O Brasil já teve a época em que abastecer exclusivamente com álcool era comum. O cenário ganhou força no fim dos anos 1970, com o Proálcool e o Fiat 147 a álcool. A Volkswagen também entrou na festa da cana com Brasília, Gol e Voyage nos anos 1980. Mais de quatro décadas depois, os carros movidos apenas a etanol voltaram, e a Saveiro marca o retorno da Volkswagen a essa proposta nesta década.
O programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), criado no fim de 2023, passou a incentivar veículos mais eficientes e com menor impacto ambiental. Dentro dessa estratégia, o chamado IPI Verde considera fatores como emissões, eficiência energética, segurança, potência e reciclabilidade, oferecendo benefícios tributários aos modelos que atendem aos critérios estabelecidos.
Além disso, o Programa Carro Sustentável abriu caminho para a isenção do IPI em determinados veículos nacionais. O etanol tem importância nessa conta por ser um combustível renovável, produzido principalmente a partir da cana-de-açúcar, com emissões menores de carbono em seu ciclo de produção e utilização. Assim, além da questão ambiental, as montadoras reduzem impostos e oferecer versões mais baratas.

A Chevrolet foi a primeira a começar esse caminho com o Onix Eco. Agora chegou a vez da Volkswagen Saveiro Robust Etanol 2027, que mantém o conhecido 1.6 aspirado, mas deixa de aceitar gasolina. A picape parte de R$ 111.490, tornando-se a opção mais acessível da linha e a primeira de sua categoria a participar do Programa Carro Sustentável.
Mais barata, mas continua a mesma Saveiro
A picape está no mercado desde 1982 e utiliza uma arquitetura lançada em 2009, derivada da mesma família de plataformas do Gol e do Voyage daquela época. Desde então, recebeu atualizações visuais e de equipamentos, mas nunca passou por uma renovação completa. E isso já pesa contra a Fiat Strada que ganhou nova geração em 2020. Por isso, a sucessora Tukan vem aí para aguentar mais peso, muito mais nova e para conviver com a Saveiro 100% a álcool

Mas a Saveiro apresenta uma característica que, para mim, sempre foi uma de suas maiores virtudes. Apesar de ser um projeto antigo e bastante simples, ela continua sendo uma picape muito boa de dirigir. Mais até do que a Strada em diversos aspectos.
O velho 1.6 ainda tem disposição
Debaixo do capô está o conhecido motor EA211 1.6 MSI de quatro cilindros, 16 válvulas, duplo comando e injeção multiponto. Na configuração dedicada ao etanol, entrega 116 cv a 5.750 rpm e 16,1 kgfm a 4.000 rpm, sempre associado ao câmbio manual de cinco marchas.

A Volkswagen revisou a calibração para trabalhar exclusivamente com o combustível vegetal, incluindo mudanças na taxa de compressão e no gerenciamento do motor, mas manteve os números de potência e torque já conhecidos da versão flex quando abastecida com álcool.
Não é um conjunto moderno quando comparado aos motores turbo mais recentes, principalmente porque entrega o torque máximo em rotações relativamente altas. Um 1.0 turbo atual consegue oferecer mais força em baixa e facilita bastante as retomadas, especialmente com o carro carregado. Só que o 1.6 da Saveiro ainda tem uma característica agradável: responde de maneira bastante direta ao acelerador.

Como não existe turbocompressor, também não aparece aquele pequeno atraso entre pisar no acelerador e esperar a pressão de sobrealimentação subir. A resposta inicial é natural e o motor ganha giro progressivamente, embora precise trabalhar numa faixa mais alta de rotações para oferecer seu melhor desempenho.
A Volkswagen informa aceleração de 0 a 100 km/h em 9,9 segundos na configuração com etanol, um resultado bastante razoável para uma picape compacta aspirada e sem carga. No dia a dia, a Saveiro acompanha o trânsito com facilidade e apresenta disposição suficiente para as situações mais comuns.

Já nas ultrapassagens e retomadas em rodovias de pista simples, exige um pouco mais de planejamento, principalmente quando precisamos recuperar velocidade em marcha alta. Nessas horas, reduzir uma ou duas marchas faz parte da condução. E, curiosamente, isso acaba sendo uma das coisas que fazem também a Saveiro tão agradável ao volante.
O câmbio manual ainda é uma das melhores coisas da Saveiro
O câmbio manual de cinco marchas é um dos pontos que mais me agradam nos Volkswagen dessa época. Os engates são curtos, diretos e precisos, sem aquela folga excessiva na alavanca que atrapalha a condução de alguns concorrentes. Mesmo sendo um conjunto antigo, a transmissão trabalha muito bem e permite explorar o 1.6 esticando bem as marchas.

A relação entre motor e câmbio funciona melhor do que os números isolados sugerem. O EA211 não tem a força em baixa de um turbo, mas responde bem quando ganha rotação, enquanto as trocas precisas ajudam a aproveitar essa faixa de funcionamento. A direção hidráulica também tem seus pontos.
É um sistema mais pesado do que as atuais direções elétricas, sobretudo nas manobras, mas apresenta boa progressividade e praticamente nenhuma folga na região central. O volante responde com precisão, transmite bem o contato dos pneus com o asfalto e não tem aquela sensação anestesiada que encontramos em alguns modelos atuais.

Existe uma comunicação muito boa entre direção, suspensão e carroceria. Mesmo sendo uma picape simples, a Saveiro consegue transmitir confiança nas curvas e responde com bastante naturalidade às mudanças de trajetória. O conjunto é previsível, não apresenta reações exageradas e permite manter um ritmo agradável na estrada.
Nesse aspecto, considero a Saveiro mais acertada do que a Fiat Strada. O volante é mais comunicativo, a transmissão manual tem engates melhores e a suspensão consegue oferecer um comportamento mais próximo de um carro de passeio, embora seja mais durinha.
A suspensão agrada, mas a Strada carrega mais

A Saveiro utiliza suspensão traseira com eixo de torção e molas helicoidais, uma configuração vista nos carros de passeio como o Tera, T-Cross, Nivus, entre outros. Neste caso, ele favorece bastante o conforto e o comportamento dinâmico. Aqui, em contrapartida, e como esperado, ela tem uma calibração mais firme justamente para aguentar o tranco.
Quando a caçamba está vazia, o conjunto até que absorve bem as irregularidades e mantém a traseira relativamente controlada, sem aquelas reações mais secas que aparecem em picapes preparadas para transportar cargas maiores. Já a Fiat Strada tem outra escola.

Sua suspensão traseira usa eixo rígido com molas parabólicas, uma arquitetura que privilegia a resistência ao trabalho pesado. Por isso, a rival costuma apresentar uma traseira mais firme quando está descarregada, embora tenha vantagem na hora de levar peso. E os números mostram essa diferença.
A Saveiro Robust cabine simples transporta até 664 kg e oferece uma caçamba de 924 litros. Já a Strada Endurance Cabine Plus suporta 720 kg e tem capacidade volumétrica de 1.354 litros, uma diferença bem alta para quem utiliza a picape diariamente no transporte de mercadorias, ferramentas e materiais.

Portanto, a vantagem dinâmica da Volkswagen não significa necessariamente que ela seja a melhor escolha para o trabalho. A Saveiro agrada mais pela maneira como dirige, ainda mais em deslocamentos longos e com pouca carga. A Strada, por sua vez, apresenta uma capacidade de transporte muito mais alta, além de um projeto mais recente e uma gama maior de versões.
Também existe diferença no desempenho. A Strada Endurance utiliza o motor 1.3 Firefly aspirado e precisa de mais tempo para ganhar velocidade — 11,6 segundos — enquanto os 116 cv da Saveiro proporcionam uma aceleração mais vigorosa. É um ponto mais favorável à Volkswagen para quem roda bastante em estrada, por exemplo.
Por dentro, a idade aparece sem disfarces

Se a dirigibilidade continua sendo uma qualidade, o interior mostra o quanto a Saveiro envelheceu. A Robust mantém uma cabine extremamente simples, com acabamento praticamente todo em plástico rígido, painel de desenho antigo como do Gol e Voyage e quase nenhum recursos de conveniência.
O computador de bordo é pequeno, o volante não tem comandos multifuncionais e a central ou um rádio simplesmente não faz parte do equipamento de série. Algo que não seja necessariamente um problema já que sua proposta não é ligada nada em tecnologia, e até sua rival sabe disso já que não traz quase nada também.

A unidade avaliada também não tinha tapetes, enquanto as rodas de aço de 15 polegadas perderam as calotas na linha 2027. Por fora, os para-choques pretos completam aquele visual básico de uma picape feita para trabalhar. Os bancos, pelo menos, surpreendem positivamente dentro dessa proposta.
O acolchoamento é relativamente macio e o assento oferece conforto suficiente para o uso diário. A posição de dirigir também é boa, principalmente pela facilidade de encontrar uma relação adequada entre banco, volante e pedais. Ainda assim, não temos regulagem do volante.

Já o isolamento acústico está longe de ser uma qualidade. O ruído do motor aparece bastante quando precisamos subir o giro e os sons de rodagem também entram com facilidade na cabine. A Saveiro oferece ar-condicionado, direção hidráulica, vidros e travas elétricas, além de controles de estabilidade e tração, assistente de partida em rampa e airbags frontais. É o básico para uma picape dessa faixa de preço.
O etanol mudou o consumo, não a dirigibilidade
A principal novidade da Saveiro Robust Etanol aparece mesmo no abastecimento. A calibração exclusiva para o combustível vegetal não mudou a maneira como a picape dirige. Com isso, não senti uma diferença no desempenho, o que faz sentido diante dos números de potência e torque preservados.

A Volkswagen, porém, conseguiu melhorar a eficiência energética. Segundo os dados de homologação do Inmetro, a nova configuração registra 8,1 km/l na cidade e 8,9 km/l na estrada, além de uma média combinada de 8,5 km/l. É um avanço em relação à configuração flex usando etanol, que faz 7,7 km/l e 8,8 km/l, respectivamente. Ou seja, uma melhora principalmente na cidade.
Essa melhoria também ajudou a Saveiro a entrar no Programa Carro Sustentável. A picape apresenta emissões de aproximadamente 50 gramas de CO2 equivalente por quilômetro no ciclo do poço à roda, abaixo do limite de 83 gramas estabelecido pelo governo. Com isso, conseguiu aproveitar a redução tributária e chegar ao mercado por um preço menor.

Ainda existe, naturalmente, a questão econômica do combustível. O etanol tem menor conteúdo energético por litro do que a gasolina, então ele precisa de abastecimentos mais frequentes. A vantagem depende do preço praticado nos postos de cada região, algo bem importante para empresas e profissionais que percorrem muitos quilômetros todos os meses.
Veredicto
A Volkswagen Saveiro Robust Etanol continua sendo uma picape antiga, simples e com limitações claras, além da baixa capacidade de carga diante da Fiat Strada. Por outro lado, é difícil ignorar como ela ainda consegue ser gostosa de dirigir e até melhor que sua concorrente. Mesmo depois de tantos anos, o conjunto dinâmico continua sendo uma de suas maiores qualidades.

A novidade do etanol não muda essa personalidade, mas ajuda a tornar a Saveiro mais acessível para quem já utiliza o combustível na rotina, embora ainda seja muito dinheiro por uma picape tão básica, embora a Strada não vá muito longe disso, porém aguenta bem mais carga.
E você, levaria uma Saveiro ou Strada? Deixe seu comentário!


