Nem sempre um carro vendido por muitos anos no Brasil saiu de uma fábrica brasileira. Em diversos casos, o sucesso foi tão grande e a presença nas ruas é tão comum que muita gente passou a acreditar que determinados modelos eram nacionais. Todavia, eles cruzavam a fronteira antes mesmo de chegar às concessionárias.
Isso aconteceu por diferentes motivos. Em alguns casos, as montadoras aproveitaram acordos comerciais entre Brasil, Argentina e México. Em outros, concentraram a produção em apenas uma fábrica para abastecer toda a América Latina e reduzir custos.
Pensando nisso, o Auto+ separou cinco carros que muitos brasileiros juravam ser nacionais, mas que sempre chegaram importados ou tiveram apenas uma breve passagem pelas linhas de montagem do país.
Ford Focus

Poucos carros marcaram tanto o segmento dos médios quanto o Ford Focus. Desde sua estreia, no segundo semestre de 2000, o hatch e o sedan chamaram atenção pelo comportamento dinâmico, pelo visual moderno e pela dirigibilidade acima da média.
Mesmo assim, nenhuma das três primeiras gerações saiu de uma fábrica brasileira. Durante toda sua trajetória, o Focus foi produzido em General Pacheco, na Argentina, e de lá seguia para as concessionárias brasileiras. Na época, muita gente acreditava que ele era nacional. Afinal, o modelo figurava entre os médios mais vendidos do país e dividia espaço com Fiesta, EcoSport e Ka, todos fabricados no Brasil.

O Focus chegou justamente para substituir o envelhecido Escort e foi muito bem dentro do seu segmento. E embora ele fosse produzido na Argentina, os motores eram feitos no Brasil, mais especificamente em Taubaté (SP), como o 1.6 Zetec Rocam.
Depois disso, os propulsores cruzavam a fronteira rumo à fábrica de General Pacheco, onde eram instalados. Só então o carro voltava ao Brasil completamente montado para abastecer as concessionárias.
![Ford Focus [divulgação]](https://www.automaistv.com.br/wp-content/uploads/2024/04/ford_focus_3-door_40_edited.jpg)
Pode parecer uma logística complicada, mas ela fazia sentido. Graças ao acordo automotivo do Mercosul, Brasil e Argentina podiam trocar veículos e componentes sem pagar o imposto de importação de 35%, desde que respeitassem o equilíbrio comercial entre os dois países.
Chevrolet Tracker

Outro carro que muita gente jurava ser nacional era o Chevrolet Tracker, mas das gerações anteriores. Durante muitos anos, a General Motors teve participação na Suzuki e utilizou diversos projetos da fabricante japonesa em mercados onde sua rede de concessionárias era mais forte.
Foi exatamente isso que aconteceu com o primeiro Tracker vendido no Brasil. Na verdade, ele era um Suzuki Grand Vitara com outro emblema na grade. A produção acontecia em Rosário, na Argentina, enquanto a Suzuki vendia o mesmo veículo nas suas concessionárias brasileiras com o nome Grand Vitara.

Anos depois, porém, o SUV mudou completamente. A segunda geração abandonou o DNA de jipe com tração reduzida para se transformar em um SUV urbano baseado na plataforma do Opel Mokka europeu e do Chevrolet Sonic. Dessa vez, o modelo deixou a Argentina para nascer no México.
Na época, Brasil e México também tinham um acordo comercial que permitia importar veículos sem a cobrança do imposto de 35%. Assim, a Chevrolet conseguia vender o Tracker por um preço competitivo e brigar diretamente com o Ford EcoSport, produzido em Camaçari (BA). Entretanto, a terceira geração que conhecemos vem da planta de São Caetano do Sul (SP).
Volkswagen Jetta

Quando o assunto é sedan médio, muita gente acredita que o Volkswagen Jetta flex foi produzido no Brasil. E isso realmente aconteceu. Porém, existe uma exceção que quase passou despercebida.
Entre 2015 e 2016, a Volkswagen montou o Jetta na fábrica Anchieta, em São Bernardo do Campo (SP). Apesar disso, ele não era totalmente nacional.A fabricante utilizava o regime SKD como a BYD faz atualmente. Ou seja, a carroceria já chegava pronta e pintada do México.

No Brasil, a fábrica instalava motor, suspensão, transmissão, painel e diversos componentes antes da entrega final. Além disso, apenas as versões Trendline e Comfortline, equipadas com o motor 1.4 TSI de 150 cv, participaram dessa operação.
Enquanto isso, o esportivo Highline, equipado com o 2.0 TSI de 211 cv, continuou vindo totalmente pronto da fábrica de Puebla, no México. Naquele momento, a Volkswagen precisava contornar as cotas do acordo automotivo entre Brasil e México e aumentar a oferta do sedan médio. Entretanto, o crescimento dos SUVs reduziu a procura pelos sedans e fez a operação perder sentido.

No fim de 2016, a montagem brasileira terminou. Desde a chegada da sétima geração, em 2018, o Jetta voltou a ser exclusivamente importado do México.
Fiat Cronos

O Fiat Cronos também entra facilmente nessa lista. Afinal, ele divide plataforma, motores e praticamente toda a estrutura com o Argo, produzido em Betim (MG). Por isso, muita gente acredita que os dois saem da mesma fábrica.
Mas não é isso que acontece. Desde o lançamento, em 2018, o sedan sempre foi produzido em Córdoba, na Argentina. A decisão da Fiat, hoje parte da Stellantis, teve muito mais relação com estratégia industrial do que propriamente com o carro.

Assim, enquanto Betim continuou responsável por modelos de grande volume, como Argo, Mobi, Strada e Fiorino, além dos motores Firefly, a fábrica argentina passou a concentrar os sedans da marca.
A escolha também ajudou a manter a unidade de Ferreyra operando em alta capacidade. Depois do fim de modelos como Palio e Siena, a planta precisava de um novo produto para justificar os investimentos realizados na modernização da fábrica.

Por isso, a Fiat investiu cerca de US$ 500 milhões para adaptar a unidade argentina à plataforma utilizada pelo Cronos. Além da questão industrial, outro fator pesou bastante nessa decisão. Graças ao acordo automotivo entre Brasil e Argentina, o Cronos pode cruzar a fronteira sem pagar o imposto de importação de 35%, desde que as regras do tratado comercial sejam respeitadas.
Nissan Versa
![Nissan Versa 2024 [divulgação]](https://www.automaistv.com.br/wp-content/uploads/2023/09/nissan_versa_sr_58-1200x719.jpeg)
O Nissan Versa também costuma enganar muita gente. Embora o sedan atualmente seja importado do México, ele já teve uma fase nacional. Quando desembarcou no Brasil, em 2011, o modelo vinha justamente das linhas de montagem mexicanas.
Porém, quatro anos depois, a Nissan nacionalizou a primeira geração e iniciou sua fabricação no Complexo Industrial de Resende (RJ), ao lado do March. Essa operação durou até a chegada da nova geração.
![Nissan Versa 2024 [divulgação]](https://www.automaistv.com.br/wp-content/uploads/2023/09/nissan_versa_sr_90-1200x719.jpeg)
Em 2020, o Versa totalmente renovado voltou a ser importado do México. Enquanto isso, o antigo modelo brasileiro permaneceu em produção com um novo nome: V-Drive. A estratégia permitiu então que a Nissan vendesse dois sedans ao mesmo tempo. De um lado, o Versa mais moderno. Do outro, o V-Drive atendendo quem buscava um carro mais acessível.
Essa convivência terminou em setembro de 2021, quando o V-Drive saiu de linha para liberar capacidade produtiva na fábrica fluminense. A partir daquele momento, a Nissan passou a concentrar seus esforços na produção do Kicks.
![Nissan Versa SR 2025 [divulgação]](https://www.automaistv.com.br/wp-content/uploads/2024/05/PSX_20240520_151946-1320x793.jpg)
Além disso, o atual motor 1.6 16V flex do Versa não sai do Brasil. Apesar de a tecnologia ter sido desenvolvida pela engenharia brasileira, o propulsor é produzido na fábrica de Aguascalientes, no México, e já chega instalado no sedan.
Você já sabia que esses cinco carros eram importados ou algum deles também te enganou durante anos? Deixe seu comentário!


