo cansativo no anda-e-para do trânsito infernal.
No caso do Fiat Pulse Drive, temos o conhecido motor 1.3 Firefly aspirado, quatro cilindros flex, que entrega 98/107 cv a 6.250 rpm e 13,2/13,7 kgfm a 4.000 rpm, sempre ligado a um câmbio manual de cinco marchas. É o mesmo propulsor usado no Argo e Cronos, mas o único junto com a Strada Volcano com câmbio manual, enquanto lá são CVT — e é justamente isso que muda muito a sensação ao dirigir.

O carro parece estar sempre muito mais vivo, e isso acontece porque o câmbio manual aproveita melhor a entrega de potência do motor. Só que os engates não são curtos, precisos e bem definidos, muito pelo contrário. Mas as relações de marcha são mais curtas para compensar o peso maior do SUV. Na prática, isso deixa o Pulse mais esperto no trânsito da cidade.
Não espere puxada forte típica de motores turbo, até porque a potência aparece mais em rotações altas, mas dentro da proposta o conjunto funciona bem. Inclusive acaba levando vantagem sobre o Volkswagen Tera 1.0 MPI, que entrega 77/84 cv e 9,4/10,3 kgfm, embora o câmbio do Volkswagen seja muito melhor.

Outro ponto interessante está no próprio funcionamento do motor aspirado. Diferente dos motores turbo, que utilizam uma turbina acionada pelos gases do escape para aumentar a pressão de ar dentro do motor, os aspirados dependem apenas da pressão atmosférica para admitir ar na câmara de combustão.
Ou seja, a resposta ao acelerador é muito mais imediata, sem o chamado turbo lag, aquele pequeno atraso entre pisar no acelerador e o motor entregar força. No Pulse, um toque no acelerador já faz o carro reagir e, quando o motor sobe de giro, ele está ativo e disposto.
Faz ótimo trabalho no ciclo urbano



No uso urbano, o conjunto se mostra bastante agradável, pois o SUV sai dos enroscos do trânsito com facilidade, as retomadas são suficientes e o carro responde com rapidez quando se pisa no acelerador. A direção com assistência elétrica também tem peso bem calibrado, leve nas manobras e mais firme em velocidades mais altas.
O Fiat Pulse também leva vantagem quando encontra ruas esburacadas ou valetas maiores, devido ao seu ótimo ângulo de ataque de 20,4 graus que permite o modelo passar por obstáculos sem raspar a dianteira, algo que carros mais baixos, como o próprio Argo, não conseguem fazer sem ser desconfortável.

Parte desse comportamento também vem dos pneus 195/60 R16, que têm perfil mais alto. Ou seja, maior quantidade de borracha entre a roda e o solo, o que ajuda a absorver melhor as irregularidades e impactos do que perfil mais baixo.
Suspensão do jeito que o brasileiro gosta
A suspensão também coopera bastante para um bom comportamento nas irregularidades e buracos. Mesmo usando McPherson na dianteira e eixo de torção na traseira, uma solução simples, a calibração feita pela Fiat segue aquela característica que muitos brasileiros gostam, um acerto um pouco mais firme, que transmite sensação de controle, mas sem ser duro a ponto de incomodar.

O resultado é um carro que absorve buracos e imperfeições com certa suavidade, sem deixar a cabine sofrer com impactos tão secos. Essa mesma calibração ajuda o Pulse nas curvas, onde mudanças de direção mais rápidas ele mostra sua boa estabilidade, embora em curvas mais fechadas ele dê uma leve tendência de saída de dianteira.
Nada preocupante, já que os controles eletrônicos entram em ação na hora e faz o SUV fabricado em Betim (MG) manter o controle na trajetória. Claro que o volante não tem a mesma comunicação direta do que o Pulse Abarth, mas dentro da proposta do modelo ele cumpre bem o papel.
Falta mais uma marcha na estrada

Na estrada, o Fiat Pulse continua continua previsível, com o motor respondendo bem dentro do que se espera de um 1.3 aspirado. Não é um carro forte, mas também não passa sensação de falta de fôlego quando ele está em rotações mais altas.
Acima dos 4.500 rpm, ele até consegue fazer ultrapassagens com certa segurança, desde que o motorista se programe um pouco mais, principalmente com o carro carregado. Mesmo assim, o Pulse faz de 0 a 100 km/h em 11,7 segundos, um número honesto para o conjunto.

Em velocidades mais altas, o Fiat Pulse segue firme na trajetória quase sem flutuação de carroceria, mesmo com altura livre de 190 mm. O único ponto que realmente faz falta aparece nas viagens mais longas. a quinta marcha é relativamente curta, o que faz o motor girar quase em 3.500 rpm a 120 km/h. Uma sexta marcha ajudaria bastante aqui, reduzindo o ruído e até o consumo.
Outro ponto que poderia ser melhor são os freios. Em piso seco ele trabalha de forma adequada com respostas previsíveis e boa sensibilidade. Porém, em piso molhado ele tende a dar umas derrapadas em frenagens bruscas, algo que, em uma situação de emergência, pode trazer insegurança.
Consumo abaixo do esperado

No consumo, o resultado foi razoável, embora eu esperasse um pouco mais na estrada. Em nossos testes, sempre com gasolina e ar-condicionado ligado, o tanque de 45 litros registrou 9,4 km/l na cidade e 14 km/l na estrada. Não são números ruins, mas ficam abaixo do que divulga o Inmetro, que indica 12,6 km/l na cidade e 14,5 km/l na estrada com gasolina. Já no etanol, os dados oficiais são 9 km/l na cidade e 10,3 km/l na estrada.
Não é um Fastback na hora de sentar
Em termos ergonômicos, o Fiat Pulse fica atrás do Fastback, que traz um console central mais elevado e bancos mais confortáveis. Ainda assim, não dá para dizer que o Pulse seja ruim nesse aspecto. Com meus 1,88 m, consegui me encaixar bem para um SUV desse porte, sobrando até espaço no recuo.



Como a proposta da Fiat é justamente dar ao Pulse uma sensação mais próxima de um SUV, a posição de condução é mais alta, o que permite uma boa visibilidade. O volante oferece regulagem apenas de altura, sem ajuste de profundidade, o que pode fazer falta para alguns, mas curiosamente me adaptei bem.
Com seus 4,09 metros de comprimento e 2,53 m de entre-eixos, atrás também consegui me posicionar de forma razoável mesmo com o banco do motorista quase todo recuado, sobrando cerca de dois dedos entre meu joelho e o banco da frente. Ou seja, um dos raros casos em que o entre-eixos menor para o segmento não compromete tanto o conforto na prática.

O problema aparece mais na altura da cabeça, que acaba encostando no teto para quem é mais alto. Também falta uma saída de ar, apenas encontrando a entrada USB. Seu porta-malas também é longe de ser grande, tendo apenas 320 litros de capacidade, contra 350 do Tera e 358 do Renault Kardian.
Equipamentos suficiente para o dia a dia
Em termos de equipamentos, o Pulse não fica em um ponto ok, já que entrega o essencial para viver bem no dia a dia. O quadro de instrumentos fica no centro do painel e mostra o básico de forma clara e fácil de usar.



Já a central multimídia Uconnect de 8,4 polegadas é um pouco menor que a de outros modelos da marca, mas tem ótima resolução e funcionamento rápido sem apresentar travamentos ou bugs, e ainda oferece conexão sem fio com Apple CarPlay e Android Auto. O ar-condicionado é digital e gela rápido a cabine, embora no começo seja fácil se perder na mistureba de botões.
Agora, não espere muito refinamento no acabamento, pois o interior é praticamente todo feito em plástico rígido e não transmite grande sensação de qualidade, sendo possível ver rebarbas e uma certa fragilidade. Também faltam superfícies acolchoadas nas portas para apoiar os braços, algo que faz diferença em viagens longas.



O restante segue o padrão básico da categoria, com bancos em tecido, chave de acionamento manual, ausência de apoio de braço central e alguns porta-objetos úteis. Os faróis têm acendimento manual, embora utilizem iluminação em LED de série. Há regulagem elétrica dos retrovisores, vidros e travas elétricas, além da função one touch para todas as janelas.
O modelo que testamos ainda utilizava o pacote opcional Pack Plus de R$ 2.990, que adiciona rodas de liga leve de 16 polegadas, sensor de estacionamento traseiro e câmera de ré.
Segurança deixa a desejar frente ao Tera

O Pulse Drive também já oferece piloto automático convencional com limitador de velocidade, mas tem ausências importantes contra seu rival: ele não traz frenagem automática de emergência com alerta de colisão, algo que o Volkswagen Tera já oferece de série. Falando em segurança, o modelo da Fiat traz apenas quatro airbags — frontais e laterais — enquanto o rival da Volkswagen oferece seis, incluindo os de cortina.
Isso pesa ainda mais quando lembramos que o Tera conquistou cinco estrelas nos testes do Latin NCAP, enquanto o Pulse recebeu duas estrelas em 2023, com proteção considerada limitada para cabeça e tórax e justamente a ausência de airbags de cortina.
Veredicto

O Fiat Pulse continua defendendo o título de SUV mais barato do Brasil e, dentro dessa proposta, entrega um pacote honesto para quem quer entrar nesse segmento. O conjunto é o arroz com feijão bem feito e acertado, além de oferecer mais despenho que seu principal rival, algo que pode pesar para quem faz questão de um carro mais esperto nas retomadas.
Por outro lado, quando o assunto é segurança, o Pulse realmente fica atrás do novo Volkswagen Tera. O rival chega mais completo nesse aspecto, além de apresentar um melhor consumo. Porém, ainda assim, o Pulse 1.3 Drive é um carro interessante dentro que se propõe e honesto no que oferece e que faz total sentido para quem busca um modelo com bom desempenho e fácil de usar no dia a dia.
E você, colocaria um Fiat Pulse 1.3 Drive na garagem ou prefere o Volkswagen Tera? Deixe seu comentário!




