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Difícil de explicar pelo produto

Peugeot 208 GT continua sendo o hatch mais injustiçado do Brasil | Avaliação

Mesmo vendendo pouco, o Peugeot 208 GT continua entregando um conjunto difícil de encontrar entre os hatchbacks compactos

13 min de leitura

Não é exagero dizer que o Peugeot 208 é um dos carros mais injustiçados do mercado brasileiro. Enquanto Volkswagen Polo, Chevrolet Onix e Hyundai HB20 brigam mês após mês lá em cima, o hatch francês segue vendendo muito menos do que deveria. Ele consegue ficar atrás até de elétricos como BYD Dolphin e Geely EX2, algo difícil de explicar quando olhamos para o produto.

Boa parte dessa resistência vem do passado. A Peugeot ainda carrega a má reputação construída por modelos antigos e a antiga desvalorização. O problema é que o tempo passou. A marca mudou, os carros mudaram e o 208 atual pouco ou nada tem a ver com aquela Peugeot que tantos brasileiros aprenderam a evitar.

Talvez por isso o hatch francês seja um daqueles casos em que a percepção do mercado não acompanha a realidade. Afinal, estamos falando de um dos projetos mais modernos do segmento, com visual cheio de personalidade, boa potência e lista de equipamentos. 

Peugeot 208 GT MHEV na cor branco Branco Nacré estático na rua para avaliação, teste e review
Peugeot 208 GT MHEV [Auto+/Luiz Forelli]

Agora, na linha 2026, o Peugeot 208 GT recebeu o sistema semi-híbrido da Stellantis. A fabricante insiste em chamá-lo de Hybrid, mas na prática estamos diante da mesma solução já vista em Fiat Pulse e Fastback. Ou seja, uma eletrificação leve que pouco muda a experiência. Mesmo assim, por R$ 138.990, o 208 GT continua mostrando qualidades que muitos SUVs da moda não conseguem oferecer

Uma receita difícil de criticar

Debaixo do capô, o Peugeot 208 GT utiliza o já conhecido conjunto T200 da Stellantis. Trata-se do motor 1.0 turbo flex da família GSE, que entrega 125/130 cv com a 5.750 rpm, além de 20,4 kgfm de torque em ambos os combustíveis a apenas 1.750 rpm.

Peugeot 208 GT MHEV na cor branco Branco Nacré e seu motor 1.0 turbo T200 para avaliação, teste e review
Peugeot 208 GT MHEV [Auto+/Luiz Forelli]

É um conjunto bem vivido que já provou sua competência em diversos produtos do grupo. Entre os pontos positivos estão a corrente de comando, que dispensa a substituições periódicas, e a elevada rigidez estrutural gerada pelo bedplate integrado ao bloco de alumínio. 

Já a injeção direta ajuda na eficiência e na pulverização mais precisa do combustível dentro da câmara de combustão. Por outro lado, como acontece em praticamente todos os motores com esse sistema, exige atenção à formação de carbono nas válvulas de admissão ao longo da vida.

Interior do Peugeot 208 MEHV para avaliação, teste e review
Peugeot 208 GT MHEV [Auto+/Luiz Forelli]

Toda essa força trabalha em conjunto com o câmbio CVT Aisin, que dispensa engrenagens a favor de polias cônicas. Ou seja, na prática, temos uma condução extremamente suave, livre dos trancos ou das pequenas hesitações perceptíveis que vemos em alguns rivais com engrenagens.

E ao mesmo tempo, o software da transmissão consegue fazer  uma simulação adaptativa de marchas muito competente. Embora a marca continue não colocando os paddle shifts como vemos no 2008 — permitindo trocas manuais apenas pela manopla —, o sistema não tem aquele incômodo atraso de resposta dos CVTs antigos.

Peugeot 208 GT MHEV na cor branco Branco Nacré estático na rua para avaliação, teste e review

Com isso, temos o resultado de um conjunto que consegue unir conforto e agilidade muito bem entregues. Como o hatch pesa leves 1.167 kg, o motor trabalha sempre cheio, enche o turbo com rapidez e responde com muita prontidão ao pedal direito. A boa elasticidade do motor T200 garante retomadas seguras e ultrapassagens sem planejamento, levando o modelo de 0 a 100 km/h em ótimos 8,6 segundos. 

Diferentemente de rivais que parecem limitados e capados pelas novas exigências de emissões do Proconve L8 e regras de impostos, o 208 preserva suas respostas rápidas e acelerações consistentes. Por isso, temos em mãos um dos compactos mais legais nessa faixa de preço. 

O híbrido leve que dá uma leve ajuda 

Peugeot 208 GT MHEV na cor branco Branco Nacré estático na rua para avaliação, teste e review
Peugeot 208 GT MHEV [Auto+/Luiz Forelli]

A principal novidade da linha 2026 está na adoção do sistema semi-híbrido de 12 volts. Assim como acontece em outros modelos da Stellantis, o alternador e o motor de partida dão lugar a um motor-gerador elétrico.

Vale lembrar que esse sistema jamais movimenta o veículo sozinho. Por isso, nem podemos chamar ele de híbrido como a fabricante faz ao colocar Hybrid estampado na traseira (isso deve mudar nos próximos anos como já acontece com a Jeep onde chama de MHEV). 

Peugeot 208 GT MHEV na cor branco Branco Nacré estático na rua para avaliação, teste e review
Peugeot 208 GT MHEV [Auto+/Luiz Forelli]

Isso porque o motor a combustão continua pilotando as ações o tempo todo, enquanto o gerenciamento de energia atua como um bastidor de forma imperceptível para quem está ao volante.

Ainda assim, a engenharia conseguiu extrair um efeito positivo no uso urbano. Na verdade, o sistema elétrico aparenta atuar realizando um preenchimento de torque em baixas rotações, o que melhora sensivelmente a resposta transiente do conjunto. 

Peugeot 208 GT MHEV na cor branco Branco Nacré estático na rua para avaliação, teste e review
Peugeot 208 GT MHEV [Auto+/Luiz Forelli]

Ou seja, o 208 ganha agilidade imediata para se desvencilhar de saídas de cruzamentos, mudanças rápidas de faixa e arrancadas no trânsito. O turbo lag ainda existe, mas o impulso inicial sensivelmente parece ter sido camuflado em relação ao modelo sem esse sistema. Além disso, espere um câmbio sempre trabalhando de forma silenciosa em rotações baixas.

Eficiente, mas sem milgares

Essa assistência cobra o seu preço positivo diretamente nas bombas de combustível. Em nossa avaliação pelos centros urbanos, registramos médias de 8,5 km/l a 9 km/l com gasolina, superando com folga a marca de 7,5 km/l do modelo puramente a combustão que fiz na última vez. Na estrada, o consumo bateu bons 15 km/l, ou seja, praticamente um empate técnico com os 14,8 km/l que realizei. 

Peugeot 208 GT MHEV na cor branco Branco Nacré estático na rua para avaliação, teste e review
Peugeot 208 GT MHEV [Auto+/Luiz Forelli]

Colocando os dados na ponta do lápis, o tanque de 47 litros garante uma autonomia de quase 60 km extras na cidade, uma melhora muito bem-vinda para o cotidiano. Mas agradeça essa boa otimização ao sistema Start-Stop, que ao mesmo tempo é um ponto negativo. 

Chamo ele de Start-Stop obrigatório, já que não há botão físico de desativação e provoca uma nítida queda de rendimento do ar-condicionado, o que faz você ter que tirar o pé do freio quase toda hora em paradas para religar o sistema que não é tão sutil, mas melhor que os carros da Fiat. 

Continua sendo referência

Peugeot 208 GT MHEV na cor branco Branco Nacré estático na rua para avaliação, teste e review
Peugeot 208 GT MHEV [Auto+/Luiz Forelli]

Se o conjunto mecânico agrada, a dinâmica continua sendo o grande diferencial do Peugeot 208. A plataforma CMP entrega uma rigidez torcional muito boa para o segmento e ajuda a explicar por que o hatch transmite uma sensação de solidez. Não por acaso, essa mesma arquitetura servirá de base para futuros produtos da Stellantis no Brasil.

O volante merece destaque especial. Além da perfeita empunhadura por ser achatadinho, a calibração de peso é excelente. Há um rigor, precisão e comunicação muito boa com o motorista. Em qualquer velocidade, você sabe exatamente o que acontece entre pneus e asfalto.

Peugeot 208 GT MHEV na cor branco Branco Nacré estático na rua para avaliação, teste e review
Peugeot 208 GT MHEV [Auto+/Luiz Forelli]

Essa sensação aparece então em curvas. O 208 muda de direção com rapidez, contém a rolagem de carroceria e demora bastante para reclamar a perda de aderência. Os pneus de perfil mais baixo ajudam nessa leitura também e reforça o seu sobrenome GT.

Para sustentar esse comportamento mais abusivo, a suspensão adota uma carga de amortecimento mais firme que privilegia o controle de carroceria e a estabilidade antes da maciez absoluta. Por isso, o hatch absorve bem as irregularidades do asfalto, mas não esconde completamente o que acontece sob as rodas. Em buracos mais severos, é possível sentir impactos mais secos e até uns fins de curso.

Peugeot 208 GT MHEV na cor branco Branco Nacré estático na rua para avaliação, teste e review
Peugeot 208 GT MHEV [Auto+/Luiz Forelli]

Por outro lado, é justamente essa calibração mais firme que mantém a carroceria sempre sob controle. Não existe flutuação em velocidades altas, não há movimentos excessivos e o carro transmite confiança mesmo em ritmo forte. Mérito de novo também da arquitetura modular. 

O isolamento acústico também temos elogios. O fluxo de vento invade pouco a cabine e o maior ruído vem dos pneus de perfil mais baixo. Ainda assim, nada que chegue a tirar o conforto de rodagem. Para completar o pacote, os freios (ventilados à frente tambor atrás) tem boa modulação, parando bem o veículo em qualquer situação. 

O i-Cockpit continua sendo seu grande diferencial

Interior do Peugeot 208 MEHV para avaliação, teste e review
Peugeot 208 GT MHEV [Auto+/Luiz Forelli]

Se existe algo que o Peugeot 208 continua fazendo melhor do que praticamente qualquer rival, é a posição de dirigir. Desde a chegada da atual geração, o hatch adotou o conceito i-Cockpit e, goste ou não da proposta, ela continua entregando uma experiência bastante diferente do restante do segmento.

A combinação entre o volante compacto, o painel elevado e o banco com ampla regulagem de altura cria uma posição de condução bem envolvente. Você consegue sentar baixo como em poucos hatchbacks compactos atuais, enquanto o volante achatado oferece excelente empunhadura ajuste de altura e profundidade. 

Interior do Peugeot 208 MEHV para avaliação, teste e review
Peugeot 208 GT MHEV [Auto+/Luiz Forelli]

Logo à frente está o painel digital de 10 polegadas com projeção tridimensional, que continua sendo um dos elementos mais interessantes da categoria. A resolução é muito boa e as informações são fáceis de visualizar. Apenas a navegação entre algumas funções poderia ser mais intuitiva, já que parte dos comandos depende de uma pequena haste atrás do volante que precisa de um período de adaptação.

A central multimídia de 10,1 polegadas também continua sendo um dos destaques. Posicionada em um ponto elevado do painel, ela fica dentro do campo de visão periférica do motorista e facilita bastante a consulta ao GPS durante a condução. O sistema continua rápido, tem boa qualidade gráfica e conta com Apple CarPlay e Android Auto sem fio, ambos funcionando sem travamentos ou dificuldades de conexão.

Interior do Peugeot 208 MEHV para avaliação, teste e review
Peugeot 208 GT MHEV [Auto+/Luiz Forelli]

A linha 2026 trouxe ainda alguns atalhos extras para funções do veículo, além do botão Home e dos acesso rápido a climatização. Ainda assim, o sistema de para operar o ar continua concentrado na central multimídia, o que tira um pouco da praticidade no dia a dia. Pelo menos, agora existe um comando físico dedicado ao volume.

Equipamentos bons, mas nem tudo faz sentido

A lista de equipamentos continua bem competitiva para um hatch compacto. O 208 GT oferece chave presencial de verdade, daquelas que permitem travar e destravar o carro apenas se aproximando ou se afastando do veículo, sem precisar tocar na maçaneta.

Interior do Peugeot 208 MEHV para avaliação, teste e review
Peugeot 208 GT MHEV [Auto+/Luiz Forelli]

Temos ainda carregador de celular por indução com refrigeração, teto panorâmico fixo em vidro, câmera de ré, sensor de estacionamento traseiro e o interessante sistema Vision Park. Ele utiliza as imagens da câmera para criar uma projeção lateral durante as manobras, ajudando bastante em vagas com linhas. 

No pacote de segurança, o hatch traz alerta de colisão frontal com frenagem automática de emergência, assistente de permanência em faixa com correções leves, leitura de placa de trânsito, controle de velocidade convencional com limitador, além dos airbags frontais, laterais e de cortina. O único ponto que realmente fica devendo é a ausência do piloto automático adaptativo, mas que entre seus rivais só o HB20 e o City oferecem. 

Interior do Peugeot 208 MEHV para avaliação, teste e review
Peugeot 208 GT MHEV [Auto+/Luiz Forelli]

Já o acabamento segue a mesma filosofia dos demais compactos da categoria. O painel é formado por plásticos duros, mas com bom encaixe das peças e um visual mais elaborado. Existem um acolchoamento nas portas dianteiras, mas nada demais.

Por outro lado, algumas decisões continuam difíceis de entender. O botão Sport permanece escondido na parte inferior esquerda do painel, praticamente fora do campo de visão do motorista. Além disso, o modelo continua sem ajuste de altura para o cinto de segurança, algo que vários produtos da própria Stellantis oferecem.

Espaço nunca foi sua prioridade

Interior do Peugeot 208 MEHV para avaliação, teste e review
Peugeot 208 GT MHEV [Auto+/Luiz Forelli]

Toda essa proposta mais voltada para o motorista cobra seu preço quando o assunto é espaço interno. Com 4,05 metros de comprimento e apenas 2,54 metros de entre-eixos, o Peugeot 208 está longe de ser referência em habitabilidade.

Na dianteira, a ergonomia é excelente. Entretanto, o excesso de espuma utilizado nos bancos pode dar desconforto em viagens mais longas. A Stellantis costuma ter esse padrão em diversos modelos e, dependendo do biotipo, a região lombar acaba sentindo mais o cansaço ao longo das horas.

Peugeot 208 GT MHEV PORTA-MALAS PARA AVALIAÇÃO
Peugeot 208 GT MHEV [Auto+/Luiz Forelli]

Atrás, a situação é mais complicada. Com o banco dianteiro ajustado para minha posição de dirigir, praticamente não existe espaço para os joelhos e nem consigo entrar. Quem for menor para dirigir o carro, aí sim cabe crianças. Mas se a pessoa for grande, como eu, com meus 1,88 m, esquece, não cabe ninguém. Nem saídas de ar ou porta USB temos, já que o único apoio de braço existente é para o motorista. 

O porta-malas tem a mesma lógica. São apenas 265 litros de capacidade, um dos menores volumes da categoria e bem distante dos principais rivais, que já trabalham próximos dos 300 litros.

Veredcito

Peugeot 208 GT MHEV na cor branco Branco Nacré estático na rua para avaliação, teste e review
Peugeot 208 GT MHEV [Auto+/Luiz Forelli]

O Peugeot 208 continua sendo um carro que os números de vendas simplesmente não conseguem explicar. Há anos ele vende menos do que merece e continua carregando a péssima fama construída pela Peugeot que não existe mais. Enquanto isso, o produto atual continua mostrando qualidades que poucos concorrentes conseguem reunir em um único pacote.

Nem tudo é perfeito, claro. O espaço traseiro é limitado, o porta-malas está longe de ser referência e o sistema semi-híbrido passa longe da revolução que o marketing tenta vender. Assim, o maior responsável pela melhora no consumo continua sendo o Start-Stop, que também traz junto a inconveniência de não poder ser desligado e ainda interfere no funcionamento do ar-condicionado em dias mais quentes.

Peugeot 208 GT MHEV na cor branco Branco Nacré estático na rua para avaliação, teste e review
Peugeot 208 GT MHEV [Auto+/Luiz Forelli]

Porém, basta passar alguns dias ao volante para entender por que ele continua tão fácil de recomendar. O 208 tem o melhor conjunto mecânico da categoria, uma excelente posição de guiar e uma dinâmica acima da média, além do visual que envelhece muito melhor que a maioria dos rivais. Por isso, sigo batendo na mesma tecla: hoje, o Peugeot 208 continua sendo o melhor hatchback compacto à venda no Brasil pelo seu preço.

E você, colocaria um Peugeot 208 na sua garagem? Deixe sua opinião nos comentários! 

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Assuntos

Luiz Forelli

Jornalista pela Faculdade Cásper Líbero, sempre fascinado por carros. Passava horas dirigindo no colo da família dentro da garagem ou empurrando carrinhos pela casa, como se já soubesse que seu caminho estaria entre motores e rodas. Hoje, realiza o sonho de infância escrevendo sobre o universo automotivo com a mesma empolgação de quem brincava com um volante imaginário. No lugar do sangue, corre gasolina, e isso nunca foi segredo.

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