Todo fabricante gosta de ter um modelo topo de linha que, mesmo sendo mais nichado, acaba virando justamente o mais legal de dirigir. E esse é exatamente o caso do Volvo EX30 Cross Country. Custando R$ 314.990, ele pega a proposta do menor SUV da Volvo e transforma em algo muito mais divertido do que racional.
O EX30 já chama atenção desde as versões mais acessíveis, hoje começando na Plus de R$ 239.950 após a saída da antiga Core. Só que aqui temos dois motores e uma proposta mais aventureira sem cair naquela caricatura exagerada de um SUV off-road. Por isso, pagar quase R$ 75 mil a mais pode parecer exagero em um primeiro momento.
Porém, a versão Cross Country entrega justamente aquilo que fez a Volvo ganhar tanta relevância nos elétricos modernos. E talvez seja justamente isso que torne o EX30 interessante. Porque todos os melhores atributos da Volvo moderna são condensados nesse compacto elétrico.
Personalidade de Volvo



Desde que a chinesa Geely assumiu a Volvo em 2010, as sinergias dentro do grupo aumentaram bastante. O Volvo EX30 usa a plataforma SEA de outros modelos, como o Zeekr X e o Smart #1. Só que mesmo compartilhando arquitetura, a Volvo colocou sua personalidade aqui. E é justamente por isso que faz o EX30 tão legal de dirigir.
Falamos de dois motores elétricos, com 272 cv na dianteira e 156 cv na traseira, formando 428 cv e 55,4 kgfm extremamente bem distribuídos entre os eixos. O resultado é um negócio brutal. Qualquer retomada ou aceleração acontece com uma facilidade absurda.



Basta tocar no acelerador para o torque instantâneo dar aquela patada imediata que faz qualquer coisa ficar para trás com facilidade. É uma elasticidade absurda típica de elétrico, só que com personalidade. Na cidade, ele sai de qualquer situação com uma violência deliciosa. Um cruzamento, retomada curta, espaço pequeno no trânsito, não importa. O EX30 simplesmente dispara, sem hesitar.
Mesmo no modo Autonomia, que segura mais o carro, ele continua extremamente rápido. Você nem sente necessidade de colocar no modo Desempenho o tempo todo, porque as respostas já são vigorosas naturalmente. Só que quando coloca no modo Desempenho, aí ele vira um pequeno animal. Pena que o modo Autonomia não memorize sozinho e você precise ativar toda hora na multimídia, já que volta ao modo Normal.
O elétrico mais divertido da Volvo?



E é diretamente aí que mora a graça do EX30 Cross Country. Porque além de absurdamente rápido, ele é muito envolvente de dirigir. E isso acontece por ser o menor SUV da Volvo, com entre-eixos curto e comportamento muito mais arisco que os irmãos maiores.
Mesmo pesando 1.885 kg, você simplesmente esquece disso em movimento. O 0 a 100 km/h em 3,7 segundos faz o carro voar em qualquer situação. E o mais legal é que ele não patina, não há atraso ou sensação de falta de força em nenhum momento.



Ele está sempre em prontidão com a distribuição de torque também ajudando muito nisso, já que o eixo traseiro recebe cerca de 35 kgfm contra 20 kgfm na dianteira, deixando o comportamento muito mais divertido.
E essa personalidade conversa direto com a direção. O volante é extremamente responsivo, com relação de esterço curto e praticamente sem atraso nas respostas. Além disso, o peso é muito bem calibrado em qualquer velocidade



O EX30 é afiadinho nas curvas, graças também ao centro de gravidade baixo por causa da bateria que transforma o peso em vantagem dinâmica. Somado à suspensão independente nas quatro rodas, o resultado é um SUV compacto extremamente na mão.
O McPherson na dianteira e o multilink traseiro trabalham em perfeita harmonia com o monobloco, controlando muito bem os movimentos da carroceria. Existe pouquíssima rolagem lateral, mesmo nas curvas fechadas e mudanças rápidas de trajetória.
Firme como europeu

E o mais legal é que ele consegue fazer tudo isso sem destruir o conforto. A calibração segue bem a escola europeia, com suspensão firme, mas suave e bem resolvida. O conjunto filtra irregularidades, buracos e solavancos com muita competência, sem ficar quicando ou balançando excessivamente depois das imperfeições. Existe uma solidez construtiva absurda aqui.
Além disso, essa versão Cross Country é 19 mm mais alta que os EX30 normais e traz ângulo de ataque de 17,9 graus, o que ajuda bastante em valetas, lombadas e pisos ruins sem raspar a dianteira e sem comprometer a dinâmica. Para falar que ele perdeu algo, são 0,1 milésimos mais lento que a versão Ultra por conta dos pneus de uso misto (235/45).



O isolamento acústico também é muito bom diante a um carro elétrico. O EX30 filtra muito ruídos externos, tanto de rodagem quanto de fluxo de vento. Os vidros seguram muito bem o som vindo de fora e deixam a cabine extremamente silenciosa mesmo em velocidades mais altas.
Já os freios também são rápidos e extremamente responsivos e passam bastante segurança como um Volvo deve ser para reduzir toda brutalidade de potência.
Sem drama na autonomia



Tudo isso funciona graças à bateria de 69 kWh nominais e 65 kWh líquidos. Segundo o Inmetro, a autonomia é de 327 km, levemente superior à versão Ultra convencional justamente pelas rodas mais fechadas dessa configuração.
Só que na prática os números foram ainda melhores. Na cidade conseguimos médias próximas de 16 kWh/100 km, o que permitiria algo perto dos 400 km de autonomia. Já na estrada, os números ficaram entre 18 e 19 kWh/100 km, entregando algo entre 340 e 360 km reais, resultados muito positivos para um carro com quase 430 cv.

E parte disso acontece graças ao ótimo coeficiente aerodinâmico de apenas 0,28 cx. Com isso, o EX30 corta o ar com muita eficiência, mantém a velocidade sem esforço e desliza com extrema facilidade, algo que ajuda tanto na autonomia quanto no prazer de dirigir.
Além disso, a arquitetura de 400 volts permite carregamento rápido de até 153 kW em corrente contínua, fazendo de 10% a 80% em cerca de 26 a 28 minutos. Em corrente alternada, ele aceita até 11 kW. Ou seja, até na recarga o EX30 consegue ser muito bom no dia a dia.
Minimalismo demais atrapalha



O que realmente quebra um pouco a experiência do Volvo EX30 Cross Country são justamente alguns detalhes de acabamento e o interior extremamente minimalista. Tudo bem, depois de um tempo você até entende a lógica do carro, mas honestamente precisa de paciência e adaptação.
O que mais me incomodou foi justamente o velocímetro junto a central multimídia vertical de 12,3 polegadas. Diversas vezes eu simplesmente esquecia a velocidade do carro porque não havia um Head-Up Display (HUD) ou algo no meu campo de visão.



Então, toda hora eu precisava tirar os olhos da estrada para olhar o canto superior da tela. E isso contraria muito aquilo que a própria Volvo sempre vendeu sobre segurança. Tudo bem, já tivemos outros carros com velocímetro central, como Toyota Etios e Renault Twingo, mas nesses casos o velocímetro ainda estava dentro da sua linha natural de visão. Aqui não.
São várias informações pequenas concentradas na tela, como bateria, autonomia e velocidade, que fazem você perder atenção por milissegundos o tempo inteiro. E isso, em um carro de mais de R$ 300 mil, realmente não faz sentido. Um simples HUD resolveria praticamente 90% desse problema.



Apesar disso, o acabamento tem seus altos e baixos. A montagem em si transmite boa solidez, com peças rígidas e bem encaixadas na maior parte do interior. Só que alguns detalhes deixam a desejar para um carro premium acima dos R$ 300 mil.
A Volvo utiliza muitos materiais recicláveis e renováveis no EX30, variando entre 30% e 70% dependendo da textura e do revestimento escolhido. A proposta sustentável é interessante, mas alguns plásticos e acabamentos do painel acabam não transmitindo a sensação de qualidade que se espera de um público tão exigente dentro de uma marca premium.
Tudo passa pela tela



A multimídia em si é ótima, com respostas rápidas, perfeita resolução, funcionalidades interessantes e visual muito bonito. O problema é justamente o excesso de funções concentradas nela.
Por exemplo, regular retrovisores, ligar iluminação, abrir porta-luvas, porta-malas, controlar a ventilação do ar-condicionado de duas zonas, aquecimento dos bancos e até do volante, entre outros, tudo praticamente tudo passa pela tela.



Dá até para criar atalhos, mas precisa de tempo para decorar onde cada coisa fica. E isso varia muito de pessoa para pessoa. Tem quem se acostume rápido, quem leve mais tempo e quem simplesmente não suporte esse excesso de minimalismo digital. Mesmo assim, não dá para negar que o EX30 é completo.
Os bancos têm ajustes elétricos, embora feitos por um único seletor que precisa apertar várias vezes para controlar lombar, altura do assento e apoio das pernas. Os vidros elétricos também seguem a moda minimalista, com comandos centralizados e apenas um botão para alternar entre dianteiros e traseiros, já que não existem quatro seletores individuais tradicionais.

Temos ainda câmera 360°, item que a versão Plus não tem, purificador de ar com sensor de qualidade que ajusta automaticamente, assistente de estacionamento, retrovisor fotocrômico, sensores dianteiros e traseiros e chave presencial.
Ainda vem freio eletrônico com Auto Hold, iluminação 100% em LED com animação bem legal na aproximação do carro, iluminação ambiente, volante multifuncional e um dos grandes destaques é justamente o som Harman Kardon.

Mesmo com apenas nove alto-falantes, a qualidade impressiona demais. O sistema usa um amplificador de 1.040 watts e uma régua sonora instalada próxima ao para-brisa, entregando médios e graves extremamente limpos. O pequeno EX30 literalmente vira um show sobre rodas.
Pequeno por fora, apertado atrás
Os bancos também são confortáveis no geral, embora o excesso de espuma tenha me dado um leve incômodo depois de mais tempo dirigindo, mesmo com ajuste lombar. Nada que comprometesse drasticamente a experiência.

O volante, por outro lado, encaixa muito bem nas mãos, com ótima regulagem de altura e profundidade e uma ergonomia muito bem trabalhada. Já o espaço traseiro não acompanha tanto os números.
Os 4,23 metros de comprimento e 2,65 m de entre-eixos parecem bons no papel, mas atrás eu fiquei extremamente apertado, com os joelhos esmagados, lembrando que tenho 1,88 m. Pelo menos a altura do teto agrada . O porta-malas também é apenas razoável para a categoria, com 318 litros e sem estepe infelizmente.
Segurança segue sendo prioridade absoluta

E claro, a segurança continua sendo o principal pilar da Volvo. Aqui praticamente não falta nada. O EX30 traz absurdos 10 airbags. Temos airbags frontais, laterais, de cortina, airbag de joelho para o motorista e até um airbag central entre os bancos dianteiros, criado justamente para evitar choque entre motorista e passageiro em impactos laterais.
Além disso, há piloto automático adaptativo com stop and go muito suave e calibrado, alerta de colisão com frenagem automática para pedestres e ciclistas, assistente de faixa com centralização muito eficiente, frenagem automática em manobras, alerta de ponto cego com tráfego cruzado, alerta de desembarque e assistente de farol alto.

Também tem o detector de fadiga por infravermelho na coluna de direção, que percebe distrações e até manda você tomar um café quando entende que perdeu atenção. Às vezes até meio chatinho, mas funciona bem. E tudo isso trabalha junto da tradicional célula de sobrevivência em aço ultrarresistente da Volvo, além das zonas de deformação progressiva projetadas especificamente para impactos em veículos elétricos.
Veredicto
Normalmente eu não sou tão fã de carro elétrico. Muitos parecem ser somente eletrodomésticos rápidos e sem personalidade. Aqui eu vejo personalidade. É afiado, a suspensão extremamente bem acertado, torque violento e dinâmica divertida, mesmo com seus calcanhares de Aquiles com excesso de minimalismo questionáveis.

Também é óbvio que estamos falando de uma versão extremamente nichada. Pouquíssimas unidades vão rodar no Brasil e os mais de R$ 300 mil afastam muita gente. Só que o mais interessante aqui é que ele mostra o quanto o projeto do EX30 é sólido desde as versões mais acessíveis.
O Cross Country é basicamente um plus a mais em cima de um carro que já era muito bom, trazendo mais personalidade, mais desempenho e um visual mais aventureiro. Pode até não fazer sentido racionalmente pelo preço, mas dinamicamente ele entrega algo que poucos elétricos conseguem hoje: vontade genuína de dirigir.
E você, colocaria um Volvo EX30 na sua garagem? Deixe seu comentário!



