O sonho de uma fabricante 100% brasileira sempre pairou sobre o nosso céu. Entre as mais emblemáticas, tivemos Gurgel e Troller. No entanto, nos últimos anos, parecia que finalmente teríamos uma marca moderna e nacional com a Lecar. Porém, o que se desenhava como promessa acabou se transformando em delírio.
Em dezembro de 2025, o InvestNews publicou reportagem apontando que a Lecar captava dinheiro de consumidores por meio de “compra programada”, sem autorização do Ministério da Fazenda. Além disso, em abril, o jornal Metrópoles revelou que a empresa passou a ser investigada por possível esquema de pirâmide. E, olhando em retrospecto, os indícios estavam ali o tempo todo.
Modelo de negócio sob suspeita
A Nota Informativa SEI nº 671/2026/MF, emitida pelo Ministério da Fazenda, afirma que a Secretaria de Prêmios e Apostas nunca autorizou a Lecar a captar dinheiro antecipado de consumidores. Ou seja, esse tipo de operação simplesmente não poderia ocorrer de forma legal no Brasil.

Isso acontece porque, para viabilizar esse tipo de captação, é necessário cumprir etapas como ter um produto existente ou, ao menos, produção em estágio avançado. No caso da Lecar, nem fábrica existe. Além disso, seus carros não passam de mockups, ou seja, protótipos estáticos.
O modelo de venda adotado era o de compra programada, com planos de 48, 60 ou 72 meses sem juros, prometendo a entrega do carro na metade do pagamento. Tanto a picape Campo quanto o 459 eram anunciados por R$ 159.300, com direito ao comprador de revender cotas para terceiros.
![Lecar 459 Híbrido [divulgação]](https://www.automaistv.com.br/wp-content/uploads/2024/08/lecar_459_2-1320x792.webp)
Justamente esse sistema — em que o cliente também atuava como vendedor — acendeu o alerta do MPF para um possível esquema de pirâmide. Além disso, havia cobrança de taxa para atuar como revendedor, o que, na prática, significava pagar para trabalhar.
Outro ponto relevante é que os materiais de divulgação exploravam gatilhos de urgência e escassez. Ao mesmo tempo, a própria empresa admitia depender da entrada de novos compradores para cumprir compromissos anteriores — característica clássica desse tipo de operação.

O passado já dava sinais
Enquanto a investigação segue em andamento, sinais anteriores já indicavam que a Lecar dificilmente se sustentaria. Desde o início, a empresa fez promessas ambiciosas com pouca entrega concreta. E esse tipo de comportamento costuma acender o alerta da imprensa.
Não por acaso, ataques da Lecar à imprensa começaram a surgir, inclusive envolvendo nomes conhecidos do jornalismo automotivo, como Boris Feldman, que acabou citado em embates públicos com a marca.

Promessas exageradas, aliás, frequentemente terminam em frustração. Foi o que aconteceu com outras marcas recentes no Brasil, como aconteceu com a Neta quando chegou ao Brasil e logo faliu.
Vergonha no Salão do Automóvel
Esse cenário ficou ainda mais evidente durante a coletiva da Lecar no Salão do Automóvel de São Paulo. Entre todas as apresentações do evento, a da marca foi a mais desorganizada.

A picape Campo, por exemplo, entrou no palco sendo empurrada por suportes nos pneus. Considerando que se tratava de um mockup, isso até seria compreensível. No entanto, naquele estágio, o mínimo esperado era um protótipo funcional.
Além disso, Flávio Figueiredo de Assis, fundador da empresa, foi o único executivo que não ensaiou a apresentação previamente. Como resultado, o discurso teve momentos constrangedores, incluindo pausas longas, erros de português e até pedidos por música para tentar animar o ambiente.

No fim das contas, muitas promessas foram feitas, números foram apresentados, mas nada de concreto apareceu além de maquetes e intenções. O tom amador destoou completamente das demais marcas presentes.
Assim, pelo andar da carruagem, o sonho de uma nova fabricante nacional consistente parece distante novamente. Afinal, se não é para fazer direito, talvez seja melhor nem começar.

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