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Audi desiste de uma estratégia usada há décadas

Fabricante das quatro argolas entende que Europa, China e Estados Unidos querem carros cada vez mais diferentes entre si

5 min de leitura

A Audi parece ter aceitado algo que muitas marcas ainda tentam contornar: o carro global deixou de fazer tanto sentido. Por diversos anos, a indústria vendeu a ideia de que um mesmo projeto poderia atender Europa, China, Estados Unidos e outros mercados com pequenas adaptações. Contudo, esse modelo começou a perder força. Afinal, o chinês, o europeu e o norte-americano já não procuram exatamente o mesmo tipo de carro.

Desta forma, a Audi entendeu que insistir em um produto único para todos os mercados pode deixar o carro caro, complexo e, pior, sem agradar ninguém por completo. Por isso, a fabricante alemã passou a defender uma estratégia mais regional, com modelos pensados desde o início para cada público.

Audi não quer mais fazer um carro para o mundo inteiro

A mudança foi explicada por Rouven Mohr, chefe técnico da Audi, em entrevista ao GoAuto. Segundo o executivo, a ideia de um carro global, feito para servir o mundo inteiro, simplesmente não encaixa mais na realidade atual.

“Eu acho que a ideia do carro global,então um carro que se encaixa no mundo, isso se foi, para ser honesto, porque não se encaixa mais nos EUA e na China. Você precisa desse tipo de pilar local para local.”

Ou seja, um Audi feito para a Europa não precisa agradar completamente o consumidor chinês. Da mesma forma, um modelo pensado para a China não precisa ser bonito visualmente como os modelos europeus.

AUDI E5 Sportback rosa de frente
AUDI E5 Sportback [divulgação]

E por isso, temos a criação da AUDI, marca escrita em letras maiúsculas e sem as quatro argolas, desenvolvida na China em parceria com a SAIC. Ela veio  justamente para atender um consumidor mais jovem, digital e acostumado com carros elétricos cheios de tecnologia embarcada, algo que muitos europeus ainda dispensam a favor do tradicionalismo. 

China quer telas, Europa e EUA ainda quer botões

Na China, o carro premium precisa funcionar quase como uma extensão de um celular, pois o que o consumidor oriental quer é telas e mais telas, muita conectividade, atualizações remotas e sistemas avançados de assistência. Além disso, o consumidor chinês ama interfaces rápidas, inteligência artificial e recursos que mudam com frequência. Nesse ambiente, para eles, botões físicos demais podem até ser sinal de atraso.

Audi SQ6 e-tron interior para avaliação
Audi SQ6 e-tron [Auto+/Luiz Forelli]

Na Europa, por outro lado, grande parte do público ainda valoriza comandos táteis, materiais mais sóbrios e uma cabine menos dependente de telas. Não é que esse consumidor rejeita tecnologia, porém eles querem algo mais discreto.

É justamente aí que o carro global começa a se complicar. Se a Audi coloca telas demais, pode afastar europeus mais tradicionais. Se mantém botões e comandos físicos em excesso, pode parecer conservadora demais para a China. Portanto, separar os projetos por mercado é algo essencial para as vendas.

Desenvolvimento mais rápido vira questão de sobrevivência

AUDI E5 Sportback [divulgação]

Ao abandonar a lógica do carro único, a Audi também enfrenta a situação de demorar mais para criar novos projetos. Para isso, a alemã  adotou o conceito chamado de project house, que reúne equipes próximas do produto e com acesso mais direto à diretoria.

Assim, isso reduz etapas internas, encurta aprovações e evita que cada decisão dependa de uma sequência longa de comitês. A própria Audi já usa esse método em projetos importantes, como o supercarro Nuvolari, a versão de produção do Concept C e o futuro A4 e-tron.

Essa estratégia pode chegar ao Brasil?

Audi A5 Performance S Edition vermelho parado de traseira com muro de pedras ao fundo
Audi A5 Performance S Edition [Auto+ / Rafael Pocci Déa]

No Brasil, a realidade é totalmente diferente. Nosso mercado costuma receber modelos globais desenvolvidos para a Europa, como as novas gerações do A5 e do Q5, praticamente sem mudanças. O trabalho da Audi por aqui passa, somente, por definir quais motorizações e pacotes de equipamentos europeus fazem mais sentido para o consumidor brasileiro.

Em vez de disputar espaço com as fabricantes chinesas na lista de equipamentos, a Audi prefere enfrentar os rivais oferecendo versões mais potentes, ainda que isso signifique abrir mão dos itens que muitos consumidores podem achar  indispensáveis. 

Audi Q3 SUV Azul Navarra estático no gramado
Audi Q3 [Auto+/Luiz Forelli]

A câmera 360° e chave presencial, por exemplo, ficou de fora das primeiras unidades do novo A5 vendidas no Brasil e só apareceu posteriormente com reajuste de preço. Agora, com a nova geração do Q3, produzido em São José dos Pinhais (PR), o SUV chega ao mercado brasileiro privilegiando um conjunto mecânico mais forte que seus rivais. Porém, deixa de lado equipamentos que já viraram comuns em modelos inferiores. 

E você, acha melhor a Audi fazer carros diferentes para cada mercado ou isso pode enfraquecer a identidade da marca? Deixe seu comentário!

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Luiz Forelli

Jornalista pela Faculdade Cásper Líbero, sempre fascinado por carros. Passava horas dirigindo no colo da família dentro da garagem ou empurrando carrinhos pela casa, como se já soubesse que seu caminho estaria entre motores e rodas. Hoje, realiza o sonho de infância escrevendo sobre o universo automotivo com a mesma empolgação de quem brincava com um volante imaginário. No lugar do sangue, corre gasolina, e isso nunca foi segredo.

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