Existe o picapeiro raiz e quem descobriu que há vida além do SUV. Compacta, média ou full size, elas oferecem versatilidade, seja em transportar objetos volumosos, mais carga ou não tomar conhecimento dos buracos na cidade ou adversidades no fora de estrada. Cada uma na sua, mas com muito em comum, como a construção de carroceria sobre chassi, Chevrolet S10, Mitsubishi Triton e Toyota Hilux entregam o que esse público exige.
São três veteranas em nosso mercado com uma clientela fiel. Essa, inclusive, é uma característica do público picapeiro: uma vez fidelizado, dificilmente aceita mudar, mesmo que haja um produto concorrente superior. Não basta isso; é preciso mostrar vantagem no consumo, no torque disponível e no custo de manutenção.
Chevrolet, Mitsubishi e Toyota possuem uma trajetória de utilitários no Brasil. Da Chevrolet S10, passando pela Mitsubishi L200, que abriu mão da sigla alfanumérica para virar apenas Triton, até a Toyota Hilux, a história dessa tríade começou nos anos 1990 e consolidou uma base sólida do que hoje entendemos por caminhonetes médias no país.

Antigamente menores, as três cresceram, assumindo uma pegada de full size. Em 1996, por exemplo, a Chevrolet S10 cabine dupla tinha 5,16 m de comprimento, 3,12 m de entre-eixos e a caçamba de 860 litros. A Hilux oferecia 4,72 m, 2,85 m e 776 litros. Eram grandes, se levarmos em conta à época que um Fiat Uno com quatro portas tinha 3,64 m de comprimento.
Caminhonetes médias
Há décadas as caminhonetes integram o cenário norte-americano, algumas delas ostentando até a rodagem dupla na traseira. No Brasil, embora a realidade seja diferente devido às nossas faixas e vagas, houve um crescimento desses utilitários. Elas cresceram e ultrapassaram os cinco metros de comprimento. Ou seja: médias, “pero no mucho”.
Não foram apenas as medidas que cresceram; os preços acompanharam o ritmo. As versões de topo da tríade facilmente rompem a barreira dos R$ 300.000. Neste embate, escalamos a Chevrolet S10 High Country (R$ 348.790), a Mitsubishi Triton Katana (R$ 349.890) e a Toyota Hilux SRX (R$ 357.890). Sobretudo, a diferença entre a mais acessível e a mais cara é inferior a R$ 10.000.



E o que justificaria a compra de uma delas? Se tamanho for primordial para você, a Chevrolet S10 High Country possui 5,40 m de comprimento, 1,87 m de largura, 1,83 m de altura e 3,09 m de entre-eixos, enquanto a Mitsubishi Triton Katana mostra 5,36 m, 1,93 m, 1,81 m e 3,13 m, respectivamente. Ou seja, a Mit supera a rival na largura e no entre-eixos. Mas, e a Toyota Hilux SRX?
A caminhonete nipônica, contudo, produzida em Zárate, na Argentina, apresenta 5,32 m de comprimento, 1,85 m de largura, 1,81 m de altura e 3,08 m de entre-eixos. Ou seja, menor comprimento, largura e entre-eixos, que compromete o espaço para as pernas e os joelhos de quem viaja na segunda fileira. Isso explica a sensação de maior aperto na Hilux em relação às rivais.


Sensação de aperto na caminhonete da Toyota?
Além do menor entre-eixos do grupo, a Toyota Hilux sofre com um assoalho mais alto e um encosto traseiro que obriga o corpo a ficar em uma posição mais ereta. Chevrolet S10 e Mitsubishi Triton transmitem uma ambientação de carro de passeio, assegurando uma habitabilidade superior e mais confortável em viagens longas.
Apesar disso, a Toyota Hilux traz as saídas de ar dedicadas à segunda fileira. As caminhonetes da Chevrolet e da Mitsubishi não possuem. Todas elas oferecem os bancos revestidos em couro com as costuras contrastantes, sendo o da S10 High Country nas tonalidades marrom e cinza, com o logotipo High Country bordado nos encostos de cabeça frontais.



A cabine da Toyota Hilux sentiu o peso da idade. O assento mais curto, somado ao desenho do encosto, não oferece o mesmo nível de comodidade encontrado nas outras caminhonetes. Aliás, os bancos dianteiros da Mitsubishi Triton Katana dão um show: eles abraçam melhor as costas e a região lombar, com abas laterais generosas que ajudam a segurar o corpo nas curvas.
Além disso, o volante da Mitsubishi Triton Katana é o que entrega a melhor empunhadura do trio. Ponto positivo para as três: nenhuma esquece os comandos físicos, que seguem bem à mão. Contudo, a Toyota Hilux insiste na alavanca para operar o controlador de velocidade, uma característica datada quanto o relógio digital de retroiluminação verde no painel.



Segurança
Se as caminhonetes médias passaram a ter uma dirigibilidade mais amigável e até próxima dos carros de passeio, guardadas as devidas proporções, a segurança ativa e passiva acompanhou essa evolução ao volante, assim como no pacote de itens de conforto e de conveniência que compõem essas versões.
A Chevrolet S10 High Country oferece ar-condicionado digital, carregador de smartphone por indução, alertas de tráfego cruzado traseiro, de pontos cegos e de colisão frontal com frenagem automática de emergência, bem como o sistema auxiliar de permanência em faixa com correção do volante, seis airbags e os controles eletrônicos de tração e de estabilidade.

O utilitário médio da Toyota rebate com o pacote TSS (Toyota Safety Sense) ao contemplar sete airbags e o controlador de velocidade adaptativo. Além disso, há alerta de mudança de faixa, frenagem automática de emergência, igual à Chevy, assistente de reboque, de subida e de descida, para citar.
A Mitsubishi Triton Katana também possui controlador adaptativo de velocidade e sete airbags. Aliás, ela e a S10 têm o alerta de pontos cegos, muito útil em um utilitário com mais de cinco metros de comprimento. Além disso, possui a vetorização de torque e a prevenção de aceleração involuntária (de grande valor em manobras ou balizas).


Caminhonetes: não é apenas sobre robustez
Todas elas possuem multimídias com conectividade Android Auto e Apple CarPlay sem cabos. Na Chevrolet S10 High Country é de 11 polegadas, de nove polegadas na Mitsubishi Triton Katana e também de nove polegadas na Toyota Hilux SRX. Aliás, na Chevrolet S10 High Country há o exclusivo serviço de concierge e de proteção OnStar.
O carregador de smartphone por indução está presente nas três caminhonetes, mas a Chevrolet fica um degrau acima pelo quadro de instrumentos digital de oito polegadas, enquanto Mitsubishi e Toyota usam mostradores analógicos com tela para exibir as informações do computador de bordo, sendo de sete polegadas na Triton Katana e de 4,2 polegadas na Hilux.

Todas oferecem ar-condicionado digital de duas zonas, entrada/partida sem chave e bancos ajustáveis eletricamente. Além disso, a Toyota Hilux possui os modos de condução Eco e Power, enquanto a Triton reúne sete programas (Eco, Normal, Gravel, Snow, Mud, Sand e Rock), que adaptam o utilitário a diferentes condições de terreno e à entrega do desempenho.
Obviamente, o trio usa tração com seletor para alternar entre 4×2, 4×4 e 4×4 com reduzida, garantindo a robustez esperada de uma caminhonete média. No fora de estrada, a S10 mostra um ângulo de entrada de 29,5º e uma altura em relação ao solo de 225 mm. Na Triton, são 29° e 222 mm, enquanto na Hilux são 29º e 286 mm, respectivamente.



Caçamba e motor
Aqui é um quesito que pode definir uma compra. Afinal, quem escolhe um utilitário está interessado nas capacidades. A da Chevrolet S10 entrega uma volumetria de 1.061 litros e 1.044 kg de carga útil, sendo superior às capacidades da Hilux, com 1.000 litros e 1.000 kg. O utilitário Toyota é o que transmite a tampa mais pesada.
Também não há um sistema de amortecimento e, ao ser aberta, ela despenca, bem como, dependendo da pessoa, não é possível abrir ou fechar com apenas uma mão. A Mitsubishi Triton possui uma área de carga com 1.046 litros e 1.000 kg, além de oferecer a tampa mais leve das três caminhonetes. A picape da Mit não tem a capota marítima.



Sob o capô, todas empregam robustas mecânicas turbodiesel de quatro cilindros com injeção direta e câmbios automáticos, sendo o da S10 um 2.8 Duramax (nomenclatura XLD28) com transmissão de oito marchas, para render 207 cv e 52 kgfm. A Triton usa um 2.4 (4N16) atrelado à caixa de seis (205 cv e 47,9 kgfm), e a Hilux um 2.8 (1GD-FTV) mais caixa de seis velocidades, para gerar 204 cv e 50,9 kgfm.
São números de desempenho similares na casa dos 200 cv, embora o torque de quase 48 kgfm da Triton fique abaixo das rivais. É uma faixa similar à da GWM Poer P30, cujo 2.4 produz 48,9 kgfm. Mesmo assim, ao volante a realidade é diferente do que sugerem os dados declarados pela marca dos três diamantes.

Ao volante
São duas escolas distintas: a norte-americana e a japonesa. Embora as caminhonetes sejam o coração do cenário norte-americano, os japoneses souberam aplicar com maestria a expertise dos carros de passeio em seus utilitários. A Chevrolet S10 ganhou um fôlego renovado após saltar de 200 cv e 51 kgfm para 207 cv e 52 kgfm. Pode parecer sutil, mas na prática, esse fôlego extra fez toda a diferença.
É uma caminhonete que acorda de prontidão e vibra menos em marcha lenta em relação às concorrentes. Com a nova transmissão que saltou de seis para oito marchas, a rotação fica mais baixa acima dos 100 km/h. O câmbio é ágil: pula da oitava para a quinta marcha rapidamente, garantindo uma sensação de agilidade, favorecida pelo peso de 2.106 kg e pela relação peso-potência de 10,17 kg/cv.


Além disso, o turbolag (aquele atraso antes de o turbocompressor encher) é baixo, tornando as respostas da S10 mais rápidas do que as da Hilux. Contudo, mesmo com o menor torque do trio, a Triton seduz pelo conjunto da obra. Isso é explicado pela dirigibilidade refinada, mostrando-se superior na condução em relação à S10 e à Hilux.
A Toyota Hilux mantém seu foco na robustez, mas acaba ficando um degrau abaixo das rivais. Isso é percebido pela maior vibração em marcha lenta e pela forma como o câmbio gerencia a entrega de potência e torque. Sobretudo, a Triton parece ser muito mais potente e torcuda do que os dados sugerem. A Mit pesa 2.130 kg (10,39 kg/cv), enquanto a Toyota mostra 2.090 kg, resultando em uma relação peso-potência de 10,25 kg/cv.

Direção e suspensões das caminhonetes
As três usam suspensões com arquitetura independente com braços sobrepostos na porção dianteira e a traseira equipada com eixo rígido. Além disso, seguindo a receita clássica das caminhonetes médias, elas usam a construção de carroceria sobre chassi. Entre elas, a Triton é quem mostra um melhor controle, principalmente nas curvas.
A Triton convive melhor no asfalto, transmitindo um rodar mais suave e uma melhor absorção das irregularidades do piso. A Hilux bate mais seco ao encarar um obstáculo urbano, embora demonstre maior robustez entre as três caminhonetes. No final de uma viagem longa, a Mit é quem cuida melhor do conforto dos ocupantes, mesmo a Chevy apresentando a típica calibração macia dos carros norte-americanos.

O mesmo pode ser dito do conjunto de frenagem. S10, Triton e Hilux empregam discos ventilados à frente e tambores atrás, sendo o pedal da Triton o com melhor modulação e enviando frenagens mais seguras. Paralelamente a isso, a direção é assistida eletricamente tanto na S10 quanto na Triton e hidráulica na Hilux. Um ponto negativo da caminhonete.
Afinal, exige mais esforço nas manobras e nas balizas, da mesma forma que em velocidades mais altas exige mais correções para manter a trajetória. Embora tenham assistência elétrica leve ao esterço em velocidades baixas, ao abusar na rodovia a sensação é de ter o peso correto tanto no modelo da Chevrolet quanto na Mitsubishi.



Consumo e Pós-Venda
Só que a sensação de estar mais plantada no chão surge justamente na Mitsubishi Triton; afinal, ela encara as curvas com maior disposição e menor rolagem da carroceria ao contornar as curvas acima de 100 km/h. Sem dúvidas, um bom acerto que cooperou na parte dinâmica do utilitário e agrada em cheio quem gosta de dirigir mais rapidamente no asfalto.
Uma picape, no entanto, não é apenas sobre dados de desempenho, capacidades e tamanho da caçamba, pois na ponta do lápis o consumo e as manutenções importam. De acordo com o Programa de Etiquetagem Veicular do Inmetro, o consumo de diesel da Chevrolet S10 High Country é de 8,8 km/l, na cidade, e 11,9 km/l, na estrada.

A Mitsubishi Triton Katana crava médias de 9,5 km/l (cidade) e 11,7 km/l (estrada), enquanto a Toyota Hilux SRX faz 9,3 km/l e 10 km/l, respectivamente. A nota absoluta geral é D, ao passo que a Hilux conquistou a letra E juntamente com a S10.
Na hora das paradas obrigatórias, a primeira revisão da Chevrolet cobra R$ 704, um valor significativamente abaixo do praticado pela Mitsubishi (R$ 1.789,06) e pela Toyota (R$ 1.268,75). Essa discrepância nos valores de pós-venda coloca a S10 em uma posição de vantagem estratégica, para quem enxerga no custo de propriedade um fator tão importante quanto a potência.


Veredicto
Após colocar a tríade à prova, fica claro existem propostas que atendem a necessidades de público distintas. O mercado na faixa dos R$ 350.000 é exigente, e a escolha vai além da razão, não apenas pela fidelidade à marca. A Chevrolet S10 pode ser a campeã no custo-benefício, com a revisão mais barata e um câmbio de oito marchas.
Em contrapartida, a Toyota Hilux, mesmo sendo a mais rústica, ainda é um porto seguro, ao passo que, a Mitsubishi Triton é a caminhonete que mais se aproxima da condução de um SUV. O acerto de suspensão, a ergonomia dos bancos e a modulação do pedal de freio são uma referência na Mit. Mas, aqui no Auto+ não ficamos em cima do muro.

Portanto, pela entrega do conjunto e o prazer ao volante, a Mitsubishi Triton Katana é a vencedora deste confronto. Ela transmite um bom comportamento dinâmico, bem como uma dirigibilidade refinada e na mão, além de mais equilibrada para quem não abre mão de dirigir. A S10 pode ser mais barata de manter e a Hilux melhor de revender, mas é a Triton quem entrega a melhor engenharia para o motorista.
E você, entre Chevrolet S10 High Country, Mitsubishi Triton Katana e Toyota Hilux SRX qual escolheria? Escreva nos comentários.



