Dirigir um esportivo de verdade sempre mexe com algo diferente. Pode ser um Mercedes-AMG, um Audi RS ou, neste caso, um legítimo BMW M. Há uma camada de brutalidade, precisão e exagero que nenhum carro comum consegue entregar. E foi exatamente essa sensação que tivemos ao guiar o novo BMW M4 Competition, que agora retorna de forma regular ao mercado brasileiro.
O cupê alemão produzido em Dingolfing, na Alemanha, ficou fora do portfólio nacional desde o fim da geração anterior, a F82, vendida por aqui entre 2014 e 2020. Em 2024, a BMW até importou um lote restrito de 35 unidades do radical M4 CS. Todavia, agora o M4 retorna de forma regular, nas versões Competition, por R$ 908.950, e Competition Track, de R$ 1.015.950.
A diferença da Track está no uso em pista do que no motor. Ela adiciona freios de carbono-cerâmica, aerofólio em fibra de carbono, bancos-concha e pneus semi-slick. A potência continua a mesma. Ou seja, quem paga a mais não leva mais cavalaria, mas sim mais resistência, aderência e mais preparo para aguentar abuso em autódromo.
Facelift de respeito

A geração atual do M4, conhecida pelo código G82, chegou lá fora em no final de 2020 e recebeu em 2024 o chamado Life Cycle Impulse, nome que a BMW usa para o famoso facelift. Neste caso, falamos do famoso banho de loja que atualiza o carro sem mudar sua essência.
Na dianteira, a enorme grade duplo rim vertical continua lá. Polêmica no começo, hoje ela virou praticamente a assinatura visual dessa geração. Os faróis mantêm o formato, mas ganharam nova assinatura em LED, agora com filetes mais agressivos no lugar dos antigos desenhos circulares.


Na traseira, as atenções se voltam para as belíssimas lanternas com tecnologia laser, herdadas diretamente do exclusivo M4 CSL. À noite, elas criam um efeito tridimensional muito legal e ajudam a deixar o cupê ainda mais exclusivo.
O conjunto ainda tem teto de fibra de carbono para ajudar no centro de gravidade, além das quatro saídas de escape integradas ao extrator. Os para-lamas alargados denunciam as bitolas maiores e dão aquela postura musculosa que atrai os olhares, ainda mais nessa cor chamativa chamada de Isle of Man Green.
O seis cilindros é surreal

Mas o verdadeiro espetáculo está debaixo do capô. O M4 Competition traz o condecorado motor TwinPower S58, um propulsor 3.0 biturbo de seis cilindros em linha que despeja 510 cv a 6.250 rpm e massivos 66,3 kgfm de torque a partir de 2.750 rpm. Trata-se do mesmo coração que pulsa no usado no M3 e no M2 (lá com 480 cv e 61,2 kgfm), ligado ao câmbio automático M Steptronic de oito marchas.
No Brasil, a BMW escolheu vender o M4 na configuração mais perigosa como os irmãos e, para muitos, o mais interessante: tração 100% traseira. Lá fora, existem versões manuais, xDrive, conversíveis, CS, CSL, essas duas últimas as mais radicais. Aqui, a receita é motor longitudinal com diferencial ativo e toda a força indo para as rodas traseiras.

O resultado é um carro visceral. A BMW declara 0 a 100 km/h em 3,9 segundos e velocidade máxima de até 290 km/h, limitada eletronicamente. Só que o número frio não traduz a violência com que esse carro ganha velocidade. Você encosta o pé, o câmbio reduz com uma rapidez e de forma cirúrgica como poucos, o seis cilindros enche e o M4 literalmente dispara com um ronco maravilhoso.
Rápido é um adjetivo fraco e soa quase como um insulto. É agressivo. A entrega de força vem cheia e extremamente forte — em marchas curtas com rotações altas, até dá soco a cada oscilação do pé direito, devido ao torque violento. As retomadas acontecem sem o menor esforço e logo percebe-se que há muito mais motor disponível do que o limite legal das vias públicas permite utilizar.
Tração traseira não perdoa

Como o modelo vendido no Brasil dispensa o filtro de neutralidade da tração integral xDrive, o eixo traseiro trabalha sob carga severa o tempo inteiro, enquanto a frente empina. Em asfalto seco e com os pneus na temperatura certa, essa característica vira diversão pura.
Por outro lado, pisar em piso molhado, frio ou irregular exige respeito absoluto do condutor. Durante a nossa subida rumo a Campos do Jordão (SP), sob chuva forte e neblina, o M4 deixou essa personalidade arisca muito clara.

Mesmo em velocidades relativamente moderadas, na casa de 60 ou 70 km/h, uma redução de marcha ou uma pressão descuidada no acelerador fazia a traseira insinuar uma escapada. O excesso de torque praticamente instantâneo supera a aderência dos pneus traseiros e o carro começa a querer girar em torno do próprio eixo.
Obviamente, a eletrônica de salvaguarda atua de forma cirúrgica. O controle de estabilidade, o diferencial ativo M e os módulos de tração contêm os excessos. Ainda assim, o M4 não camufla sua natureza indomável, avisando o tempo todo que não tolera desatentos. Ele é divertido, passional e extremamente envolvente, mas cobra o preço de ser arisco.

Nesse temperamento agressivo reside a verdadeira graça de comprar um produto com a insígnia M. O cupê abre mão daquela estabilidade previsível dos esportivos modernos com tração integral. Ele passa a exigir leitura do asfalto, modulação do pé direito e atenção total. Se o motorista abusar da confiança, o chassi cobra a conta sem cerimônias.
Um carro para quem sabe o que está fazendo
Ciente desse potencial destrutivo, a fabricante alemã instalou um dos sistemas de customização dinâmica mais completos. Diante das teclas vermelhas M1 e M2 posicionadas no volante, o condutor consegue salvar mapas totalmente diferentes para o motor, transmissão, assistência de direção, suspensão adaptativa, sensibilidade dos freios e abertura dos flaps do escapamento.

Você pode deixar um modo mais civilizado, com suspensão em Comfort e motor em Sport, ou partir para algo muito mais agressivo, com tudo em Sport Plus e controles mais permissivos. O M4 também deixa ajustar o controle de tração em diferentes níveis, de uma forma quase didática. Em um extremo, a eletrônica segura bastante. No outro, é você e Deus.
Há ainda o M Drift Analyzer, que mede ângulo, distância e qualidade das derrapagens. Parece brincadeira, mas mostra bem a proposta do carro. A BMW não faz o menor esforço que esse cupê nasceu para provocar o motorista. Só que é bom ter noção do que isso significa. Com 510 cv, tração traseira e 66,3 kgfm, qualquer excesso de confiança pode virar um problema. O M4 aceita ser provocado, mas não aceita vacilo.
Colado no chão

Em contrapartida, quando o motorista respeita os limites da máquina, o M4 retribui com uma solidez estrutural extremamente bem calibrada. A estrutura é muito rígida, a carroceria parece colada no chão e a suspensão adaptativa trabalha muito bem.
Na estrada, em velocidades mais altas, o equilíbrio também é excelente pela ausência de flutuações ou oscilações e corta o vento com facilidade. O coeficiente aerodinâmico de 0,34 cx ajuda nesse quesito, mas a sensação é que o M4 sempre te instiga a andar rápido.

O isolamento de carroceria é tão competente que o condutor perde a real noção de velocidade. Você só sabe que cruzou a barreira do bom senso ao olhar para as marcações projetadas pelo Head-Up Display diretamente no para-brisa.
Não é feito para sofrer calado na cidade
O cupê usa suspensão dianteira de braços sobrepostos e traseira multibraço, sempre com acerto específico da divisão M. Em curvas rápidas cupê se apoia com firmeza extrema, nega qualquer rolagem de carroceria e transmite total controle. A direção tem peso correto, responde rápido e coloca o carro exatamente onde você aponta.

Mesmo com 1.725 kg na balança, o M4 não passa a sensação de ser pesado. A agilidade nas mudanças de direção faz o veículo parecer bem menor do que sugerem suas dimensões. As rodas de 19 polegadas na frente com pneus 275/35 e de 20 polegadas atrás com pneus 285/30 ajudam a colocar toda essa força no chão, embora nem sempre consigam esconder o temperamento arisco da traseira.
Claro que todo esse acerto cobra seu preço no uso urbano. Mesmo acionando o mapa mais dócil dos amortecedores adaptativos, a rodagem do M4 é firme. Não chega a castigar com batidas tão secas quanto alguns AMG, mas também está longe de entregar conforto de sedan comum.

Em pisos ruins, buracos e remendos, as imperfeições são transferidas para o habitáculo sem filtros. A carroceria não bate solta, o carro não parece frágil, mas ele faz questão de lembrar que se trata de um carro de corrida homologado para as ruas.
Ainda assim, surpreende por não ser inviável. Durante nosso trajeto, o spoiler dianteiro não raspou em valetas ou lombadas e o carro se mostrou mais utilizável do que a aparência sugere. Mas é aquele tipo de cupê que pede cuidado, atenção e paciência em cidade. Ele até tolera o deslocamento urbano, mas deixa claro que nasceu para outro ambiente.
Freia como anda

E se ele acelera muito, também freia muito. Durante nosso contato, tivemos uma situação típica de estrada à noite, com o trânsito reduzindo de forma repentina. O alerta de colisão frontal já tinha identificado a desaceleração à frente, mas o pé no freio veio forte logo depois.
A resposta foi a esperada de um esportivo: o carro parou com muita segurança, sem susto e sem perder estabilidade, mesmo em piso molhado. A versão Competition usa freios M Compound de ferro fundido, com discos ventilados e perfurados, além de pinças de seis pistões na dianteira. Para uso em estrada e até uma condução mais forte, sobra freio.

A Track vai além com os discos de carbono-cerâmica, mais indicados para quem realmente pretende usar o carro em pista. Eles suportam melhor temperatura e reduzem a chance de fadiga em uso extremo. Mas, para a vida real, o conjunto convencional já tem uma capacidade de frenagem absurda.
Cabine moderna
Por dentro, o M4 acompanha a nova fase da BMW. O painel curvo junta o quadro de instrumentos de 12,3 polegadas com a central multimídia de 14,9 polegadas, rodando o sistema BMW 8.5. O visual é moderno, rápido e cheio de funções. Além, de claro, a ergonomia como um esportivo deve ser: conectado com o carro em posição baixa.

O volante M também mudou. Agora tem base achatada, marcação central vermelha e os botões M1 e M2 em destaque. É um cockipit que já te colocam no clima do carro antes mesmo de ligar o motor.
A versão Competition traz bancos esportivos M com ótimo apoio lateral, ajustes elétricos e acabamento de alto nível. Já a Track adiciona bancos-concha em fibra de carbono, muito mais radicais e melhores para pista, mas também mais duros no uso diário. O acabamento mistura couro Merino, fibra de carbono real e aquela atmosfera de carro caro que sabe que é caro.
Veredicto

O BMW M4 Competition é um carro que te lembra porque esportivos puristas ainda importam. Em um mundo cada vez mais eletrificado, filtrado e previsível, ele entrega motor, barulho, tração traseira e um nível de envolvimento que está ficando raro de se ver, como um BMW M raiz tem e quer ser.
Não é um esportivo dócil, muito menos o mais fácil de guiar. Também não é o mais confortável. Contudo, essas faltas de concessões define a sua graça. O M4 é um carro soberbo que exige respeito, cobra técnica e recompensa quem sabe tratá-lo do jeito certo. Um BMW puro, no melhor e no pior sentido. Dá medo, dá vontade e dá aquela sensação rara de estar dirigindo algo especial.


