Quando me perguntam se as fabricantes chinesas vieram para ficar no Brasil, fica cada vez mais difícil responder que não. Algumas provavelmente vão desaparecer no caminho com esse mar que atualmente compõe 14 marcas e ainda outras chegando em 2026. Só que algumas já mostram que vieram para jogar pesado. Uma delas é justamente a Geely, agora com o novo EX5 EM-i, seu primeiro híbrido no Brasil.
A montadora começou tímida por aqui com o EX5 elétrico, mas encontrou seu espaço com o EX2, que inclusive vem vendendo muito bem. E não demorou para ficar claro que o alvo da Geely é a BYD. É assim no embate entre EX2 e a família Dolphin e agora se repete com o EX5 EM-i contra a família Song. E força não falta, já que falamos da dona da Volvo, Lotus, Lynk & Co, entre outras, além de ter comprado 26% da Renault.
Com três versões (Pro de R$ 199.990, Max de R$ 209.990 e R$ 244.900 na topo de linha Ultra, essa última testada) o EX5 EM-i, que vai ser montado em São José dos Pinhais (PR) no segundo semestre, promete até 1.300 km de autonomia combinada, espaço, muita tecnologia embarcada e um custo-benefício difícil de bater. Só que, como quase todo chinês, ele também mostra pontos que ainda precisam amadurecer.
Mais chinês que os outros



De fato, entre os SUVs híbridos que chegaram recentemente ao Brasil, o Geely EX5 EM-i foi o que mais se mostrou como um legítimo carro chinês. Isso aparece tanto no visual mais genérico quanto principalmente nos acertos dinâmicos, que ainda mostram que o projeto precisa amadurecer um pouco mais para o gosto brasileiro.
A proposta aqui não é agressiva em desempenho. Debaixo do capô, o EX5 carrega um motor 1.5 aspirado de 99,3 cv e 12,7 kgfm aliado a uma bateria de 29,8 kWh, que alimenta o motor elétrico dianteiro de 217,5 cv e 26,7 kgfm. No total, são 262 cv e 38,7 kgfm enviados para o eixo dianteiro através do câmbio DHT de uma marcha.



Desta forma, o SUV entrega na prática um desempenho mais moderado que os números sugerem. Isso quer dizer que o EX5 até anda bem, faz um 0 a 100 km/h em 7,8 segundos e entrega acelerações e retomadas corretas, mas nada que impressione. Existe uma aceleração bem linear, sem aquela patada violenta de alguns híbridos plug-in mais fortes.
Por exemplo, ele anda praticamente igual que um BYD Song Plus, mas não chega perto da brutalidade de um GWM Haval H6 PHEV35/GT que tem outra proposta e preço. Até porque o sistema precisa lidar com 1.844 kg, e isso aparece quando você exige mais potência.

Nessas situações, o motor a combustão invade a cabine de forma bem perceptível, como o clássico efeito elástico de um CVT. O 1.5 sobe giro rapidamente para gerar energia e ajudar o sistema híbrido, deixando nítido que toda a calibração foi feita para priorizar eficiência e autonomia. E nisso ele realmente funciona muito bem.
Quase um elétrico na cidade
Na cidade, rodando com a bateria carregada, o EX5 praticamente se comporta como um elétrico puro, pois ele sempre vai priorizar o modo elétrico como outros PHEVs. Em nossas mãos, o EX5 conseguiu fazer cerca de 120 km e 130 km de autonomia elétrica urbana, melhor que os 112 km divulgados pelo Inmetro.



Nesse caso, o sistema sempre prioriza o motor elétrico até o estado de carga chegar perto dos 20% de SoC. A partir daí, entra o chamado modo de sustentação de carga, onde o motor térmico passa a atuar mais constantemente para preservar a reserva energética da bateria.
O motor a combustão só vai trabalhar com a bateria carregada se você pisar tudo no acelerador, que é quando acontece o trabalho síncrono dos motores para entregar potência máxima. Mas quando a bateria chega aos 20%, ele praticamente vira um híbrido pleno tradicional, enquanto alterna os dois propulsores.



Nesse cenário, registramos entre 15 km/l e 17 km/l na cidade. Somando consumo híbrido com a autonomia elétrica e o tanque de 60 litros, chegamos perto dos 1.250 km totais de autonomia combinada.
Na estrada, porém, o cenário muda. Como há menos regeneração de energia e maior demanda contínua, a autonomia elétrica cai para algo entre 80 km e 90 km. O consumo híbrido ficou próximo dos 13 km/l, resultando em aproximadamente 860 km totais de alcance. Ainda assim, continua sendo um número muito bom e deixa claro que o foco do EX5 EM-i está justamente na eficiência energética e não explosão de potência.
Maior autonomia e carrega mais rápido



Outro ponto em que o Geely EX5 EM-i consegue se destacar entre os rivais está justamente no carregamento. Mesmo sendo um híbrido plug-in, ele aceita carregamento rápido em corrente contínua (DC) de até 60 kW, acima dos principais concorrentes.
O BYD Song Plus aceita até 18 kW, o GWM Haval H6 PHEV19 chega a 33 kW e o Jaecoo 7 vai até 40 kW. Segundo a Geely, isso permite ao EX5 ir de 30% a 80% de carga em apenas 16 minutos. Já no carregamento em corrente alternada (AC), via wallbox, ele suporta até 6,6 kW e consegue ir de 25% a 100% em cerca de 4,6 horas.
Confortável até demais….



E essa proposta conversa diretamente com a condução urbana. Na cidade, ele é extremamente agradável de dirigir justamente por funcionar grande parte do tempo como um elétrico. As saídas são rápidas, as retomadas acontecem com facilidade e o torque imediato ajuda muito em cruzamentos e mudanças rápidas de faixa.
Soma isso ao bom ângulo de ataque, que permite abusar sem medo de lombadas e valetas, e o resultado é um SUV suave e confortável de usar no dia a dia. Só que o lado mais chinês do carro aparece justamente na suspensão independente.



O conjunto ainda sofre por causa da calibração excessivamente macia como uma gelatina. Faltou uma tropicalização melhor de molas, batentes hidráulicos e amortecedores para o solo brasileiro, embora a Geely afirme que houve calibração da Lotus. Ou seja, uma suspensão mais durinha de carro esportiva. Todavia, não é isso que aparece na prática: aqui temos um carro com bastante arfagem e rolagem de carroceria.
No dia a dia, ao passar por buracos ou relevos de asfalto maiores, ele balança bastante a carroceria e passa uma sensação excessivamente macia em pisos ruins. Não chega a ser desconfortável o tempo inteiro, por conta da filtragem até que boa em algumas irregularidades. Ainda assim, curiosamente, em velocidades de cruzeiro na estrada ele consegue ficar bem plantado e estável.
Direção anestesiada mas competente

A direção também poderia ser melhor calibrada. Mesmo no modo mais pesado, ela continua muito sobreassistida em velocidades baixas e médias. O carro até oferece três níveis de peso, mas falta comunicação. Existe aquele ponto morto de centro de volante típico de alguns chineses, onde pequenos movimentos não transmitem exatamente o que as rodas estão fazendo. Estão, isso tira um pouco a conexão com o carro.
Por outro lado, o esterçamento generoso ajuda demais nas manobras em garagem. O EX5 vira bastante e estaciona muito bem para um SUV desse porte. Em curvas, inclusive, ele até vai bem. Mesmo com a suspensão molenga, ele consegue manter estabilidade obediente, com as assistências sempre entrando agressivamente em curvas mais fechadas, típico também de chinês.

Os freios também passam confiança. O problema aparece somente nas manobras em garagem, onde existe uma resposta abrupta da frenagem por assistência eletrônica. Basta tocar levemente no pedal para o carro parar totalmente, o que dificulta modular aquelas pequenas aproximações em vagas. No uso normal, porém, isso não chega a incomodar.
Outro ponto positivo é o isolamento acústico. O EX5 filtra muito bem tanto os ruídos externos quanto o som de rodagem dos pneus e consegue deixar a cabine bastante silenciosa na maior parte do tempo.
Acabamento que surpreende



O interior do Geely EX5 EM-i talvez seja um dos pontos que mais surpreendem no SUV. O acabamento entrega um nível extremamente primoroso, com muito volume de espuma espalhado pela cabine e sensação de refinamento.
Tanto o tabelier quanto os painéis recebem revestimentos macios de ótima qualidade, enquanto todas as portas trazem superfícies acolchoadas e agradáveis ao toque. Soma-se isso às boas peças e encaixes, e o resultado é uma cabine que passa sensação genuína de qualidade, principalmente no console central muito bem refinado e nos materiais usados.



E, como bom carro chinês moderno, o EX5 também vem lotado de equipamentos nessa versão Ultra. O painel de instrumentos digital de 10,2 polegadas até cumpre bem o papel, mas ainda decepciona um pouco em personalização.
Basicamente só a área direita muda, além do sistema ser meio confuso de mexer. Os mesmos comandos do volante usados para volume e troca de música também controlam o painel quando você aperta um botão específico.

Já a central multimídia de 15,4 polegadas é gigantesca e a resolução é excelente. O sistema responde rápido, a navegação é fácil e o Apple CarPlay e Android Auto sem fio funcionam muito bem, conectando rápido e sem bugs.
Alguém lembrou dos botões
E um detalhe que sinceramente merece até comemoração. Graças ao senhor Geely, ainda temos comandos físicos para os retrovisores nas portas, seletor rotativo de volume e controles físicos do ar-condicionado. Quem imaginaria que um dia precisaríamos agradecer por botões físicos? Pois é. Com alguns carros chineses atuais, isso virou raridade.

A única função que continua dentro da central e pode incomodar algumas pessoas é o acendimento dos faróis. No meu caso, não há problema porque praticamente deixo tudo no automático. Já o seletor de marchas na haste ajuda bastante a liberar espaço no console central, deixando bons porta-copos e um ambiente mais limpo visualmente.
Mais equipado que muito rival
Em equipamentos, o EX5 Ultra entrega até mais que rivais diretos como o BYD Song Plus. Os bancos são elétricos e contam com memorização. Apesar de parecer confortável, senti um certo incômodo na coluna em viagens mais longas por conta do excesso de espuma e da ausência de ajuste lombar.



A ergonomia no geral é boa, mas também senti falta de um ajuste melhor de altura e profundidade do volante para pessoas maiores, como no meu caso com 1,88 m. O banco até recua bastante, porém não desce tanto. Ainda assim, depois de um tempo você acaba se acostumando. Outro detalhe que faltou foi ajuste de altura do cinto de segurança, algo que os chineses parecem não ligar muito.
Por outro lado, o SUV compensa com ventilação para os bancos dianteiros, Head-Up Display (HUD) de 13,8 polegadas, sistema de som premium Flayme com 16 alto-falantes e subwoofer de ótima qualidade, ar-condicionado digital de duas zonas, câmera 540°, sensores dianteiros e traseiros, retrovisores rebatíveis eletricamente com aquecimento, retrovisor interno fotocrômico e teto solar elétrico.

Vale lembrar que alguns desses itens ficam de fora na versão Pro de entrada, como câmera 540°, sensores dianteiros e retrovisores com aquecimento.
Segurança, mas que apita demais
Na parte de segurança, o Geely EX5 EM-i também vem extremamente completo, como todo chinês nessa faixa já passou a entregar. O SUV oferece piloto automático adaptativo com função stop and go, assistente de permanência em faixa com centralização, alerta de colisão com frenagem automática de emergência e alerta de ponto cego com tráfego cruzado traseiro.



Ainda tem mitigação de colisão traseira, comutação automática dos faróis e reconhecimento de placas de velocidade. E é justamente aí que mora o sistema mais chato do carro. Toda vez que você ultrapassa minimamente o limite, ele começa a apitar sem parar.
Se a câmera interpretar uma placa errada então, pior ainda. E o mais irritante é que não existe memorizador. Ou seja, toda vez que você desliga e liga o carro, precisa ir novamente no sistema para desativar os alertas. Além disso, o EX5 traz seis airbags.
Espaço generoso, mas porta-malas só razoável


Na traseira, o Geely EX5 EM-i tem comodidade muito bem resolvida graças ao bom ajuste dos assentos e ao espaço interno generoso. O SUV tem 4,74 m de comprimento, 1,90 m de largura, 1,68 m de altura e 2,75 m de entre-eixos.
Com o banco dianteiro ajustado para mim, quase todo recuado, ainda sobrou praticamente um palmo entre meu joelho e o banco da frente. O espaço para os pés também é excelente, enquanto os vidros amplos ajudam bastante na sensação de amplitude da cabine. Soma-se isso às saídas de ar traseiras e portas USB.


O porta-malas de 428 litros, porém, já não impressiona tanto diante da categoria. Até um Toyota Corolla Cross, por exemplo, entrega 440 litros mesmo sendo consideravelmente menor, com 4,46 m de comprimento. Ainda assim, ao menos aqui temos abertura elétrica da tampa e estepe.
Veredicto
O Geely EX5 EM-i se mostra um SUV extremamente decente e com um custo-benefício difícil de ignorar em todas as versões. Ele entrega ótimo acabamento, muito equipamento, boa autonomia elétrica e um conjunto híbrido que realmente pode chegar perto dos 1.300 km.

Ao mesmo tempo, fica claro que ainda falta um certo amadurecimento para o mercado brasileiro, principalmente na calibração de suspensão e em alguns detalhes dinâmicos. Pequenos ajustes fariam o EX5 fechar o pacote praticamente com chave de ouro.
Ainda assim, isso não desmerece o SUV, que continua sendo um ótimo produto dentro da categoria. Mas a briga de SUVs médios híbridos plug-in está cada vez mais forte com o BYD Song Pro (R$ 199.990), Jaecoo 7 Elite (R$ 189.990) e Jetour S06 (R$ 184.990) que oferecem uma dinâmica mais afiada dentro de uma proposta chinesa.
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