Ao vivo
Home » Avaliação » Leapmotor B10 é seu tio preferido, mas que faz a piada do pavê | Avaliação

Avaliação

É pavê ou pacumê?

Leapmotor B10 é seu tio preferido, mas que faz a piada do pavê | Avaliação

Na tentativa de reinventar a roda, a Leapmotor estragou a convivência com o B10, demonstrando erros não esperados de um Stellantis

10 min de leitura

Sabe aquele seu tio de quem você gosta muito, que é gente boa e prestativo, mas insiste em fazer piadas do pavê? A materialização desse tipo de pessoa em um automóvel é, certamente, o Leapmotor B10. Um carro que tinha tudo para ser excelente, mas cuja tentativa de reinventar a roda o torna irritante no uso diário.

Youtube video

Parte do grupo Stellantis, a Leapmotor é uma marca muito nova. Nenhum de seus carros passou por reestilização ou ganhou segunda geração até agora. A fabricante surgiu em 2015 e lançou seu primeiro carro apenas em 2021. O lineup atual é formado, majoritariamente, por modelos lançados entre 2023 e 2025. O B10 que testamos nasceu em outubro de 2024 e começou a ser vendido no Brasil neste ano.

Oferecido em versão única por R$ 182.990, ele custa o equivalente a um SUV compacto intermediário, mas entrega espaço digno de muito SUV médio, além de ser totalmente elétrico. São atributos que, na teoria, o transformariam em uma compra certeira. Só que o pouco tempo de estrada da Leapmotor pesou no desenvolvimento do carro.

Leapmotor B10 cinza de traseira
Leapmotor B10 [Auto+ / João Brigato]

Divertido no modo certo

Totalmente elétrico, o Leapmotor B10 conta com motor traseiro de 218 cv e 24,5 kgfm de torque. Ou seja, um torque semelhante ao do motor 1.4 TSI da Volkswagen, mas com muito mais potência do que qualquer SUV compacto a combustão vendido hoje no Brasil. Como resultado, o B10 é bastante ágil.

Ele tem retomadas rápidas e acelera sem hesitar, mesmo em estrada, quando precisa ganhar velocidade novamente. A instantaneidade do motor elétrico faz esse SUV ter o mesmo ímpeto de um hatch compacto. Só que isso depende diretamente do modo de condução selecionado.

frunk leapmotor b10
Leapmotor B10 [Auto+ / João Brigato]

A Leap colocou três modos diferentes de resposta do acelerador. Porém, toda vez que você desliga o B10, ele retorna automaticamente ao modo conforto. Não importa se você salvou outra configuração na central, o carro simplesmente te ignora. O mesmo acontece com a força de regeneração do motor elétrico ao tirar o pé do acelerador.

Como consequência, o modo conforto exige que o motorista pressione muito mais o acelerador para obter a mesma resposta. Em uma subida, se você não afundar o pé, ele simplesmente não anda, passando a sensação de ser um carro fraco, mesmo não sendo. No modo normal, essa impressão desaparece.

Leapmotor B10 cinza de frente
Leapmotor B10 [Auto+ / João Brigato]

Felizmente, existe uma forma de restaurar rapidamente suas configurações preferidas. Basta apertar duas vezes o botão esquerdo do volante e o B10 ajusta regeneração e acelerador para a seleção anterior. Só que, sempre que isso acontece, a música é pausada. E você precisa repetir esse processo toda vez que destranca o carro.

Mundo real versus mundo do Inmetro

Segundo dados do Inmetro, o Leapmotor B10 roda apenas 288 km com uma carga completa. Entretanto, durante nossos testes, conseguimos percorrer 400 km com a bateria cheia. O gerenciamento energético do SUV é muito eficiente, especialmente na estrada, onde ele aproveita bem momentos de inércia para economizar carga.

Leapmotor B10 cinza de traseira
Leapmotor B10 [Auto+ / João Brigato]

São 56,2 kWh de bateria, com capacidade de recarga de até 140 kW. Como resultado, ele leva 16 minutos para ir de 30% a 80% em um carregador compatível com sua potência máxima. Já em wallbox ou tomada AC de 11 kW, o processo completo de 0% a 100% leva 6h48.

Acerto Stellantis

Se na parte de software ainda existe muita influência da Leapmotor sem interferência da Stellantis, na dinâmica ficou claro que a engenharia de Betim colocou as mãos no B10. Ele é muito agradável de dirigir e transmite segurança. A suspensão tem comportamento neutro, sem exagerar na maciez molenga típica estilo pudim de alguns carros chineses.

Leapmotor B10 [Auto+ / João Brigato]
Leapmotor B10 [Auto+ / João Brigato]

Ao mesmo tempo, ela não é firme demais a ponto de transformar o Leap em um SUV esportivo. O resultado é uma dirigibilidade equilibrada, muito próxima do padrão da Fiat. A carroceria também transmite robustez. Mesmo com o enorme teto panorâmico, ela não torce nem produz rangidos, demonstrando boa montagem.

A direção segue a mesma lógica. Ela é precisa, leve o suficiente para manobras urbanas e firme na medida certa para transmitir estabilidade em alta velocidade. Na estrada, o Leapmotor B10 se mantém exemplarmente equilibrado.

Leapmotor B10 [Auto+ / João Brigato]
Leapmotor B10 [Auto+ / João Brigato]

Entretanto, assim como acontece nos Fiat e Jeep, o sistema de manutenção em faixa do B10 também incomoda bastante. Mesmo com a centralização de faixa ativada, ele não admite aproximação das linhas da pista. O carro dispara alertas exagerados e corrige o volante de maneira brusca. Em contrapartida, o ACC funciona muito bem.

A infernal chave

Certamente, o ponto mais irritante do Leapmotor B10 é entrar e sair do SUV. A chave tradicional deu lugar a um cartão semelhante ao do banco. Para destravar o carro, é preciso encostá-lo no retrovisor. Só que, na chuva, o sistema perde sensibilidade. Além disso, o carro testado, com menos de 2 mil km rodados, já tinha a peça riscada.

Leapmotor B10 [Auto+ / João Brigato]
Leapmotor B10 [Auto+ / João Brigato]

Depois disso, começa outro problema: abrir a maçaneta. Quem tem mãos grandes consegue operá-la sozinho, mas pessoas menores precisam usar as duas mãos. Ao abrir a porta, o carro inexplicavelmente aciona a seta. Depois, já sentado no banco, você precisa colocar o cartão sobre o carregador por indução e pisar no freio.

O problema é que, se o cartão não estiver exatamente na posição que o sistema exige, o carro não liga. Agora imagine repetir todo esse ritual em uma rua perigosa, à noite e debaixo de chuva. Passei exatamente por essa situação e a experiência e não foi agradável. Sem exagero, uma chave presencial tradicional e maçanetas normais resolveriam toda essa desnecessária complicação.

Leapmotor B10 [Auto+ / João Brigato]
Leapmotor B10 [Auto+ / João Brigato]

Existem maneiras mais simples de controlar o B10, como aplicativo no celular ou senha digitada na central multimídia. Só que, se você deixar o carro com um manobrista, vai entregar seu celular ou sua senha para ele? Evidentemente não.

Sensações diferentes

Por dentro, o Leapmotor B10 apresenta montagem muito boa, com peças sólidas e bem encaixadas. Tudo parece firme e revestido em couro artificial ou plástico texturizado. Não é um acabamento ruim, longe disso, mas os materiais passam sensação inferior ao que vemos em outros carros chineses.

interior Leapmotor B10 [Auto+ / João Brigato]
interior Leapmotor B10 [Auto+ / João Brigato]

Como a proposta do B10 é custar na faixa de SUVs compactos, muita gente provavelmente nem perceberá isso. Ainda assim, os revestimentos claramente ficam abaixo do padrão usado por Jeep e Fiat. Em compensação, as telas são excelentes. O painel de instrumentos fica fixo na coluna de direção, melhorando bastante a visualização.

Ele oferece ótima qualidade de imagem, muitos recursos e interface fácil de usar. O mesmo vale para a central multimídia, que traz Android Auto e Apple CarPlay sem fio. A Leap também colocou vários comandos importantes diretamente na tela, organizados em menus claros.

O problema aparece novamente na ergonomia. Os comandos dos vidros elétricos ficam invertidos em relação ao padrão mais comum. Além disso, para ajustar os retrovisores, é preciso entrar em um menu da central e depois usar os botões do volante, algo praticamente impossível enquanto dirige.

Além disso, o botão do pisca-alerta fica no teto e o destravamento das portas foi parar no volante, algo difícil de aceitar. Como acontece em muitos carros chineses, o ar-condicionado é controlado pela central multimídia, mas ao menos fica em um menu fixo na parte inferior da tela, facilitando o uso.

Espaço para gente grande

O aproveitamento interno do B10 impressiona. O modelo conta com bolsões enormes nas portas, além de um console central gigante, dividido entre áreas cobertas e descobertas. No painel, existem nichos para decoração que, se fossem fechados, poderiam funcionar como ótimos porta-objetos.

Atrás, o espaço é extremamente generoso. O piso plano ajuda bastante e sobra área para pernas e cabeça em um nível que apenas minivans do mesmo porte conseguem igualar. O porta-malas leva 365 litros e traz um tampão que cobre apenas três quartos da área visível. Além disso, ele não possui limpador traseiro, o que é uma baita mancada.

porta-malas leapmotor b10
porta-malas leapmotor b10

Itens de série

  • Ar-condicionado digital de uma zona
  • Câmera 360 graus
  • Teto panorâmico fixo
  • Faróis com acendimento automático
  • Luz de neblina traseira
  • Frenagem autônoma de emergência
  • Alerta de manutenção em faixa
  • Sistema de centralização em faixa
  • Internet a bordo
  • Android Auto e Apple CarPlay sem fio
  • Alerta de tráfego cruzado
  • Piloto automático adaptativo
  • Freios a disco nas quatro rodas
  • Alerta de ponto cego
  • Monitoramento de pressão dos pneus
  • Controle de tração e estabilidade
  • Assistente de farol alto
  • Alerta de saída segura
  • Retrovisores elétricos com aquecimento
  • Vidros elétricos nas quatro portas com acionamento por um toque
  • Rodas de liga-leve de 18 polegadas
  • Detector de fadiga

Veredicto

Leapmotor B10 [Auto+ / João Brigato]
Leapmotor B10 [Auto+ / João Brigato]

Lembra do tio do pavê que falei no começo do texto? É o Leapmotor B10. Não tem como não gostar dele, mas depois de um tempo, você vai se irritar. No que a Stellantis conseguiu interferir, o Leapmotor B10 é um carro bom. Ele é agradável de dirigir, tem suspensão e direção bem calibradas, autonomia coerente, além de desempenho ágil. Custando R$ 182.990, ainda entrega excelente custo-benefício.

Só que a Leap tentou reinventar a roda em vários aspectos. Em vez de facilitar a vida do motorista, adotou soluções que continuam chatas mesmo depois de um período de adaptação. Na tentativa de ser diferente demais, o B10 acabou transformando a convivência diária em algo cansativo e apagando boa parte das qualidades de um produto que tinha muito potencial.

Leapmotor B10 [Auto+ / João Brigato]
Leapmotor B10 [Auto+ / João Brigato]

Se a Leapmotor ouvir mais a Stellantis, que tem quase 100 anos de experiência produzindo carros, as próximas gerações certamente serão melhores. O ponto de partida é bom, mas ainda parece cedo para apostar em um SUV que se entende mais como smartphone do que automóvel. Principalmente em um mercado cheio de alternativas competentes.

Ficha técnica

  • Motor elétrico traseiro
  • 218 cv e 24,5 kgfm
  • 0 a 100 km/h: 8 segundos
  • Autonomia no ciclo Inmetro: 288 km
  • Medidas: 4,51 m de comprimento / 1,88 m de largura / 1,67 m de altura / 2,73 m de entre-eixos
  • Altura do solo: 18,5 cm
  • Porta-malas: 365 litros
  • Peso: 1.780 kg

Você teria um Leapmotor B10? Conte nos comentários.

Deixe um comentário

João Brigato

Formado em jornalismo e design de produto, é apaixonado por carros desde que aprendeu a falar e andar. Tentou ser designer automotivo, mas percebeu que a comunicação e o jornalismo eram sua verdadeira paixão. Dono de um Jeep Renegade Sem Nome, até hoje se arrepende de ter vendido seu Volkswagen up! TSI.

Você também poderá gostar