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Primeiro elétrico

VW ID.4 tem a dinâmica que falta em muito chineses, mas cobra caro | Impressões

Com 286 cv, mais autonomia e a dirigibilidade que consagrou a Volkswagen, o ID.4 finalmente chega às lojas brasileiras.

13 min de leitura

A demanda por carros elétricos vem obrigando as fabricantes tradicionais a se movimentarem, cada uma da maneira que consegue. A Chevrolet aproveita sua parceria com a SAIC, a Stellantis tem a joint venture com a Leapmotor e a Volkswagen resolveu apostar em um produto que já conhece muito bem. O ID.4, um de seus elétricos mais vendidos no mundo, e o primeiro elétrico que a marca comercializa no país.

Na verdade, o SUV alemão já circulava por aqui desde 2023, mas apenas pelo programa de assinatura VW Sign&Drive, com mensalidades que podiam ultrapassar R$ 6 mil. Agora, importado da Alemanha na versão Pro 2027, o ID.4 custa R$ 299.990, curiosamente o mesmo valor do Tiguan a combustão. Não deixa de fazer sentido, afinal, o elétrico sempre carregou essa imagem de uma espécie de Tiguan movido a bateria.

A questão aparece quando começamos a olhar para os concorrentes. O BYD Yuan Plus AWD, por exemplo, custa R$ 269.990 e entrega 449 cv, 57,1 kgfm e tração integral. São R$ 30 mil de diferença a favor do chinês, que ainda tem números muito mais expressivos de desempenho. Além disso, existem outros elétricos no mercado brasileiro que já oferecem bastante tecnologia e conforto por valores inferiores.

Volkswagen ID.4 2027 estático na cor azul
Volkswagen ID.4 Pro 2027 [Auto+/Luiz Forelli

E existe outro ponto curioso nessa estratégia. O ID.4 começou sua trajetória mundial em 2020 e, embora tenha recebido atualizações, já está chegando ao fim do ciclo na Europa. A Volkswagen encerrou sua produção nos Estados Unidos em 2026 e apresentou recentemente o ID. Tiguan, que substituirá os atuais ID.4 e ID.5 no mercado europeu a partir de 2027.

Mais potência e uma boa dose de torque

O ID.4 oferecido anteriormente por assinatura entregava 204 cv e 31,6 kgfm, números que já tinham um desempenho bastante razoável. Agora, o motor elétrico no eixo traseiro desenvolve 286 cv e 55,6 kgfm, um aumento de 82 cv e nada menos que 24 kgfm. A Volkswagen também melhorou a eficiência do conjunto, que continua usando uma transmissão de relação única e movimentando exclusivamente as rodas traseiras.

O ID.4 mantém aquela entrega de torque imediata dos elétricos, sem precisar esperar o motor subir de rotação, mas agora tem muito mais disposição quando o acelerador recebe uma pressão maior. E o legal é que essa força chega de maneira bastante linear, sem deixar o carro arisco ou difícil de dosar.

Volkswagen ID.4 2027 estático na cor azul
Volkswagen ID.4 Pro 2027 [Auto+/Luiz Forelli

Nos modos Eco e Normal, o SUV responde com suavidade, embora esteja longe de parecer lento. As saídas de semáforo, retomadas urbanas e mudanças rápidas de faixa acontecem com facilidade, praticamente sem esforço. O acelerador tem uma progressividade muito boa e ajuda a administrar toda aquela força sem ficar movimentando demais a carroceria.

Potência suficiente

Já no Sport, o ID.4 mostra um pouco mais de sua potência. A resposta fica mais imediata e as acelerações começam a provocar aqueles puxões mais fortes que pressionam o corpo contra o banco. Não chega a ser a patada de alguns elétricos chineses mais potentes, mas também não falta disposição.

A Volkswagen diz uma aceleração de 0 a 100 km/h em 6,7 segundos, contra 8,5 segundos da versão antiga, um salto considerável para um SUV que pesa cerca de 2,16 toneladas. Mesmo com toda essa massa, o ID.4 consegue sair da inércia e ganhar velocidade com uma facilidade muito boa.

Volkswagen ID.4 2027 estático na cor azul
Volkswagen ID.4 Pro 2027 [Auto+/Luiz Forelli

A bateria representa uma parcela importante do peso, mas a entrega imediata de torque ajuda a disfarçar isso nas acelerações. Nas retomadas, principalmente, a força continua disponível sem qualquer hesitação, fazendo o SUV recuperar velocidade rapidamente para uma ultrapassagem.

É claro que o Yuan Plus AWD, com seus 449 cv, tração integral e 0 a 100 km/h em 3,9 segundos, entrega muito mais desempenho. Só que, durante nosso breve contato, não senti falta de potência no Volkswagen. Os 286 cv já fazem muito bem o trabalho e combinam com a proposta de um SUV. Mas força é sempre interessante, mas separamos o que precisa e o que queremos. Aqui ele responde bem em todas situações praticamente. 

Os chineses têm potência, os alemães têm escola

Se muitos fabricantes chineses ainda estão aperfeiçoando a calibração de direção, suspensão e controles, os alemães já trabalham com esse assunto há décadas. E a Volkswagen sempre soube fazer um carro bom de dirigir, mesmo nos modelos mais simples. No ID.4, essa experiência aparece de forma clara. também.

Volkswagen ID.4 2027 estático na cor azul
Volkswagen ID.4 Pro 2027 [Auto+/Luiz Forelli

A direção elétrica tem um peso muito bem dosado, independentemente da velocidade, e transmite uma sensação de contato com as rodas dianteiras que ainda falta em muitos elétricos. Não há aquela folga exagerada na região central nem uma assistência artificial que deixa o volante leve demais. Os movimentos são diretos, progressivos e passam uma boa percepção do que acontece entre os pneus e o asfalto.

É uma qualidade que costuma ficar em segundo plano quando comparamos fichas técnicas, principalmente porque os chineses oferecem muita potência por preços competitivos. Só que o ID.4 consegue transmitir uma confiança muito boa logo nos primeiros quilômetros, com respostas previsíveis e uma relação bastante natural entre direção e carroceria.

Assentadinho

A plataforma MEB, desenvolvida especificamente para veículos elétricos, também ajuda nesse comportamento. Como a bateria fica instalada no assoalho, o centro de gravidade é mais baixo do que a altura da carroceria sugere. 

Volkswagen ID.4 2027 estático na cor azul
Volkswagen ID.4 Pro 2027 [Auto+/Luiz Forelli

Além disso, a tração traseira deixa as rodas dianteiras concentradas no trabalho de esterçar, enquanto o motor traseiro cuida da propulsão. Isso é um ponto bom para dar a sensação de uma direção mais limpa, sem as interferências de torque que podem aparecer em carros elétricos de tração dianteira.

Durante o percurso, conseguimos enfrentar algumas curvas mais acentuadas e o ID.4 apresentou uma inclinação lateral bastante pequena para seu porte. A carroceria acompanha os movimentos do volante sem demora e ele fica bem assentado, mesmo com toda a massa. Não chegamos perto de explorar mais porque o contato foi breve, mas a primeira impressão foi positiva.

Mas é aqui que a tração integral dos rivais poderia acrescentar algo. Num elétrico de potência elevada, distribuir a força entre os dois eixos melhora a capacidade de colocar torque no chão e pode favorecer a motricidade em determinadas condições. Ainda assim, a tração traseira do ID.4 me pareceu muito bem calibrada.

Uma suspensão que sabe controlar o peso

Volkswagen ID.4 2027 estático na cor azul
Volkswagen ID.4 Pro 2027 [Auto+/Luiz Forelli

A suspensão também contribui bastante para essa boa impressão. O ID.4 tem McPherson na dianteira e um conjunto independente multilink na traseira, configuração que trabalha muito bem com o centro de gravidade baixo e a distribuição de massa da plataforma elétrica.

O acerto segue aquela característica que gosto nos Volkswagen. A suspensão é um pouco mais firme, mas não chega a ser seca, enquanto os amortecedores conseguem absorver as irregularidades sem deixar a carroceria balançando por tempo demais. Ela comprime, acomoda o impacto e retorna de maneira controlada, deixando o chassi bem assentado mesmo quando aparecem ondulações em sequência.

Passamos por alguns buracos e emendas durante o trajeto, suficientes para perceber um bom trabalho de absorção. O curso da suspensão parece generoso e, nas irregularidades que enfrentamos, não houve sinais de fim de curso ou pancadas secas. Ainda precisamos conviver mais tempo com o ID.4 para entender seu comportamento.

Volkswagen ID.4 2027 estático na cor azul
Volkswagen ID.4 Pro 2027 [Auto+/Luiz Forelli

E é nesse assunto também que a sua diferença com muitos chineses aparecem. Muitos melhoraram bastante nos últimos anos, mas ainda encontramos modelos com suspensão excessivamente macia, que absorve bem o primeiro impacto e demora a controlar o movimento da carroceria. O Volkswagen oferece um conforto muito bom sem perder essa firmeza, o que ajuda tanto nas curvas quanto na estabilidade.

A autonomia melhorou, mas os chineses já avançaram bastante

A atualização mecânica também trouxe uma bateria maior. O ID.4 passou dos antigos 77 kWh para 84 kWh de capacidade bruta, dos quais aproximadamente 79 kWh ficam disponíveis para o uso. Com isso, a autonomia homologada pelo Inmetro aumentou de 370 para 389 km, um ganho de 19 km em relação ao modelo oferecido anteriormente por assinatura.

É uma autonomia razoável para um SUV elétrico desse porte, principalmente considerando a potência e o peso acima de duas toneladas. A Volkswagen também trabalhou na eficiência do motor e do gerenciamento eletrônico, ajudando a compensar o aumento de potência sem comprometer o alcance. Ainda assim, os 389 km não chegam a ser uma vantagem tão grande diante dos concorrentes.

Volkswagen ID.4 2027 estático na cor azul
Volkswagen ID.4 Pro 2027 [Auto+/Luiz Forelli

O próprio BYD Yuan Plus, por exemplo, entrega 378 km pelo Inmetro, ficando apenas 11 km atrás do Volkswagen, apesar de oferecer muito mais potência e tração nas quatro rodas. Também temos o GAC Hyptec HT na opção de entrada de R$ 309.990 que oferece 431 km e mais potência. 

A recarga também melhorou bastante. O modelo antigo aceitava até 135 kW em corrente contínua, enquanto o novo ID.4 chega a 185 kW. Em um carregador rápido de 180 kW, a Volkswagen informa que a bateria pode recuperar de 10% a 80% em aproximadamente 25 minutos. Em corrente alternada, a potência máxima é de 11 kW, permitindo uma recarga completa em torno de oito horas numa wallbox compatível.

Ergonomia digna de Volkswagen

A boa impressão ao volante continua quando começamos a entrar no interior. O ID.4 tem uma ergonomia muito bem resolvida, com bancos dianteiros que oferecem boa amplitude de ajustes e uma coluna de direção que recua bastante. Mesmo com meus 1,88 m, encontrei rapidamente uma posição confortável.

Volkswagen ID.4 2027 estático na cor azul
Volkswagen ID.4 Pro 2027 [Auto+/Luiz Forelli

Também gostei da altura do banco. Apesar de ser um SUV, o ID.4 permite uma posição de dirigir relativamente baixa, típico de VW. Os bancos dianteiros ergoActive contam com ajustes elétricos e memória tanto para o motorista quanto para o passageiro. 

Além disso, oferecem aquecimento,, apoio para as coxas e função de massagem, algo interessante. O único recurso que senti falta foi a ventilação dos assentos, principalmente considerando o preço do SUV e o clima brasileiro. O acabamento também apresenta um bom nível de qualidade e uma construção que passa sensação de solidez. 

A cabine segue uma proposta mais limpa, com poucas peças chamativas e bastante espaço livre no console central. Como a plataforma nasceu para um elétrico, não existe a necessidade de acomodar um túnel de transmissão convencional, o que também favorece os porta-objetos.

A central cresceu, mas o painel continua pequeno

Volkswagen ID.4 2027 interior
Volkswagen ID.4 Pro 2027 [Auto+/Luiz Forelli

A Volkswagen melhorou bastante a parte multimídia do ID.4. A antiga central de 10 polegadas deu lugar a uma tela de 12,9 polegadas, que apresenta boa resolução, respostas rápidas. O sistema oferece navegação integrada, comandos de voz pelo assistente IDA e conexão sem fio para Apple CarPlay e Android Auto.

O volante também voltou a ter botões físicos, uma mudança bem-vinda depois das críticas aos comandos sensíveis ao toque. Já o painel de instrumentos digital continua pequeno, com aproximadamente 5,3 polegadas, instalado diretamente na coluna de direção. Ele apresenta velocidade, autonomia e as informações essenciais de condução, mas oferece pouca personalização quando comparado aos painéis maiores dos Volkswagen nacionais.

O restante da lista de equipamentos é bastante completo. O ID.4 traz ar-condicionado automático de três zonas, teto panorâmico de vidro, iluminação ambiente com 30 cores, carregador de celular por indução e entradas USB-C. Também oferece faróis Matrix LED, câmera 360 graus, sete airbags e um pacote de assistências com piloto automático adaptativo Stop & Go, centralização em faixa, frenagem autônoma de emergência e monitoramento de ponto cego.

Volkswagen ID.4 2027 estático na cor azul
Volkswagen ID.4 Pro 2027 [Auto+/Luiz Forelli

Existe ainda o Park Assist Plus, capaz de realizar manobras de estacionamento, e uma função de memória que permite salvar trajetos curtos para repetir a manobra posteriormente. É uma lista generosa.

Espaço traseiro bom, mas poderia ser maior

O ID.4 mede 4,58 metros de comprimento, 1,85 metro de largura e tem 2,77 metros de entre-eixos. São dimensões próximas às de um SUV médio convencional, mas a arquitetura exclusiva para elétricos permite aproveitar melhor o espaço interno. Atrás, com o banco dianteiro completamente recuado para minha posição de dirigir, ainda sobraram dois dedos entre os joelhos e o encosto da frente.

O porta-malas oferece 533 litros, capacidade muito boa para a categoria e suficiente para acomodar bagagens de uma família sem grandes dificuldades. O piso ainda permite ajustes para organizar melhor o compartimento, mas senti falta de um porta-malas dianteiro, o chamado frunk. 

Veredito

Volkswagen ID.4 2027 estático na cor azul
Volkswagen ID.4 Pro 2027 [Auto+/Luiz Forelli

O Volkswagen ID.4 2027 é um SUV elétrico muito bom e, principalmente, bastante agradável de dirigir. A atualização trouxe a potência que faltava, melhorou o desempenho e ainda acrescentou autonomia e recarga mais rápida. Mas foi o comportamento dinâmico que mais me agradou durante nosso breve contato.

Não é o mais potente da categoria, mas entrega força suficiente e um acerto que muitos concorrentes não trazem. O maior ponto fica mesmo pelo preço de R$ 300 mil praticamente. É um preço pesado diante de um mercado que avança rapidamente, principalmente pela quantidade de SUVs elétricos chineses

E muito deles oferecem mais potência, autonomia igualmente boa ou até maior e uma lista de equipamentos generosa por menos dinheiro. Além disso, o ID.4 começa sua trajetória comercial no Brasil bem quando a Volkswagen já apresentou seu sucessor na Europa, algo que também merece entrar na conta. Ainda assim, o produto convence. 

E você, compraria um Volkswagen ID.4? Deixe seu comentário!

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Luiz Forelli

Jornalista pela Faculdade Cásper Líbero, sempre fascinado por carros. Passava horas dirigindo no colo da família dentro da garagem ou empurrando carrinhos pela casa, como se já soubesse que seu caminho estaria entre motores e rodas. Hoje, realiza o sonho de infância escrevendo sobre o universo automotivo com a mesma empolgação de quem brincava com um volante imaginário. No lugar do sangue, corre gasolina, e isso nunca foi segredo.

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