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Omoda & Jaecoo terá que mudar motores por culpa da péssima gasolina do Brasil

Marca do grupo Chery terá que mudar motores híbridos para lidar com etanol, gasolina E30 e problemas no mercado brasileiro

7 min de leitura

O Brasil sempre foi um dos mercados mais complicados do mundo para desenvolver motores. Ao mesmo tempo que temos uma das soluções mais interessantes, o etanol, também obriga as montadoras a criarem tecnologias exclusivas para sobreviver por aqui. E a Omoda & Jaecoo já corre atrás para implementar motores exclusivos ao Brasil para o Omoda 4, Omoda 5, Jaecoo 5 e Jaecoo 7

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Isso porque o combustível brasileiro é completamente diferente do encontrado em grande parte do mundo. E não estamos falando somente do etanol puro, mas também da própria gasolina vendida nos postos. Hoje, a gasolina brasileira já trabalha oficialmente com 30% de etanol anidro misturado, o chamado E30. 

Além disso, já existem discussões para aumentar ainda mais essa proporção. Ou seja, mesmo quem abastece na gasolina, na prática,  roda com uma mistura muito diferente da encontrada na Europa, China ou Estados Unidos. E é justamente aí que muitas fabricantes chinesas começaram a encontrar dificuldades para adaptar seus motores globais ao Brasil.

Chery Tiggo 7 2027 prata de frente
Chery Tiggo 7 [divulgação]

O Auto+ esteve dentro do centro de pesquisa e desenvolvimento da Chery, em Wuhu, na China, onde conversamos longamente com o Dr. Yunfei Luan, diretor e chefe de powertrain da Chery Internacional. Durante a entrevista, o executivo praticamente abriu o jogo sobre as mudanças que a Omoda & Jaecoo fará nos seus motores para sobreviver ao nosso combustível.

O etanol é excelente, mas também tem seus desafios

Antes de tudo, precisamos entender que o etanol não é um vilão. Pelo contrário. O combustível derivado da cana-de-açúcar é uma das maiores vantagens do Brasil na indústria automotiva. Ele reduz emissões, possui origem renovável e permite até trabalhar com taxas de compressão mais altas nos motores.

Dr. Luan explicou isso durante a conversa e detalhou o motivo.

“O álcool funciona melhor com taxa de compressão alta. É por isso que carros de corrida às vezes usam álcool. O efeito de resfriamento do álcool, quando ele evapora, absorve calor. Isso torna o motor menos propenso a ter problema de detonação.”

Na prática do dia a dia, isso significa que o etanol ajuda o motor a trabalhar de forma mais eficiente e menos suscetível à pré-ignição. Por outro lado, o etanol também precisa de diversas adaptações. O combustível tem características mais corrosivas, também absorve mais umidade e trabalha de maneira diferente da gasolina durante partidas a frio.

Omoda 7 PHEV prata visto de lado
Omoda 7 PHEV [Auto+/ Felipe Yamauchi]

Por isso, os carros flex sempre tiveram soluções específicas. Muitos brasileiros cresceram ouvindo aquela velha recomendação de alternar entre gasolina e etanol para limpar o sistema. 

Mesmo que isso seja muito mais complexo tecnicamente, a lógica surgiu justamente das características diferentes dos combustíveis. E a própria Chery admite que adaptar um motor para o nosso mercado não é simples.

“Para nós, o flex fuel é mais desafiador. Mas estamos trabalhando nisso”, comentou Dr. Luan.

Gasolina brasileira também virou um problema

Além do etanol puro, outra questão que vem preocupando as montadoras é a gasolina que mudou muito nos últimos anos. Hoje, praticamente não existe mais gasolina pura no Brasil.  O combustível recebe uma grande mistura de etanol anidro, o que muda muito o comportamento térmico, químico e até a durabilidade de componentes internos do motor.

Motor 1.5 turbo Omoda & Jaecoo para 2027
Motor 1.5 turbo Omoda & Jaecoo para 2027 [Auto+/Luiz Forelli]

Isso afeta especialmente carros antigos, importados e motores desenvolvidos globalmente, principalmente os chineses, europeus e alguns japoneses, que originalmente não nasceram pensando em trabalhar com níveis tão altos de álcool. Por isso, muitas fabricantes estão reformulando completamente seus propulsores para o Brasil. E a Omoda & Jaecoo será uma delas.

Omoda & Jaecoo vai abandonar a injeção direta nos híbridos flex

Durante a conversa em Wuhu, o Dr. Yunfei Luan confirmou que a nova geração dos motores híbridos flex da marca abandonará a injeção direta de combustível para o nosso mercado.  Hoje, modelos como o Omoda 5 e o Jaecoo 7 utilizam motores 1.5 turbo com injeção direta. Porém, isso vai mudar quando os conjuntos flex começarem a ser produzidos no Brasil. 

“Nós temos no Brasil atualmente o motor híbrido com injeção direta. Este novo propulsor tem turbo, mas não tem injeção direta. Então reduzimos um pouco o custo”, disse o executivo.

Depois, Dr. Luan comenta a mudança:

“Sem injeção direta neste aqui, mantemos o custo de produção mais baixo. E, especialmente se estamos trabalhando com álcool, a probabilidade de detonação é menor”, explica. 

Por que a injeção direta pode ser um problema no Brasil?

motor jaecoo 7 PHEV
Jaecoo 7 Prestige [Auto+ / João Brigato]

Durante muitos anos e até hoje em dia, a injeção direta é símbolo de modernidade, e com razão. Nesse método, o combustível é jogado diretamente dentro da câmara de combustão, sob pressão extremamente alta. Isso melhora eficiência, consumo, emissões e até desempenho.

Todavia, o problema é justamente a forma como esse sistema trabalha diante o nosso péssimo combustível. No caso da injeção direta, o combustível não passa pelas válvulas de admissão. Ou seja, ele não faz o chamado efeito de lavagem na parte superior do motor.

Omoda 5 Prestige [Auto+ / João Brigato]

Em mercados com combustível extremamente limpo e controlado, isso raramente é um problema. Porém, em locais com combustível ruim, no caso com muita mistura de etanol, que é agressivo para os metais, e uso severo, a situação muda.

Sem essa lavagem constante, o motor pode acumular carbonização e borra na admissão ao longo do tempo. Ademais, o sistema trabalha com pressões muito mais altas e componentes extremamente sensíveis, o que aumenta custo, complexidade e até necessidade de manutenção.

Jaecoo 5 estático preto na grama
Jaecoo 5 [Luiz Forelli/Auto+]

E o Brasil é um dos lugares mais severos possíveis para esse tipo de aplicação. Por isso, a lógica da Omoda & Jaecoo, explicada pelo Dr. Yunfei Luan, faz sentido.

Injeção indireta é a melhor solução e Omoda & Jaecoo vai usar

Ao deixar de lado a injeção direta, a fabricante chinesa passa a utilizar a injeção indireta nos novos motores híbridos flex produzidos para o Brasil. Nesse caso, o combustível volta a ser pulverizado antes das válvulas de admissão, ajudando justamente nesse efeito de limpeza interna do motor.

Omoda 4 Azul de frente
Omoda 4 [Auto+ / Luiz Forelli]

Além disso, o sistema trabalha com pressões menores, componentes menos complexos e menor custo de desenvolvimento. Desta forma, a marca percebeu que fazia mais sentido criar um conjunto híbrido flex mais robusto, simples e adaptado ao combustível brasileiro do que insistir em uma solução global pensada para outros mercados.

As alterações não param na troca da injeção. Durante a entrevista, o Dr. também explicou que o sistema flex meio que obriga mudanças em injetores, aquecimento e gerenciamento na eletrônica, além de detalhar o funcionamento da partida a frio. 

“Você tem um injetor diferente e precisa garantir que o sistema de combustível consiga se adaptar a 100% álcool. E existe um sistema de aquecimento, porque o álcool, na partida a frio, evapora um pouco mais devagar que a gasolina. Então o que você quer é um sistema de aquecimento nos primeiros segundos”, explicou

Brasil muda o desenvolvimento global das montadoras

O que vimos aqui é a Omoda & Jaecoo, porém diversas montadoras estão correndo atrás da tecnologia flex, que atualmente, entre os híbridos, só a Toyota consegue. Ou seja, o interessante é ver que o Brasil deixou de ser apenas um mercado consumidor e passou a influenciar diretamente o desenvolvimento global da fabricante.

Motor do Jaecoo 7 Elite
Jaecoo 7 Elite [Auto+ / Rafael Pocci Déa]

A própria Chery admite que os futuros carros da Omoda & Jaecoo praticamente nascerão flex para sobreviver por aqui. E isso ajuda a entendermos também por que tantas fabricantes chinesas estão correndo atrás de engenharia local, fábrica nacional de desenvolvimento específico para o nosso combustível.

E você, acha que as fabricantes chinesas finalmente entenderam como funciona o mercado brasileiro? Deixe seu comentário!

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Luiz Forelli

Jornalista pela Faculdade Cásper Líbero, sempre fascinado por carros. Passava horas dirigindo no colo da família dentro da garagem ou empurrando carrinhos pela casa, como se já soubesse que seu caminho estaria entre motores e rodas. Hoje, realiza o sonho de infância escrevendo sobre o universo automotivo com a mesma empolgação de quem brincava com um volante imaginário. No lugar do sangue, corre gasolina, e isso nunca foi segredo.

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