Sabe aquela tia que conta as mesmas piadas há anos, já tem algumas rugas que o tempo não esconde mais, mas aparece arrumada na festa e continua se achando? Guardadas as devidas proporções, esse é exatamente o cenário do Nissan Kait. E só faltou um detalhe nessa história: ela também trocou de nome. Afinal, por trás da nova identidade continua escondido o velho conhecido Kicks, que virou Kicks Play e agora atende por Kait.
E se a Nissan continua apostando nessa receita, é porque ela ainda vende. Produzido em Resende (RJ), o SUV chegou às lojas em 2016 e rapidamente se tornou o principal produto da marca no Brasil. Em 2025, registrou quase 60 mil unidades vendidas, seu melhor resultado desde 2019 e o maior volume da Nissan no país. Na versão Sense Plus de R$ 139.590, é uma das porta de entrada da gama.
Mas os números nem sempre contam a história inteira. Afinal, o tempo passa para todo mundo. Ainda mais quando surgem rivais mais modernos como Volkswagen Tera, Fiat Pulse e Renault Kardian. Tudo bem que eles pertencem ao grupo dos SUVs subcompactos, enquanto o Nissan atua um degrau acima. Ainda assim, disputam o mesmo bolso. E é justamente aí que o Kait encontra seu maior desafio.
A idade pesa, mas também traz virtudes



Toda arquitetura madura carrega seus defeitos, mas também seus benefícios. Debaixo do capô do Nissan Kait está o conhecido 1.6 aspirado flex da família HR16DE, uma evolução direta dos motores que equiparam March e Versa nas gerações anteriores. São 110/114 cv a 5.600 rpm e 14,9/15,5 kgfm a 4.000 rpm, sempre ligados ao câmbio CVT Xtronic que simula sete marchas.
É um conjunto que claramente não foi pensado para empolgar. Quem procura um Kait dificilmente está atrás de esportividade. O foco aqui sempre foi outro: robustez mecânica. E nisso ele continua entregando muito bem.

A corrente de comando dispensa trocas periódicas, enquanto a injeção multiponto convencional continua fazendo sentido para a realidade do combustível brasileiro. Pode não ser a solução mais moderna do mercado, mas é uma das mais simples de manter e entender.
Sem pressa, mas longe de ser inútil
Claro que toda essa robustez cobra um preço. O Kait demora para romper a inércia inicial. Afinal, o torque máximo só aparece em rotações relativamente altas para os padrões atuais. Não existe explosão de força dos motores turbo nem a sensação de empurrão que estamos acostumados a encontrar nos rivais mais novos.



Quando você exige aceleração, o motor sobe de giro rapidamente e invade a cabine em uma dose considerável. Porém, diferente de outros CVTs que parecem desconectados do carro, o casamento do conjunto é muito bem acertado. O escalonamento virtual das marchas cria pequenos degraus de torque que ajudam a trazer sensação de aceleração.
Por isso, quando o Kait já venceu a resistência inicial do ar e ganha embalo, ele consegue entregar ultrapassagens honestas. Vai gritar bastante? Sim. Mas também responde de maneira previsível. As retomadas precisam de algum planejamento, principalmente em rodovias de pista simples, mas estão longe de serem desesperadoras.



O problema aparece quando o carro está carregado. Com passageiros e bagagens, o baixo torque fica mais evidente e a lentidão passa a incomodar mais. E aqui novamente meu comentário que fiz com o Kicks Play: se esse conjunto recebesse o 1.0 turbo da Horse usado pelo Kardian e pelo novo Kicks, nem que seja em uma versão específica, muitas das críticas simplesmente desapareceriam.
Muito mais acertado do que parece
Isso porque o problema do Kait não está na base do projeto. Pelo contrário. A estrutura continua muito sólida, o chassi junto a plataforma antiga é bem acertado ainda e a dinâmica está acima da média para um SUV compacto de entrada.



Basta ganhar velocidade na rodovia para perceber como o Nissan de 1.139 kg fica firme na trajetória, sem flutuação e sem movimentos excessivos de carroceria, algo que rivais mais modernos não conseguem trazer com a mesma naturalidade. Ele transmite confiança o tempo todo.
As curvas também são um ponto positivo do Kait. A rolagem de carroceria é pequena para um SUV com 20 cm de altura livre do solo e 18 graus de ângulo de ataque. Aliás, raspar em valetas ou lombadas é algo bastante raro por aqui.



A direção também ajuda bastante, pois você sabe exatamente onde estão as rodas, recebe um bom retorno do conjunto e ganha confiança. Apesar de continuar pesada em manobras, ela tem um peso mais adequado em velocidades urbanas e rodoviárias.
Em relação a suspensão, falamos do comum McPherson na dianteira e eixo de torção na traseira, que segundo a Nissan, recebeu melhorias nessa reestilização para o Kait. Sinceramente, não senti tanta diferença, mas o acerto continua muito competente.

A carga de amortecimento é mais firme do que a média entre os concorrentes. Isso faz o carro passar uma sensação de controle de carroceria sem ser desconfortável. O curso da suspensão não é tão longo e, dependendo do buraco, pode haver fim de curso de forma mais seca. Ainda assim, no uso normal, o conjunto consegue filtrar bem valetas, lombadas e irregularidades.
Cidade é o habitat natural
Porém, graças a essa calibração equilibrada que faz o Kait ser tão bem no dia a dia. No ciclo urbano, o SUV se sente mais à vontade devido a condução extremamente suave e linear. Não há trancos nem solavancos graças ao CVT. Existe só um pequeno delay do acelerador nas arrancadas e mudanças rápidas de faixa.

Porém, para um aspirado aliado a uma transmissão continuamente variável, está totalmente dentro do esperado. O que a Nissan faz é utilizar um mapeamento mais agressivo do acelerador para compensar a falta de torque. Por isso, basta um toque um pouco mais firme no acelerador para o motor já trabalhar entre 2.000 e 3.000 rpm.
Isso até pode melhorar a sensação de resposta, mas cobra seu preço no consumo. Durante os testes com gasolina, registramos médias entre 8,5 e 9 km/l na cidade. Já na estrada, o Kait entregou aproximadamente 14 km/l. Não são números ruins, mas também não impressionam.


O maior problema nem é exatamente o consumo. É o tanque de apenas 41 litros. No fim das contas, o que importa é a autonomia. E aqui ela acaba sendo limitada: são cerca de 360 km em uso urbano e 570 km em rodovia.
Interior simples até demais
Se existe uma área em que a idade do projeto aparece sem esforço, é no interior do Nissan Kait. A marca japonesa praticamente manteve a cabine que já conhecíamos do Kicks Play, com poucas mudanças e uma proposta extremamente simplificada. O problema não é ser simples. O problema é custar quase R$ 140 mil e entregar muito menos do que alguns rivais mais baratos.



O acabamento segue a mesma receita dos últimos anos. Todo o painel é feito em plástico rígido, assim como o tabelier e praticamente todas as superfícies superiores da cabine. Pelo menos as portas dianteiras e traseiras recebem revestimento em couro para o apoio do braço. Os encaixes são ok e não passam sensação de fragilidade, mas também estão longe de transmitir qualquer percepção de requinte.
O que realmente chama atenção é a quantidade de ausências. Não existe apoio de braço central, algo difícil de justificar. É justamente nesses detalhes do dia a dia que o Kait começa a mostrar o peso da idade do projeto.
Tecnologia de outra época



O quadro de instrumentos também é um dos exemplos. Existe uma pequena tela central com informações básicas de consumo, autonomia, trip e computador de bordo. Funciona bem, mas é simples demais para os padrões atuais. Nem mesmo um velocímetro digital está presente.
Além disso, a mudança das informações continua sendo feita por uma pequena varetinha no painel. Chama atenção porque o volante possui botões que poderiam perfeitamente assumir essa função. É uma solução que remete a carros de outra geração.



À esquerda do painel ainda ficam os comandos do alerta de saída de faixa, que atua apenas por alerta sonoro e frenagem automática de emergência (com o alerta), que faz jus ao prefixo Plus, que é o que muda das configurações mais básicas sem esse sobrenome. Aqui temos só esses assistentes.
Já a central multimídia continua sendo a conhecida unidade de oito polegadas. A principal diferença em relação ao antigo Kicks Play é que ela agora aparece ligeiramente destacada no painel. O funcionamento continua simples, sem travamentos, mas o conteúdo é extremamente básico.


Por exemplo, há Apple CarPlay e Android Auto, porém ambos precisam de conexão por cabo. Nem mesmo a conectividade sem fio, algo tão comum entre modelos até compactos, está disponível.
Equipamentos ficam no básico
Na prática, o principal item tecnológico do Kait é a chave presencial com botão de partida. Além disso, ele oferece câmera de ré com linhas dinâmicas e sensores traseiros de estacionamento.


O restante segue uma linha bastante conservadora. Há ar-condicionado manual de uma zona, piloto automático convencional com limitador de velocidade, vidros e travas elétricas e retrovisores com ajuste elétrico. Nem mesmo os vidros contam com função automática completa, já que apenas o do motorista desce automaticamente, sem subida automática.
Os bancos utilizam tecido e a conhecida tecnologia Zero Gravity da Nissan. De fato, são assentos confortáveis, bem acolchoados e agradáveis para viagens mais longas. A ergonomia também continua sendo um dos pontos positivos do projeto.
Espaço continua sendo um trunfo

Se o interior decepciona pelo conteúdo, as dimensões ainda ajudam bastante no uso familiar. Com 4,30 m de comprimento, 1,76 m de largura, 1,61 m de altura e 2,62 m de entre-eixos, o Kait continua oferecendo um bom aproveitamento interno.
Ao volante, foi fácil encontrar uma posição confortável graças ao bom recuo dos bancos e aos ajustes de altura e profundidade da coluna de direção.


Já no banco traseiro, minhas pernas acabam encostando levemente no encosto dianteiro, mas sem ser um desconforto para um SUV compacto. Outro destaque continua sendo o porta-malas de 432 litros, um dos maiores da categoria e seu argumento mais forte.
Veredicto
O Nissan Kait é um daqueles carros que fazem mais sentido quando você olha para o que ele já foi do que para o que ele é hoje. Como produto, continua entregando qualidades importantes, com um conjunto robusto, boa suspensão, espaço interno e uma dirigibilidade bastante acertada. O problema é que o mercado mudou muito e ele ficou para trás.

Por isso, fica difícil defender seus R$ 139.590. Com menos dinheiro, você encontra Renault Kardian Techno, Volkswagen Tera Comfort, Fiat Pulse Audace, Jeep Renegade Altitude, GAC GS3 e Caoa Chery Tiggo 5X Sport. São projetos mais modernos, mais equipados e com muito mais tecnologia embarcada.
Isso não faz do Kait um carro ruim. No mercado de seminovos, ele, quando chamado de Kicks ou Kicks Play, é uma escolha bastante racional para quem busca confiabilidade, manutenção simples e bom espaço para a família. Já no zero-quilômetro, a conversa muda. A Nissan melhorou o visual, mas isso não esconde um projeto que já passou do auge e hoje cobra caro demais pelo que entrega.
E você, compraria um Nissan Kait? Deixe sua opinião nos comentários!



