A demanda por carros elétricos vem obrigando as fabricantes tradicionais a se movimentarem, cada uma da maneira que consegue. A Chevrolet aproveita sua parceria com a SAIC, a Stellantis tem a joint venture com a Leapmotor e a Volkswagen resolveu apostar em um produto que já conhece muito bem. O ID.4, um de seus elétricos mais vendidos no mundo, e o primeiro elétrico que a marca comercializa no país.
Na verdade, o SUV alemão já circulava por aqui desde 2023, mas apenas pelo programa de assinatura VW Sign&Drive, com mensalidades que podiam ultrapassar R$ 6 mil. Agora, importado da Alemanha na versão Pro 2027, o ID.4 custa R$ 299.990, curiosamente o mesmo valor do Tiguan a combustão. Não deixa de fazer sentido, afinal, o elétrico sempre carregou essa imagem de uma espécie de Tiguan movido a bateria.
A questão aparece quando começamos a olhar para os concorrentes. O BYD Yuan Plus AWD, por exemplo, custa R$ 269.990 e entrega 449 cv, 57,1 kgfm e tração integral. São R$ 30 mil de diferença a favor do chinês, que ainda tem números muito mais expressivos de desempenho. Além disso, existem outros elétricos no mercado brasileiro que já oferecem bastante tecnologia e conforto por valores inferiores.

E existe outro ponto curioso nessa estratégia. O ID.4 começou sua trajetória mundial em 2020 e, embora tenha recebido atualizações, já está chegando ao fim do ciclo na Europa. A Volkswagen encerrou sua produção nos Estados Unidos em 2026 e apresentou recentemente o ID. Tiguan, que substituirá os atuais ID.4 e ID.5 no mercado europeu a partir de 2027.
Mais potência e uma boa dose de torque
O ID.4 oferecido anteriormente por assinatura entregava 204 cv e 31,6 kgfm, números que já tinham um desempenho bastante razoável. Agora, o motor elétrico no eixo traseiro desenvolve 286 cv e 55,6 kgfm, um aumento de 82 cv e nada menos que 24 kgfm. A Volkswagen também melhorou a eficiência do conjunto, que continua usando uma transmissão de relação única e movimentando exclusivamente as rodas traseiras.
O ID.4 mantém aquela entrega de torque imediata dos elétricos, sem precisar esperar o motor subir de rotação, mas agora tem muito mais disposição quando o acelerador recebe uma pressão maior. E o legal é que essa força chega de maneira bastante linear, sem deixar o carro arisco ou difícil de dosar.

Nos modos Eco e Normal, o SUV responde com suavidade, embora esteja longe de parecer lento. As saídas de semáforo, retomadas urbanas e mudanças rápidas de faixa acontecem com facilidade, praticamente sem esforço. O acelerador tem uma progressividade muito boa e ajuda a administrar toda aquela força sem ficar movimentando demais a carroceria.
Potência suficiente
Já no Sport, o ID.4 mostra um pouco mais de sua potência. A resposta fica mais imediata e as acelerações começam a provocar aqueles puxões mais fortes que pressionam o corpo contra o banco. Não chega a ser a patada de alguns elétricos chineses mais potentes, mas também não falta disposição.
A Volkswagen diz uma aceleração de 0 a 100 km/h em 6,7 segundos, contra 8,5 segundos da versão antiga, um salto considerável para um SUV que pesa cerca de 2,16 toneladas. Mesmo com toda essa massa, o ID.4 consegue sair da inércia e ganhar velocidade com uma facilidade muito boa.

A bateria representa uma parcela importante do peso, mas a entrega imediata de torque ajuda a disfarçar isso nas acelerações. Nas retomadas, principalmente, a força continua disponível sem qualquer hesitação, fazendo o SUV recuperar velocidade rapidamente para uma ultrapassagem.
É claro que o Yuan Plus AWD, com seus 449 cv, tração integral e 0 a 100 km/h em 3,9 segundos, entrega muito mais desempenho. Só que, durante nosso breve contato, não senti falta de potência no Volkswagen. Os 286 cv já fazem muito bem o trabalho e combinam com a proposta de um SUV. Mas força é sempre interessante, mas separamos o que precisa e o que queremos. Aqui ele responde bem em todas situações praticamente.
Os chineses têm potência, os alemães têm escola
Se muitos fabricantes chineses ainda estão aperfeiçoando a calibração de direção, suspensão e controles, os alemães já trabalham com esse assunto há décadas. E a Volkswagen sempre soube fazer um carro bom de dirigir, mesmo nos modelos mais simples. No ID.4, essa experiência aparece de forma clara. também.

A direção elétrica tem um peso muito bem dosado, independentemente da velocidade, e transmite uma sensação de contato com as rodas dianteiras que ainda falta em muitos elétricos. Não há aquela folga exagerada na região central nem uma assistência artificial que deixa o volante leve demais. Os movimentos são diretos, progressivos e passam uma boa percepção do que acontece entre os pneus e o asfalto.
É uma qualidade que costuma ficar em segundo plano quando comparamos fichas técnicas, principalmente porque os chineses oferecem muita potência por preços competitivos. Só que o ID.4 consegue transmitir uma confiança muito boa logo nos primeiros quilômetros, com respostas previsíveis e uma relação bastante natural entre direção e carroceria.
Assentadinho
A plataforma MEB, desenvolvida especificamente para veículos elétricos, também ajuda nesse comportamento. Como a bateria fica instalada no assoalho, o centro de gravidade é mais baixo do que a altura da carroceria sugere.

Além disso, a tração traseira deixa as rodas dianteiras concentradas no trabalho de esterçar, enquanto o motor traseiro cuida da propulsão. Isso é um ponto bom para dar a sensação de uma direção mais limpa, sem as interferências de torque que podem aparecer em carros elétricos de tração dianteira.
Durante o percurso, conseguimos enfrentar algumas curvas mais acentuadas e o ID.4 apresentou uma inclinação lateral bastante pequena para seu porte. A carroceria acompanha os movimentos do volante sem demora e ele fica bem assentado, mesmo com toda a massa. Não chegamos perto de explorar mais porque o contato foi breve, mas a primeira impressão foi positiva.
Mas é aqui que a tração integral dos rivais poderia acrescentar algo. Num elétrico de potência elevada, distribuir a força entre os dois eixos melhora a capacidade de colocar torque no chão e pode favorecer a motricidade em determinadas condições. Ainda assim, a tração traseira do ID.4 me pareceu muito bem calibrada.
Uma suspensão que sabe controlar o peso

A suspensão também contribui bastante para essa boa impressão. O ID.4 tem McPherson na dianteira e um conjunto independente multilink na traseira, configuração que trabalha muito bem com o centro de gravidade baixo e a distribuição de massa da plataforma elétrica.
O acerto segue aquela característica que gosto nos Volkswagen. A suspensão é um pouco mais firme, mas não chega a ser seca, enquanto os amortecedores conseguem absorver as irregularidades sem deixar a carroceria balançando por tempo demais. Ela comprime, acomoda o impacto e retorna de maneira controlada, deixando o chassi bem assentado mesmo quando aparecem ondulações em sequência.
Passamos por alguns buracos e emendas durante o trajeto, suficientes para perceber um bom trabalho de absorção. O curso da suspensão parece generoso e, nas irregularidades que enfrentamos, não houve sinais de fim de curso ou pancadas secas. Ainda precisamos conviver mais tempo com o ID.4 para entender seu comportamento.

E é nesse assunto também que a sua diferença com muitos chineses aparecem. Muitos melhoraram bastante nos últimos anos, mas ainda encontramos modelos com suspensão excessivamente macia, que absorve bem o primeiro impacto e demora a controlar o movimento da carroceria. O Volkswagen oferece um conforto muito bom sem perder essa firmeza, o que ajuda tanto nas curvas quanto na estabilidade.
A autonomia melhorou, mas os chineses já avançaram bastante
A atualização mecânica também trouxe uma bateria maior. O ID.4 passou dos antigos 77 kWh para 84 kWh de capacidade bruta, dos quais aproximadamente 79 kWh ficam disponíveis para o uso. Com isso, a autonomia homologada pelo Inmetro aumentou de 370 para 389 km, um ganho de 19 km em relação ao modelo oferecido anteriormente por assinatura.
É uma autonomia razoável para um SUV elétrico desse porte, principalmente considerando a potência e o peso acima de duas toneladas. A Volkswagen também trabalhou na eficiência do motor e do gerenciamento eletrônico, ajudando a compensar o aumento de potência sem comprometer o alcance. Ainda assim, os 389 km não chegam a ser uma vantagem tão grande diante dos concorrentes.

O próprio BYD Yuan Plus, por exemplo, entrega 378 km pelo Inmetro, ficando apenas 11 km atrás do Volkswagen, apesar de oferecer muito mais potência e tração nas quatro rodas. Também temos o GAC Hyptec HT na opção de entrada de R$ 309.990 que oferece 431 km e mais potência.
A recarga também melhorou bastante. O modelo antigo aceitava até 135 kW em corrente contínua, enquanto o novo ID.4 chega a 185 kW. Em um carregador rápido de 180 kW, a Volkswagen informa que a bateria pode recuperar de 10% a 80% em aproximadamente 25 minutos. Em corrente alternada, a potência máxima é de 11 kW, permitindo uma recarga completa em torno de oito horas numa wallbox compatível.
Ergonomia digna de Volkswagen
A boa impressão ao volante continua quando começamos a entrar no interior. O ID.4 tem uma ergonomia muito bem resolvida, com bancos dianteiros que oferecem boa amplitude de ajustes e uma coluna de direção que recua bastante. Mesmo com meus 1,88 m, encontrei rapidamente uma posição confortável.

Também gostei da altura do banco. Apesar de ser um SUV, o ID.4 permite uma posição de dirigir relativamente baixa, típico de VW. Os bancos dianteiros ergoActive contam com ajustes elétricos e memória tanto para o motorista quanto para o passageiro.
Além disso, oferecem aquecimento,, apoio para as coxas e função de massagem, algo interessante. O único recurso que senti falta foi a ventilação dos assentos, principalmente considerando o preço do SUV e o clima brasileiro. O acabamento também apresenta um bom nível de qualidade e uma construção que passa sensação de solidez.
A cabine segue uma proposta mais limpa, com poucas peças chamativas e bastante espaço livre no console central. Como a plataforma nasceu para um elétrico, não existe a necessidade de acomodar um túnel de transmissão convencional, o que também favorece os porta-objetos.
A central cresceu, mas o painel continua pequeno

A Volkswagen melhorou bastante a parte multimídia do ID.4. A antiga central de 10 polegadas deu lugar a uma tela de 12,9 polegadas, que apresenta boa resolução, respostas rápidas. O sistema oferece navegação integrada, comandos de voz pelo assistente IDA e conexão sem fio para Apple CarPlay e Android Auto.
O volante também voltou a ter botões físicos, uma mudança bem-vinda depois das críticas aos comandos sensíveis ao toque. Já o painel de instrumentos digital continua pequeno, com aproximadamente 5,3 polegadas, instalado diretamente na coluna de direção. Ele apresenta velocidade, autonomia e as informações essenciais de condução, mas oferece pouca personalização quando comparado aos painéis maiores dos Volkswagen nacionais.
O restante da lista de equipamentos é bastante completo. O ID.4 traz ar-condicionado automático de três zonas, teto panorâmico de vidro, iluminação ambiente com 30 cores, carregador de celular por indução e entradas USB-C. Também oferece faróis Matrix LED, câmera 360 graus, sete airbags e um pacote de assistências com piloto automático adaptativo Stop & Go, centralização em faixa, frenagem autônoma de emergência e monitoramento de ponto cego.

Existe ainda o Park Assist Plus, capaz de realizar manobras de estacionamento, e uma função de memória que permite salvar trajetos curtos para repetir a manobra posteriormente. É uma lista generosa.
Espaço traseiro bom, mas poderia ser maior
O ID.4 mede 4,58 metros de comprimento, 1,85 metro de largura e tem 2,77 metros de entre-eixos. São dimensões próximas às de um SUV médio convencional, mas a arquitetura exclusiva para elétricos permite aproveitar melhor o espaço interno. Atrás, com o banco dianteiro completamente recuado para minha posição de dirigir, ainda sobraram dois dedos entre os joelhos e o encosto da frente.
O porta-malas oferece 533 litros, capacidade muito boa para a categoria e suficiente para acomodar bagagens de uma família sem grandes dificuldades. O piso ainda permite ajustes para organizar melhor o compartimento, mas senti falta de um porta-malas dianteiro, o chamado frunk.
Veredito

O Volkswagen ID.4 2027 é um SUV elétrico muito bom e, principalmente, bastante agradável de dirigir. A atualização trouxe a potência que faltava, melhorou o desempenho e ainda acrescentou autonomia e recarga mais rápida. Mas foi o comportamento dinâmico que mais me agradou durante nosso breve contato.
Não é o mais potente da categoria, mas entrega força suficiente e um acerto que muitos concorrentes não trazem. O maior ponto fica mesmo pelo preço de R$ 300 mil praticamente. É um preço pesado diante de um mercado que avança rapidamente, principalmente pela quantidade de SUVs elétricos chineses
E muito deles oferecem mais potência, autonomia igualmente boa ou até maior e uma lista de equipamentos generosa por menos dinheiro. Além disso, o ID.4 começa sua trajetória comercial no Brasil bem quando a Volkswagen já apresentou seu sucessor na Europa, algo que também merece entrar na conta. Ainda assim, o produto convence.
E você, compraria um Volkswagen ID.4? Deixe seu comentário!


