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Ousados e desenhado

BAIC quer ultrapassar Volkswagen, Fiat e BYD com fábrica nos próximos anos

Chinesa quer entrar no Top 10 em 2028 e Top 5 em 2030

11 min de leitura

O mercado brasileiro caiu como uma luva para a ofensiva das fabricantes chinesas. O nosso país adora SUVs, recebeu bem os eletrificados e abriu espaço para marcas que chegaram combinando tecnologia, potência e preços agressivos. Agora, a BAIC desembarca por aqui com metas extremamente agressivas e chega ao grupo das maiores montadoras do Brasil.

Só no primeiro semestre de 2026, 16 marcas chinesas já disputam o mercado brasileiro. Considerando operações anunciadas e novas submarcas, essa conta já chega a 22. É justamente nesse novo cenário que a BAIC apresentou sua operação brasileira durante o Festival Interlagos. Só que, ao contrário de outras, a fabricante chegou com praticamente todo o caminho dos próximos anos desenhado.

Serão 10 carros até o fim de 2028, produção nacional, desenvolvimento de motores híbridos flex, 150 concessionárias e produtos entre aproximadamente R$ 100 mil e R$ 600 mil. A companhia ainda quer transformar o Brasil em sua principal operação fora da China. O Auto+ apurou informações, uma delas com exclusividade, sobre o plano ambicioso da nova chinesa. 

Quem é a BAIC que chega ao Brasil?

Oswaldo Ramos, COO da BAIC Brasil
Oswaldo Ramos, COO da BAIC Brasil [Divulgação]

Apesar de ainda ser praticamente desconhecida do consumidor brasileiro de automóveis, a BAIC está longe de ser uma fabricante pequena na China. As origens do grupo remontam a 1958, além da sua trajetória também passa por algumas joint ventures gigantescas na indústria chinesa. Entre elas estão Beijing Hyundai e Beijing Benz, criada em parceria com a Mercedes-Benz

Hoje, a estrutura internacional do grupo gira principalmente ao redor de três marcas. A própria BAIC concentra boa parte dos SUVs e modelos de proposta mais robustos, enquanto a Arcfox joga para o lado dos eletrificados. Já a Stelato, desenvolvida em parceria com a Huawei, ocupa o extremo por ser a mais sofisticada do grupo e ser a premium. 

Stelato S9T
Stelato S9T [Divulgação]

A Foton também pertence ao grupo, embora tenha uma operação independente e bem mais conhecida no Brasil, principalmente entre caminhões e veículos comerciais.

Por aqui, Arcfox e BAIC serão as duas frentes iniciais. A Stelato ficará para uma segunda etapa, provavelmente dentro de aproximadamente dois anos, como confirmou Oswaldo Ramos, COO (Chief Operating Officer) da operação brasileira. Inclusive, foi o mesmo que trouxe a GWM ao Brasil.  

Carro chinês terá de aprender a ser brasileiro

BAIC Arcfox T1

A BAIC sabe que trazer exatamente os carros vendidos na China não será suficiente. “Vamos montar um carro no Brasil, ter engenharia do Brasil. Vamos construir carros com design para o Brasil, pois tem carros na China que o brasileiro não gosta”, afirmou Ramos. 

“Teremos que mexer em suspensão, calibração, direção, software em português, Apple CarPlay sem fio, estepe, tudo isso a gente vai aderir no nosso carro, tudo alinhado para o mercado brasileiro”, explicou.

Operação Brasil da BAIC
Operação Brasil da BAIC [Auto+/Luiz Forelli]

Isso significa mexer justamente em pontos nos quais muitos carros importados costumam denunciar sua origem, como uma suspensão desenvolvida para o piso chinês, por exemplo, que não conversa bem com buracos, valetas e ondulações brasileiras. 

O mesmo vale para calibração da direção, pneus e até equipamentos aparentemente simples, como o estepe, em que muitos usam kit de reparo, uma solução longe de ser boa para o Brasil. Por isso, a intenção é ter uma engenharia brasileira justamente para evitar esse tipo de adaptação superficial.

Arcfox T1 abre a ofensiva ainda em 2026

BAIC Arcfox T1 roxo em movimento

O primeiro teste dessa estratégia será o Arcfox T1. O crossover elétrico já está no Brasil e inicia a fase comercial em outubro, enquanto as primeiras entregas estão previstas para novembro.

Embora tenha carroceria próxima à de um hatch, a BAIC não pretende simplesmente colocá-lo para perseguir BYD Dolphin, Geely EX2 e outros hatches elétricos.

Arcfox T1 da BAIC e seus concorrentes apresentação
Arcfox T1 da BAIC e seus concorrentes apresentação [Auto+/Luiz Forelli]

Ramos explicou que pretende buscar justamente o consumidor que ainda compra carros a combustão. Dentro do posicionamento estudado pela empresa aparecem Volkswagen Tera, Jeep Avenger e Hyundai i20 abaixo, enquanto T-Cross, Renegade e Creta ficam acima. 

“Não vamos brigar com a BYD. Vamos convencer a pessoa do carro a combustão a ir para o carro elétrico.” Para ele, existe uma parcela do público que ainda não foi convencida pela eletrificação. E Ramos aproveitou para provocar inclusive as fabricantes tradicionais.

BAIC Arcfox T1 rosa parado de frente

“As montadoras tradicionais fazem carro parecendo patinho de borracha. O consumidor quer carro de verdade e nós temos”, disse.

Na China, o T1 trabalha com baterias de 33,4 kWh ou 42,3 kWh, suficientes para autonomias de 320 km e 425 km pelo ciclo CLTC. Existem ainda motores dianteiros de 95 cv e 129 cv, dependendo da configuração. A BAIC ainda não detalhou qual combinação chegará às lojas brasileiras.

T5 aumenta o tamanho da aposta

BAIC Arcfox T5

O próximo passo será o Arcfox T5, que já está em processo de homologação no Brasil. Aqui, a proposta é realmente de um SUV com cerca de 4,69 metros de comprimento para brigar com Leapmotor B10, Geely EX5, Chevrolet Captiva EV e outros elétricos médios. 

A configuração estudada para o Brasil é elétrica, com bateria de 74 kWh e autonomia ao redor dos 600 km no ciclo chinês. O modelo também concentra sistemas mais avançados de assistência à condução. A data exata de lançamento, entretanto, ainda não foi cravada. A programação da BAIC prevê dois crossovers em 2026, e o T5 já está em homologação, o que o coloca naturalmente como principal candidato à segunda vaga. 

BAIC Arcfox T5 [divulgação]

Depois disso, em 2027, chegam dois SUVs e uma picape, sendo o BAIC B30 um dos modelos já confirmados. Em 2028 serão outros dois crossovers e três SUVs, completando os dez lançamentos previstos até lá. Um deles será fundamental para outro pedaço da estratégia brasileira: o X55.

Híbridos da BAIC terão motor flex

Se os primeiros carros servirão para apresentar a marca, o BAIC X55 terá uma outra missão. Previsto para 2028, ele será o primeiro híbrido flex da operação brasileira. Segundo Ramos, engenheiros da Bosch no Brasil e na China já trabalham com a BAIC na adaptação do motor. O desafio agora não está em decidir se o sistema será flex, mas concluir calibração e homologação.

BAIC X55

“O motor flex já está em desenvolvimento com a Bosch, com a China e o Brasil. A Bosch é parceira da BAIC em vários conjuntos e subsistemas. Então, ele já está em desenvolvimento. O ponto do prazo, é só o tempo de calibração desse sistema flex e depois começar a homologação. A única barreira de tempo é muito mais o tempo de homologação, que não é tão rápido quanto o carro elétrico”, confirmou.

O executivo ainda confirmou que depois, todos os modelos serão flex a partir daí: “Uma vez chegando no X55, que será o primeiro carro flex, todos os híbridos começam a usar esse motor”, finalizou. 

BAIC X55

A escolha do X55 também não aconteceu por acaso. O SUV já possui engenharia madura, portanto permite desenvolver o novo motor sem depender simultaneamente da conclusão de um carro completamente novo. “Se eu somar o motor flex com um carro novo que está em desenvolvimento, eu atrasaria mais ainda”, explicou Ramos.

Mais modelos X no Brasil

Além disso, o Ramos confirmou que terá mais carros da linha X vindo para o Brasil. É uma decisão bastante importante para entender a BAIC brasileira. O COO também confirmou que não pretende apostar todas as fichas em apenas uma tecnologia.

BAIC X55

Segundo Oswaldo Ramos, veremos além de carros elétricos, também híbridos convencionais, como um Toyota Corolla que não depende de recarga externa, e os híbridos plug-in também nos planos, assim como modelos elétricos com extensor de autonomia. Dependendo do segmento, a fabricante ainda enxerga aplicações até para o diesel, que caberia para a picape já confirmada.

A produção começa antes de 2028

A BAIC também confirmou que vai produzir carros no Brasil para estar entre os Top 10 até 2028 e entre os Top 5 já em 2030. A decisão já está tomada e, segundo Oswaldo Ramos, depender apenas de importados tornaria impossível alcançar o volume necessário para entrar no Top 5. “Se você quiser ser Top 5 com carro importado, eu garanto para vocês: a conta não fecha”, afirmou.

BAIC confirma produção nacional em apresentação
BAIC confirma produção nacional em apresentação [Auto+/Luiz Forelli]

O imposto de importação de veículos eletrificados chegou aos 35%, enquanto a própria escala projetada pela companhia muda completamente a conta industrial.  A fabricante avalia diferentes caminhos. Construir uma fábrica do zero, adquirir uma unidade existente ou utilizar inicialmente outra estrutura fazem parte dos estudos.

O objetivo de longo prazo, porém, vai além de simplesmente encaixar kits vindos da China. “A gente não vai ser CKD ou SKD, a gente vai importar peça por peça”, disse Ramos durante a apresentação. Na conversa posterior, o executivo explicou melhor essa estratégia. A produção pode começar por operações mais simples e avançar conforme o volume aumenta, como já vemos com a BYD, que primeiro vem a montagem. 

Oswaldo Ramos, COO da BAIC Brasil
Oswaldo Ramos, COO da BAIC Brasil [Auto+/Luiz Forelli]

Depois entram processos como pintura, soldagem e, finalmente, estampagem. Ao mesmo tempo, componentes chineses podem gradualmente dar lugar a fornecedores brasileiros. Mas havia uma informação que a BAIC ainda não tinha revelado durante a apresentação.

O Auto+ perguntou a Oswaldo Ramos se a produção local poderia começar antes da chegada do primeiro híbrido flex, prevista para 2028. A resposta foi: “A produção será antes de 2028.” Isso coloca 2027 como uma janela provável para o início da fabricação nacional, embora o executivo ainda não tenha confirmado oficialmente o ano e local.

Preço terá de acompanhar toda essa ambição

BAIC planeja Top 5 em 2030 no Brasil
BAIC planeja Top 5 em 2030 no Brasil [Auto+/Luiz Forelli]

Produzir no Brasil, porém, não resolve sozinho o desafio de chegar ao Top 5. Para alcançar essa posição, a BAIC terá de disputar categorias de grande volume. E isso significa descer para regiões de preço onde estão alguns dos carros mais vendidos do país.

Ramos estima que a linha completa poderá ocupar uma faixa entre aproximadamente R$ 100 mil e R$ 600 mil. Desta forma, terá produtos de imagem e menor volume, mas também carros feitos para escala. Quando questionado se isso significaria preços agressivos, o executivo preferiu outra palavra. “Competitivo. Competitivo. Muito competitivo.”

Rede e peças começam antes dos carros

Apresentação de conssessionárias da BAIC pelo Brasil
Apresentação de conssessionárias da BAIC pelo Brasil [Auto+/Luiz Forelli]

A outra lição aprendida com a primeira onda das chinesas está no pós-venda. Colocar carros nas ruas rapidamente é relativamente simples. Agora, atender milhares deles alguns anos depois é outra história. A BAIC diz que quer evitar justamente esse problema.

“Um bom pós-venda e não faltar peças. Então, antes dos carros chegarem, já estamos importando as peças.” Segundo Ramos, 97% das peças consideradas críticas estarão disponíveis, enquanto a estrutura logística de galpão já existente da Foton ajudará a sustentar essa operação.

150 redes a BAIC planeja no Brasil até final de 2027
150 redes a BAIC planeja no Brasil até final de 2027 [Auto+/Luiz Forelli]

A rede também crescerá rapidamente. A previsão é chegar ao fim de 2026 com cerca de 50 pontos e alcançar 150 concessionárias até o final de 2027, segundo o planejamento divulgado pela companhia. “A rede já está em treinamento, querendo entender os consumidores, ler o que falam nas redes sociais, interagir e entender a demanda dos clientes”, disse. 

E você, acha que a BAIC realmente conseguirá entrar no Top 5 do mercado brasileiro até 2030? Deixe seu comentário!

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