Ao vivo
Home » Mercado » Ford achou que IA resolveria tudo e teve que voltar atrás

Mercado

Não foi da melhor forma

Ford achou que IA resolveria tudo e teve que voltar atrás

Fabricante americana teve que reforçar o time com mais de 350 especialistas experientes após perceber que qualidade não é só de algoritmo

5 min de leitura

A Ford descobriu, do jeito mais caro possível, que inteligência artificial ajuda bastante, mas ainda não substitui especialistas humanos que entendem de carro. Depois de apostar em ferramentas digitais para melhorar a qualidade de seus projetos, a marca americana reforçou a equipe com mais de 350 especialistas experientes, justamente para corrigir uma falha que a tecnologia sozinha não conseguiu resolver.

As informações trazidas pelo site Bloomberg afirma que o deslize da Ford não fez com que a marca abandonasse a inteligência artificial. A empresa seguirá investindo nesse tipo de ferramenta, porém agora admite que o sistema só funciona bem quando recebe orientação de quem já passou por vários ciclos de desenvolvimento.

Ford precisou voltar para quem entende de carro

A montadora de Michigan passou os últimos anos tentando reduzir os problemas de qualidade, principalmente depois de ter uma sequência pesada de recalls nos Estados Unidos. Por isso, a marca reorganizou suas áreas de engenharia, manufatura, cadeia de fornecedores e qualidade em uma estrutura única.

Ford Maverick Hybrid 2026 [Auto+ / João Brigato]
Ford Maverick Hybrid 2026 [Auto+ / João Brigato]

O objetivo era ver de perto o carro como um fluxo contínuo, desde o software até a linha de produção. Como os carros ficaram muito complexos, um problema de um fornecedor, em um módulo ou software pode comprometer o carro, e assim gerar recalls.  Com isso, a Ford então utilizou a inteligência artificial para esses processos que não foram bem sucedidos.

Ai, a fabricante percebeu que faltava um ingrediente básico para tudo isso: experiência acumulada. Charles Poon, vice-presidente de engenharia de hardware veicular da Ford, admitiu que a empresa acreditava demais na inteligência artificial. 

Ford Bronco Sport Badlands [Auto + / Rafael Pocci Déa]

“Por engano, pensamos que, ao simplesmente introduzir inteligência artificial e incorporar os requisitos de projeto que tínhamos, obteríamos um produto de alta qualidade”, disse o executivo. “Ao longo dos anos anteriores, não demos a devida atenção à experiência de nossos engenheiros mais experientes, que nos acompanharam em diversos ciclos de desenvolvimento de produto.”

Ou seja, a marca imaginou que bastaria alimentar o sistema com requisitos de projeto para chegar a um produto de qualidade. O problema é que carro não funciona desse jeito.

IA não enxerga tudo que um engenheiro vê

Ford Territory Titanium [Auto+ / Rafael Pocci Déa]

A inteligência artificial consegue cruzar dados, identificar padrões e apontar riscos com velocidade absurda. Porém, ela não carrega a memória de quem viu diversas falhas aparecerem em gerações diferentes. Esse é justamente o ponto central da decisão da Ford.

A empresa trouxe especialistas veteranos, alguns chamados internamente de engenheiros de barba grisalha, para encontrar pontos de falha antes que uma peça chegue à fábrica. Esse tipo de profissional costuma enxergar o problema antes do teste final.

Ford Mustang Dark Horse [Auto+ / João Brigato]
Ford Mustang Dark Horse [Auto+ / João Brigato]

Ele percebe quando uma solução parece boa no computador, mas pode dar ruído depois de alguns meses de uso. Também entende quando uma peça funciona no laboratório, mas sofre no calor, na vibração ou no uso real. É justamente essa leitura que a Ford achava que a inteligência artificial saberia fazer, mas não conseguiu.

A Ford não trouxe esses engenheiros apenas para revisar projetos. A marca também quer que eles treinem funcionários mais jovens e ajudem a reprogramar os sistemas de inteligência artificial. Ou seja, trazer a experiência humana em um memorizador para a IA e para os engenheiros mais novos. 

Centro de qualidade

Ford F-150 Tremor [Auto+/Rafael Pocci Déa]

A Ford passou  também a usar seu lema Quality Comes First na prática. Ele quer dizer algo como qualidade em primeiro lugar, justamente para evitar que defeitos cheguem ao consumidor.

Por isso, a Ford também espalhou centenas de câmeras com inteligência artificial em suas fábricas. Esses sistemas ajudam a detectar falhas visuais, desvios de montagem e possíveis problemas antes do carro sair da linha.

Ford Ranger XL branca parada de traseira na estrada de terra
Ford Ranger XL [Auto+/Rafael Pocci Déa]

Ainda assim, a marca entendeu da prática que não basta a câmera, software e algoritmo estarem lá sozinhos. Precisa de um olhar técnico. Eles ajudam no processo, porém precisam de gente capaz de interpretar o que parece na tela. Como muitos falam, a IA está para ajudar e não substituir em muitos casos, e esse é um deles. 

Apesar do tropeço inicial, a nova estratégia começa a mostrar resultado. A Ford ficou em primeiro lugar entre as marcas generalistas no estudo de qualidade inicial da J.D. Power nos Estados Unidos. Esse levantamento mede problemas relatados pelos consumidores nos primeiros 90 dias de uso. Além disso, modelos como F-150, Super Duty e Mustang tiveram bom desempenho em suas categorias. 

E você, acha que a inteligência artificial pode substituir engenheiros na indústria automotiva? Deixe seu comentário!

Deixe um comentário

Luiz Forelli

Jornalista pela Faculdade Cásper Líbero, sempre fascinado por carros. Passava horas dirigindo no colo da família dentro da garagem ou empurrando carrinhos pela casa, como se já soubesse que seu caminho estaria entre motores e rodas. Hoje, realiza o sonho de infância escrevendo sobre o universo automotivo com a mesma empolgação de quem brincava com um volante imaginário. No lugar do sangue, corre gasolina, e isso nunca foi segredo.

Você também poderá gostar