Depois de anos vendo os carros ficarem cada vez mais caros, o brasileiro finalmente começou a encontrar um cenário diferente nas concessionárias. E não estamos falando apenas de promoções pontuais. O preço médio efetivamente pago por um carro zero km caiu R$ 8.119 em 2026, já que as fabricantes estão precisando negociar mais para conseguir vender.
Segundo um levantamento da Bright Consulting, com dados atualizados até outubro, o valor médio das transações passou de R$ 158.741 para R$ 150.622. Isso representa uma redução de 5,1%, algo curioso e atípico depois de tantos anos de reajustes praticamente consecutivos.
Contudo, os preços de tabela não acompanharam essa queda. O valor público médio anunciado pelas fabricantes subiu 1%, passando de R$ 164.569 para R$ 166.142. Ou seja, o carro continuou ficando um pouco mais caro no catálogo, mas o consumidor passou a pagar menos na hora de fechar negócio.

E essa diferença já chega a R$ 15.520, aproximadamente 9,3% do preço de tabela. Não significa que qualquer carro tenha esse desconto disponível, mas mostra o quanto o valor anunciado pode estar distante daquele realmente negociado.
A chegada dos carros chineses mudou a negociação
Parte dessa mudança passa pela concorrência, principalmente com a expansão das fabricantes chinesas no Brasil. BYD, GWM, Geely, GAC e Omoda & Jaecoo vem aumentando suas ofertas de veículos, trazendo tecnologias e equipamentos que antes apareciam somente em carros muito mais caros.

Com isso, as marcas tradicionais também precisaram se movimentar. Afinal, ficou mais difícil justificar determinados preços quando o consumidor encontra um concorrente com motorização híbrida, central multimídia maior ou mais equipamentos por um valor semelhante.
E nem sempre essa reação aparece diretamente na tabela. Muitas fabricantes preferem trabalhar com bônus na troca, descontos para determinadas versões, taxas de financiamento e condições especiais nas concessionárias. O resultado é justamente essa diferença entre o preço sugerido e o valor que o comprador acaba pagando.

Segundo Cassio Pagliarini, da Bright Consulting, a chegada de novas fabricantes chinesas vêm pressionando as marcas tradicionais a oferecer mais incentivos para manter a competitividade. Entretanto, o preço médio de transação também depende de quais carros estão sendo comprados. Ou seja, a queda de 5,1% não significa que todos os modelos ficaram exatamente 5,1% mais baratos.
Carros finalmente ficaram mais baratos que a inflação
Para entender o tamanho dessa mudança, basta olhar o que aconteceu nos últimos anos. Em 2021, o preço médio dos carros novos subiu impressionantes 26,3%. No ano seguinte, veio outro aumento de 17,2%, em um período marcado por problemas na produção e falta de componentes.

Depois, os reajustes começaram a desacelerar, mas continuaram pesando no bolso. Foram 7,6% em 2023, 6% em 2024 e outros 5,5% em 2025. Agora, em 2026, o aumento nominal de apenas 1% ficou abaixo dos 3,88% de inflação considerados pela Bright Consulting. Descontando esse efeito, o preço público médio dos veículos caiu 2,8% em termos reais.
É a primeira queda real registrada desde o início da série histórica, em 2020. Entretanto, isso não significa que os carros voltaram a ser baratos. Mesmo com a redução recente, o preço médio corrigido pela inflação ainda está 27,9% acima do registrado em 2020.
Elétricos baratos desvalorizam quase como carros a combustão

E essa mudança nos preços dos veículos novos também começa a pesar no mercado de usados. Afinal, quando uma fabricante oferece descontos maiores em um zero km, o consumidor passa a olhar de outra maneira para o seminovo daquela mesma categoria.
O levantamento da Bright Consulting também analisou quanto os veículos perdem de valor depois de um ano, considerando diferentes faixas de preço e tipos de motorização. E os números revelam uma diferença interessante entre os elétricos mais acessíveis e aqueles de categorias superiores.
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Entre os carros de até R$ 170 mil, os modelos totalmente elétricos apresentam desvalorização média de 12,3% depois de um ano. É um resultado próximo dos 11,6% registrados pelos veículos a combustão. Já os híbridos plenos, que não precisam ser carregados na tomada, perdem 15,7% nessa mesma faixa.
Isso mostra que não dá para afirmar que todo carro elétrico necessariamente perde muito mais valor que um modelo a combustão. Pelo menos entre os veículos mais acessíveis, a diferença encontrada pela consultoria é pequena.

Na categoria de R$ 170 mil a R$ 250 mil, os elétricos perdem 16,8% após um ano, enquanto os modelos a combustão registram queda de 15,5%. Os híbridos convencionais apresentam desvalorização de 18,4%, e os híbridos plug-in, que podem ser carregados na tomada, chegam a 18,9%.
Acima de R$ 350 mil, os elétricos perdem muito mais valor
A situação começa a mudar quando entramos nas categorias superiores. Entre R$ 250 mil e R$ 350 mil, os carros elétricos perdem em média 20% do valor depois de um ano, enquanto os veículos a combustão registram 17%. Já os híbridos convencionais têm o melhor resultado dessa faixa, com desvalorização de 15,7%.

Mas a maior diferença aparece nos veículos acima de R$ 350 mil. Nesse caso, os elétricos chegam a perder 22,4% do valor em apenas doze meses, contra 16,4% dos modelos a combustão. Para entender melhor, imagine um carro elétrico comprado por R$ 400 mil. Considerando essa média, ele perderia em torno de R$ 89.600 no primeiro ano. Já um modelo a combustão do mesmo valor teria uma perda estimada de R$ 65.600.
São R$ 24 mil de diferença em apenas um ano, um valor que pode pesar bastante na decisão de compra. Os híbridos também tem perdas nessa categoria. Os convencionais desvalorizam 19,2%, enquanto os plug-in chegam a 19,4%, números inferiores aos dos elétricos puros, mas superiores aos dos veículos a combustão.
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