Ter mais potência sempre foi argumento para vender um carro. Só que, em 2026, algumas fabricantes começaram a fazer justamente o contrário: pegaram motores que já estavam prontos, mexeram na calibração e reduziram deliberadamente alguns cavalos dos veículos.
Não aconteceu porque os motores ficaram ultrapassados ou porque as marcas simplesmente decidiram piorar o desempenho. O motivo passa pelo IPI Verde, que mudou a maneira como o Imposto sobre Produtos Industrializados é calculado para os carros vendidos no Brasil. Agora, além da eficiência, tipo de propulsão, segurança e reciclabilidade, a potência também pesa na conta.
E o número que começou a aparecer com frequência nas fichas técnicas é entre 115 e 116 cv na sua grande maioria. Não é coincidência. O Auto+ separou cinco carros que perderam potência justamente depois da nova regra e explica por que alguns poucos cavalos podem representar bastante dinheiro quando multiplicados por milhares de unidades.
Por que 115 cv virou o novo número mágico?

Para automóveis de passageiros, o IPI Verde parte de uma alíquota-base de 6,3%. A partir daí, o valor pode subir ou cair conforme diferentes características do carro. Um elétrico, por exemplo, recebe redução de dois pontos percentuais no critério de propulsão. A eficiência energética, reciclabilidade e tecnologias de segurança também diminuem a tributação.
A potência tem outra tabela. Um veículo com até 85 kW, cerca de 115,6 cv, não recebe acréscimo por esse critério. Porém, basta passar desse limite e permanecer até 105 kW, ou cerca de 142,8 cv, para entrar um adicional de 0,75 ponto percentual. Depois disso, os acréscimos continuam crescendo conforme a potência aumenta.
![Jeep Avenger Longitude [Auto+ / João Brigato]](https://www.automaistv.com.br/wp-content/uploads/2026/09/jeep-avenger-longitude-14-1320x743.webp)
Para um carro, realmente é pouco. Só que uma fabricante não produz uma unidade. Quando dezenas de milhares de veículos passam pela fábrica todos os anos, evitar esse adicional em cada um deles muda totalmente a conta.
Além disso, vale lembrar que isso não significa que todo carro de 115 cv pagará exatamente 6,3% de IPI. A alíquota final depende da soma dos demais critérios previstos pelo programa. A potência é apenas uma das peças desse cálculo.
Chevrolet Tracker

O Chevrolet Tracker é o exemplo mais claro de todos porque a fabricante americana escreveu o limite do imposto na ficha técnica. Antes da mudança, o motor 1.0 turbo com injeção direta entregava 117 cv com gasolina e 121 cv com etanol.
Pouco tempo depois, porém, a Chevrolet recalibrou o três cilindros e passou a declarar exatamente 115,5 cv com os dois combustíveis. A Chevrolet não cortou o torque. O 1.0 continua entregando 18,3 kgfm com gasolina e 18,9 kgfm com etanol.
Caoa Chery Tiggo 8 Pro

Nem os SUVs maiores escaparam das novas calibrações. O Caoa Chery Tiggo 8 Pro com seu motor 1.6 turbo a gasolina perdeu 7 cv no começo de 2026.
Antes, o quatro cilindros entregava 187 cv e 28 kgfm de torque. Depois da atualização, a potência caiu para 180 cv, enquanto o torque permaneceu nos mesmos 28 kgfm.
Hyundai Creta

O Hyundai Creta 1.0 TGDI foi o mais recente que sofreu alteração, assim como o HB20 e o i20. Antes, o SUV entregava 120 cv com etanol e 115 cv com gasolina, além dos mesmos 17,5 kgfm.
Agora são 115 cv independentemente do combustível, enquanto o torque novamente permanece inalterado. Além disso, no início do ano, as versões com motor 1.6 TGDI saíram de 193 cv para 176 cv também para se enquadrarem. Vale lembrar que eles também viraram flex e ajudam nessa questão do imposto como citado.
Fiat Fastback/Pulse

Na Stellantis, a mudança é a mais perceptível. O motor 1.0 Turbo 200 durante anos se destacou justamente por ser um dos três cilindros mais fortes do mercado nacional. No Fiat Fastback e Pulse, ele entregava 125 cv com gasolina e 130 cv com etanol, além de 20,4 kgfm.Só que a linha 2027 agora entrega 116 cv com gasolina ou etanol.
Dessa forma, a perda chega a 9 cv usando gasolina e nada menos que 14 cv quando abastecido com etanol. O torque, por outro lado, permanece inalterado com 20,4 kgfm. Vale lembrar que esses 116 cv são um arredondamento da faixa dos 85 kW.
Peugeot 208/2008

Assim como os Fiat, o 208 e 2008 utilizam o conhecido motor T200 da Stellantis que sofreu a mesma consequência. Até a linha anterior, portanto, tínhamos os mesmos 125 cv com gasolina e 130 cv com etanol. Agora, porém, a Peugeot declara 115 cv com os dois combustíveis. Assim, são 10 cv a menos com gasolina e 15 cv de redução com etanol. É a maior queda entre os cinco carros desta lista.
Curiosamente, a Peugeot seguiu uma forma diferente de apresentar praticamente a mesma calibração usada pela Fiat. Enquanto os italianos arredondam o número para 116 cv, a marca francesa divulga 115 cv. O limite técnico continua orbitando os mesmos 85 kW estabelecidos pela tributação. O torque também continua a 20,4 kgfm.
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