Ao vivo
Home » Mercado » JAC fecha lojas, tira carros e muda de rumo no Brasil

Mercado

Uma das pioneiras

JAC fecha lojas, tira carros e muda de rumo no Brasil

Uma das pioneiras entre as chinesas no país reduz drasticamente sua rede, encerra E-JS4 e E-J7 e passa a concentrar esforços nas picapes

6 min de leitura

Quem acompanhava o mercado brasileiro no começo da década passada provavelmente lembra do tamanho da chegada da JAC Motors. O Faustão era seu garoto-propaganda, o J3 fazia sucesso e a chinesa abriu dezenas de concessionárias praticamente de uma só vez. Quinze anos depois, a JAC está reduzindo sua estrutura no Brasil, com apenas três pontos de venda em todo o país.

A apuração completa feita pela Autoesporte mostra o cenário da montadora chinesa, que estreou em 2010 por aqui e agora encolhe sua linha de automóveis. O E-JS4 e o E-J7 saíram de linha, enquanto o futuro do E-JS1 continua incerto.

A JAC afirma, no entanto, que não está deixando o país. A estratégia agora passa pelas vendas online e à distância, além de uma concentração bem maior nos veículos comerciais e, principalmente, na família Hunter.

E-JS4 e E-J7 chegam ao fim

JAC E-JS4 [Auto+ / João Brigato]

Os primeiros reflexos dessa nova estratégia aparecem justamente na linha de automóveis. Segundo a apuração, o SUV elétrico E-JS4 e o sedã E-J7 não estão mais disponíveis nas concessionárias e não existe previsão para novos lotes. Curiosamente, o site da própria JAC não mostra isso.

Consultado nesta terça-feira (11), o E-JS4 continua anunciado por R$ 254.900, inclusive com botão para iniciar a compra. O mesmo acontece com o E-J7. O sedã elétrico continua aparecendo no catálogo por R$ 259.900, apesar da informação de que novos carros não chegarão às lojas.

E-JS1 pode ser o próximo

JAC E-JS1 [Auto+ / João Brigato]

Com a saída dos dois, o que acontecerá com o E-JS1? O pequeno elétrico continua disponível e foi o principal automóvel da JAC com alguma movimentação de vendas em 2026.

Ainda assim, a resposta dada pela fabricante sobre sua nova estratégia não mencionou o hatch. A JAC falou especificamente em concentrar esforços nas picapes a diesel e 100% elétricas, deixando o único carro de passeio remanescente fora da explicação.

Veja a resposta da montadora:

“A JAC Motors vem conduzindo um processo de reposicionamento estratégico no mercado brasileiro, concentrando seus esforços no segmento de picapes, com foco em picapes a diesel e 100% elétricas.”

Isso não confirma o fim do hatch, mas coloca seu futuro em uma zona bem incerta.

Rede de concessionárias também encolheu

JAC E-J7 [Auto+ / João Brigato]

O fim de dois carros acontece paralelamente a uma redução bem grande da presença física da JAC no país. Depois do fechamento de uma loja em Brasília (DF), um endereço em São Paulo também afirmou ao site que vai unificar a operação com outra unidade da cidade. Com isso, restarão somente três pontos tradicionais de venda.

Atualmente, a rede fica concentrada na matriz no bairro do Limão, em São Paulo, além das unidades de Curitiba e Porto Alegre. É justamente nesse cenário que a estratégia de vendas online e à distância passa a ter um peso bem maior.

JAC Hunter preta de lado em uma construção

Segundo a JAC, o formato vem sendo desenvolvido e aprimorado há aproximadamente dois anos e permite atender consumidores de diferentes regiões do país mesmo sem uma concessionária física próxima.

A redução das lojas, porém, não significa o desaparecimento completo do pós-venda. A fabricante tem uma rede muito maior de oficinas credenciadas espalhadas pelo país. Segundo a JAC, são 142 oficinas credenciadas.

Hunter passa a carregar a JAC nas costas

traseira da jac hunter

É por isso que a Hunter é então a peça fundamental para entender a nova JAC Motors brasileira. Depois de passar anos enfatizando sua imagem como fabricante de elétricos, a empresa deu dois passos para trás e voltou a vender um carro a diesel, justamente em um dos segmentos mais tradicionais do país.

As picapes médias trabalham em um mercado diferente daquele dos elétricos de passeio. Há demanda de produtores rurais, empresas, frotistas e consumidores que procuram capacidade de carga. A versão Hunter 4Work parte atualmente de R$ 219.900, um preço chamativo para o segmento.

cabine da jac hunter

Na resposta enviada à Autoesporte, a própria fabricante colocou a Hunter no centro dessa nova fase. “Nesse contexto, a Hunter é hoje o principal produto da marca no mercado de varejo e representa essa nova fase da JAC Motors no Brasil.”

De dezenas de lojas para apenas três pontos

Apresentados ao público durante o Salão do Automóvel de São Paulo de 2010, J3 e J3 Turin começaram a ser vendidos oficialmente no ano seguinte. A estreia foi difícil de ignorar. A operação brasileira abriu 46 concessionárias, em março de 2011, acompanhada por uma enorme campanha publicitária estrelada por Fausto Silva.

JAC J3 [divulgação]

Além disso, havia uma fórmula bastante agressiva para conquistar um consumidor que ainda olhava carros chineses com bastante desconfiança. O J3 custava R$ 37.900, vinha bem equipado e tinha seis anos de garantia.

Funcionou inicialmente. Em apenas quatro meses, a JAC havia vendido aproximadamente 15 mil carros e alcançado perto de 1% do mercado brasileiro. A rede chegou a passar de 50 pontos, enquanto o portfólio cresceu com o J6, J5 e, posteriormente, diferentes SUVs.

Mais impostos

O problema é que aquele cenário mudou muito rápido. Poucos meses depois da estreia, o governo aumentou em 30 pontos percentuais o IPI para veículos importados que não cumpriam determinadas exigências de produção local.

A medida atingiu diretamente o modelo de negócio da empresa. Na época, a JAC já discutia uma fábrica brasileira e chegou a planejar uma unidade em Camaçari, na Bahia. O projeto nunca saiu como previsto e, em 2016, o governo cancelou a habilitação da empresa no Inovar-Auto por descumprimento do cronograma de investimentos apresentado.

[Auto+ / João Brigato]

Ainda assim, a fabricante não abandonou o país. Primeiro, tentou ampliar seu espaço entre os SUVs, com produtos como T5, T40 e T50. Mais tarde, percebeu na eletrificação uma oportunidade para ocupar um terreno ainda pouco explorado pelas marcas tradicionais.

A partir de 2018, o portfólio passou por uma profunda mudança e adotou uma estratégia com foco nos veículos elétricos. Foi justamente nesse período que surgiram carros como E-JS1, E-JS4 e E-J7. O problema é que o mercado elétrico brasileiro que a JAC encontrou naquela época não existe mais.

Você acredita que a JAC ainda consegue recuperar espaço no Brasil apostando em picapes? Deixe seu comentário!

Deixe um comentário

Luiz Forelli

Jornalista pela Faculdade Cásper Líbero, sempre fascinado por carros. Passava horas dirigindo no colo da família dentro da garagem ou empurrando carrinhos pela casa, como se já soubesse que seu caminho estaria entre motores e rodas. Hoje, realiza o sonho de infância escrevendo sobre o universo automotivo com a mesma empolgação de quem brincava com um volante imaginário. No lugar do sangue, corre gasolina, e isso nunca foi segredo.

Você também poderá gostar